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sexta-feira, 27 de setembro de 2024

AS PESSOAS E AS ABELHAS (Conto)

 



Marisvaldo é um sitiante e tem uma propriedade rural no distrito de Vila Vargas, próximo do Córrego que passa pelo distrito, onde planta uma roça de mandioca que é o principal produto de comercialização. Diariamente ele arranca os pés de mandioca e leva para casa na carreta do trator Massey Ferguson 50X que comprou há três anos quando o preço da mandioca estava elevado e a safra foi muito boa, juntou o lucro da safra com as economias de anos anteriores e realizou o sonho de comprar o trator, para o que ainda faltou, fez um financiamento em 24 parcelas no Banco do Brasil. Que maravilha! Agora o trabalho está mais fácil, mais ágil e Marisvaldo  não precisa contratar trabalhadores para tantas diárias como antes.

Sentado ao volante do seu Massey Ferguson 50X, Marisvaldo vai alegremente para casa, onde Dona Marilei o espera na sombra do pé de manga para lavar as mandiocas, depois descascar, daí lavar outra vez e separar em pacotes de um quilo cada. É serviço para o dia todo. Vários dias, até o congelador se encher e Marisvaldo levar para os mercados onde os vende por R$ 3,50 o quilo, o mercado vende ao consumidor por R$ 6,50 sem ter o trabalho que Marisvaldo teve de arar a terra, plantar, capinar, colher, descascar, embalar, congelar e ainda transportar até o mercado.

- Se os humanos fossem como as abelhas, não seria desse jeito – disse Marisvaldo, no outro dia, para Dona Marilei, enquanto tomavam chimarrão antes de ir para a cidade entregar as mercadorias.

- Abelhas não plantam mandioca – respondeu Marilei, rindo e sem entender o que o marido queria dizer.

- O mercado, - disse Marisvaldo - depois que apareceu essa palavra, os animais humanos se diferenciaram dos outros animais, e para pior. Quem dera fôssemos como os outros animais, ou como as abelhas.

- O que tem as abelhas? – Perguntou Marilei ocupada com a leiteira que já fervia o leite.

O que tem as abelhas? A resposta era tão óbvia que Marisvaldo até se irritou. Será que a mulher não é capaz de pensar? Basta observar as abelhas! Enquanto a mulher esperava por uma resposta, o marido puxou do bolso uma palha de milho, encheu com o fumo cortado, enrolou a palha sobre o fumo, pôs na boca e acendeu com uma brasa do fogão, deu uma baforada bem longa e olhou para a fumaça que se ia por cima das panelas. Estava mais calmo, até sorriu.

- As abelhas, elas são insetos voadores que produzem mel com o alimento que elas tiram das flores...

- A água está quente, - observou Marilei - puxa a chaleira mais para o canto.

Marilei levantou-se da cadeira e foi coar o café, a leiteira já tinha fervido o leite e estava na beira da chapa do fogão para não derramar por cima.

- As abelhas, Mari, você me perguntou sobre as abelhas...

- Eu sei, elas fazem mel, aqui na mesa tem um pote do que você colheu em junho, ainda tem mais lá dentro, na dispensa.

- É uma metáfora, Mari. As abelhas, elas têm uma filosofia de vida melhor que os humanos.

- Filosofia? Plantar mandioca para vender e comprar coisas boas para nós e você me agradar que eu dou par você, isso é filosofia, isso é a vida!

- Antropização...

- Também não precisava me xingar, eu estava brincando, eu gosto de dar para você porque você sempre me agrada, quando vai no mercado e vende as mandiocas, sempre traz um presente para mim. Vamos tomar café que tem muita mandioca para vender.

Marilei ficou em casa e aproveitou que o marido foi para a cidade e ia demorar por lá e fez uma limpeza geral, botou roupas na máquina, limpou o banheiro e passou pano por todos os cômodos. Embaixo da cama encontrou um livro que Marisvaldo estava lendo: Introdução à Sociologia. “Esse homem ainda vai endoidecer com esses livros que anda lendo, agora deu de falar coisas que não entendo. Filosofia! E aquele palavrão, antro... não sei o quê”. Abriu o livro e ficou um tempão olhando as palavras diferentes que estavam lá. Elite, Capitalismo, Instituição, Sociedade Estamental, Alteridade, Antropologia... “Antropologia? Foi essa a palavra que o Mari me falou?” Sentou-se na cama e foi ver significado de antropologia. Leu, releu, mas não achou o que queria achar. “Que que isso tem a ver com as abelhas?

- Oi Mari, já estou de volta. Eu trouxe um presente para te agradar!

- O que tem a ver Antropologia com as abelhas?

- Antropização, a palavra é antropização, que é como o ser humano se relaciona com o meio onde vive... Deixa prá lá, depois, mais tarde, eu te agrado com o presente.

sábado, 21 de setembro de 2024

A CADEIRA

 



A cadeira é um objeto muito útil para se descansar, ou cansar quando se trabalha sentado por um longo período de tempo. Serve também para pendurar bolsas, casacos ou blusas e até subir em cima para alcançar móveis mais altos, como armários ou guarda-roupas. Outra utilidade, descoberta recentemente, em São Paulo, é que pode ser usada para esculhambar com um candidato a prefeito provocador.

A cadeira também serve para um bom bate-papo, e é disso que eu gosto, uma cadeira aqui outra ali e outra acolá e a conversa rolando entre elas fazendo amarras que só a vida sabe dar. Nada como uma cuia de chimarrão cheia de assuntos passando de mão em mão. Duas cadeiras na varanda podem suscitar segredos que não devem ir além do telhado, especialmente se rolar uma cervejinha entre o bem e o mal, o profano costuma vencer o divino nessas horas, mas é quase divino quando o chão empurra as cadeiras para unir os corpos!

Mas, se a cadeira está vazia é porque alguém a deixou lá. Alguém que se foi, talvez para nunca mais voltar, talvez para voltar algum dia com saudades, talvez para pedir perdão, talvez para tomar satisfação, talvez para se vingar. Talvez, só para tomar chimarrão. Uma cerveja. Talvez...

A cadeira da candidata Marina Helena, foi arremessada pelo candidato Datena contra o candidato Marçal. A cadeira poderia ter ficado ali e o Datena ido embora. Se o Marçal fosse mais coerente, nada teria acontecido e cada um teria sua cadeira em paz. Eu tenho a minha cadeira, mas tem uma cadeira vazia do meu lado, ela está cheia de memórias confusas. Não tem chimarrão, não tem cerveja, só um vazio cheio de emoções difusas.

Que faço com essa cadeira? Às vezes ela é mais importante que tudo que há na casa! Que amarras do passado ainda estão sentadas nessa cadeira vazia? A televisão reza um terço em volume altíssimo, denunciando surdez do ouvinte que quase não ouve. Não me acorde que estou dormindo, a voz vem da cadeira que dorme octogenária. Tem uma saudade sentada numa cadeira vazia. Cadeiras vazias não enchem o auditório da vida, elas apenas ocupam o espaço.

Tem muitas cadeiras esparramadas por aí, e eu ouço vozes de cada uma. Seriam fantasmas? Almas penadas? Vozes do além assentando no passado para lembrar duras lições que não aprendi? Uma confusão de murmúrios, risos e choro. Quem sou eu entre tantas cadeiras? Quem há de sentar na cadeira vazia ao meu lado? Brindaremos a novidade de vida ou choraremos o arrependimento eterno das incompreensões?

Quem, quem há de preencher o vazio das cadeiras imaginárias!

sábado, 14 de setembro de 2024

UMA LOUCURA POR MIM! (conto)

 



- Boa noite senhor!

O garçom cumprimentou o cliente que estava à porta. Tinha ainda a bandeja na mão, pois acabara de atender uma mesa próxima, pôs a toalha sobre o ombro e se dispôs ao recém-chegado oferecendo um lugar para que pudesse sentar-se.

- Eu estou procurando por uma mulher bonita, de uns cinquenta anos, ela já deve ter chegado.

- Como é o nome dela?

- Ela tem cabelos castanho-claro, compridos até os ombros...

- Por favor, me acompanhe.

Pode-se dizer que o bar estava lotado, diz-se lotado quando todas as mesas estão ocupadas. No caso, havia ainda algumas poucas mesas disponíveis, para uma delas o garçom ia encaminhar o cliente antes dele perguntar pela ‘mulher bonita de uns cinquenta anos”. Enquanto andavam por entre as mesas, José dos Santos, o cliente, pensava em que situação estava se metendo, tinha mesmo uma ‘mulher bonita de uns cinquenta anos’ sozinha numa mesa à sua espera? Bem, à sua espera já era querer demais, dissera-o ao garçom sem muito pensar, simplesmente disse, era o que desejava, encontrar uma ‘mulher bonita de uns cinquenta anos’, conhece-la, fazer amizade, talvez iniciar um namoro...

- Aqui, senhor!

José teve um sobressalto, como se acordasse atrasado com o despertador tocando ao ouvido. O coração acelerou, as mãos tremeram. Olhou para o garçom e queria se desculpar, mas ele já estava atendendo outra mesa que o chamara. José estava atônito, estacado diante da mesa ocupada pela ‘mulher bonita de uns cinquenta anos’, ela tinha cabelos castanho-claros, parecia simpática e era muito, muito atraente.

- Sim?

A ‘mulher bonita de uns cinquenta anos’ disse “sim?”, então era uma pergunta. José queria responder, mas como responder uma pergunta que diz simplesmente: Sim?

- Ugh... eu, eu...

- O garçom disse que o senhor estava me procurando.

- É, desculpe, acho que eu fiz uma besteira.

José não teve coragem de prosseguir com seu plano mirabolante. Nem dá para afirmar que era um plano, enquanto dirigia seu Ford Ka pelas ruas da cidade pensava que seria legal encontrar uma ‘mulher bonita de uns cinquenta anos’ hoje. Tem um ditado que diz que o pecado é como um pássaro que voa sobre a cabeça, não há nenhum problema em o pássaro voar sobre tua cabeça, mas deixa-lo fazer ninho, aí já é o mal. Não que fosse pecado deixar uma mulher bonita de uns cinquenta anos voar sobre a cabeça de José, mas pedir ao garçom para fazer ninho na mesa dessa mulher...

- Senhor?

José sentiu uma mão delicada a segurar seu braço.

- Vem, sente-se. Acho que o senhor precisa de um pouco de água. Garçom, um copo de água, por favor.

José tomou a água num gole, a mulher bonita de uns cinquenta anos tomou um copo de cerveja, ela esboçou um sorriso, era o sorriso mais lindo que José já vira na vida, era o sorriso que desejava enquanto dirigia seu Ford Ka.

- Diga, como é teu nome? Por que estava me procurando?

- Meu nome é José, José dos Santos. Essa parte não é difícil, mas, por que eu estava te procurando... isso é bem difícil... isso foi uma loucura minha...

- Uma loucura? Eu estava precisando mesmo de uma...

Ela estava também precisando de uma loucura. Que loucura! O bar estava lotado agora, nenhuma mesa estava disponível e havia clientes aguardando na porta. Em cada mesa parecia ter alguma loucura acontecendo. José desviou os olhos à esquerda da mulher bonita à sua frente e olhou para a mesas diante de si, na mesa mais próxima todos bebiam um brinde a alguém ou a alguma coisa, na outra tinha dois casais e o marido de uma colocava disfarçadamente um dos pés por debaixo da mesa, entre as pernas da mulher do outro enquanto conversava animadamente com o marido dela. O pássaro estava fazendo seu ninho!  Se olhasse cada mesa tinha lá um pássaro querendo fazer ninho... sim tinha lá suas exceções! José era uma exceção. Era?

- Qual foi a tua loucura? Me conte.

- É que, na verdade, eu não estava procurando você, quer dizer, estava, mas não era você, não era você, mas era você.

- Daí você me achou.

- Sim, daí o garçom me trouxe até aqui.

- Então vamos brindar a tua loucura, garçom um copo, não precisa, toma nesse da água mesmo.

Então brindaram à loucura, depois brindaram ao seu primeiro encontro, daí brindaram alguém ter feito uma loucura por uma mulher bonita de uns cinquenta anos, brindaram à vida, ao amor, aos desejos sexuais dos idosos, à filosofia, à literatura e ao marido da mulher bonita de uns cinquenta anos.

- Marido?

- Sim, olha ele aí, ele é escritor, vai amar essa história, certamente amanhã estará publicada na Folha de Dourados.

segunda-feira, 9 de setembro de 2024

MILAGRES

  


Experimentar o sobrenatural de um milagre é extraordinariamente bom. E, neste caso, chamamos de bom a uma sensação indescritível, fora do comum, maravilhoso. Milagres são sempre bons, são sempre extraordinários!

Extraordinário é só um modo de dizer, os milagres acontecem o tempo todo, basta entrar numa igreja, dessas ditas pentecostais, e você verá, em cada culto ou missa, relatos de livramentos, curas que a ciência não é capaz de explicar, restauração de casamentos e, nas denominações que apregoam o culto da prosperidade, milagres de sucesso empresarial e enriquecimento financeiro. Tudo vem do altíssimo!

E não é só nas igrejas, tem uma leva desses chamados ‘influencer digital’ ganhando, milagrosamente, rios de dinheiro fazendo rifas onde ninguém é sorteado. É a fé que move montanhas, e o processo de enganação é muito semelhante, primeiro se promete o Céu, seja ele o que vem depois da morte, seja ele agora apresentando os atrativos carros de luxo que serão sorteados, depois se pede o dízimo, as contribuições e as doações, pronto o milagre está realizado, igrejas e influencers se tornam empreendimentos milionários.

Um milagre! Só um milagre para fazer as igrejas se afastarem da idolatria do capitalismo e cumprir as determinações bíblicas de priorizar e acolher os mais humildes. Enquanto escrevo estas linhas, milhares de pessoas se reúnem na avenida paulista, liderados por pastores evangélicos riquíssimos, para declarar seu apoio ao homem mais rico do mundo que disse que não cumpriria as leis do nosso país.

É sobrenatural pensar que o amor possa ser vendido e comprado! Se ama mais as aparências do que o ser. Cirurgias plásticas transformam milagrosamente pessoas feias em bonitas, aumentando ainda mais o fosso entre o belo e o bonito. Nem sempre um rosto bonito é um rosto belo. Belo é aquilo que harmoniza e dá equilíbrio, bonito é aquilo que atrai. Cirurgias plásticas meramente estéticas desarmonizam o equilíbrio natural, substituindo o conceito de beleza pelo de boniteza.

Neste mundo de aparências, estamos todos precisando de um milagre. E fé não nos falta! Somos capazes de acreditar na lâmpada do Aladim e seus três desejos, acreditamos no poder do pé-de-coelho, na ferradura, na vassoura atrás da porta, chinelo de cabeça para baixo, a escada do azar, gato preto, quebrar o espelho, ver a noiva antes do casamento. Acreditamos no Papa, no Silas Malafaia, no R, R. Soares, Magno Malta. Tudo isso e todos eles fazem milagres. Milagre é a fé que move montanha, alguns movem montanhas de dinheiro!

Eu, eu preciso de um milagre chamado Serendipity!

terça-feira, 3 de setembro de 2024

QUINZE MIL!!!!!!!!!!!!!!!!

 

Ta aí a cara do meu blog. Desde 2017 eu publico nele meus escritos, Crônicas, Contos e Poesias. São mais de 430 postagens. Às vezes dá vontade de publicar um elogio para mim mesmo, dessa vez não aguentei, quando vi que tinha alcançado 15.000 visitas ao meu blog... Me desculpem aqueles que acham que devo ser sempre humilde, mas hoje vou me engrandecer!

Tudo bem que quinze mil visitas ao meu blog não é nada se comparado aos tais influencers que tem milhões de seguidores. Essa comparação também não serve, eu sou escritor, escrevo textos e o leitor é que vai formar sua opinião, diferente dos tais influencer que tem sempre uma receita prontinha, os seguidores não precisam nem pensar, quanto mais ouvem, mais ficam embrutecidos! Cá para mim, é hora de comemorar!

 


Mas, não sou só eu que escrevo, nesses anos de publicações, os leitores também participaram com, que maravilha! 408 comentários. Eu leio cada um e tenho vontade de responder, mas a maioria não se identifica, então fica meio difícil. Eu amo ler os comentários.


E é assim que a roda da vida de um escritor vai girando. Estou escrevendo meu quarto livro, que por enquanto, tem o título provisório de MUDANÇA DE FASE. Espero concluir ele até o início de 2.025. Os outros três, já publicados estão representados ali na primeira foto: JOSAFÁ, HISTÓRIAS DE ANA MAIRIA E SEU AVÔ e DOCE VENTURA.

Escrever é o que eu gosto de fazer, além de ler bons livros, muitos livros.

 


Volto a este assunto quando chegar a 20.000!!!

sábado, 31 de agosto de 2024

E SE EU APOSTASSE EM VOCÊ

 



Uma aposta é uma aposta. Já apostei na Mega-Sena umas dezenas de vezes, apostei também que seria Padre, mas enquanto estudava no seminário me vieram os hormônios e perdi a aposta me distraindo nas matinês, até que finalmente fui parar noutro colégio interno, num jogo quase ao contrário daquele do espaço intemporal.

À Mega-Sena fui quase fiel, outros jogos aos quais me entreguei esporadicamente foram de menor valor sentimental, um bingo aqui, uma rifa ali, coisas que só dão prazer momentâneo. Até ganhei alguns prêmios, mas ainda espero confiante na Mega! Ela é especial, tem muito valor!

O valor da Mega nem pode ser medido, e se for da Virada, então! Quanto é trezentos milhões de reais? Minha vida inteira parece ter passado muito ao largo de qualquer valor sentimental que se pareça com um prêmio desses. Nas matinês da minha adolescência o Silvio Santos distribuía dinheiro e as garotas dançavam o carnaval no salão e eu ia fazendo minhas apostas. A natureza punha as cartas todas na mesa, mas o medo de perder o jogo me fazia corar de vergonha só de pensar num insucesso e eu ia pro canto lamentar minha derrota sofrida por mim mesmo.

Ainda imberbe, pensei ter ganho o primeiro prêmio. Estava lá o troféu, ele brilhava e eu acreditei ter vencido. As regras não me eram conhecidas, eu só sabia que tinha apostado depois de ter apostado. A roleta girava ao som de Os Vikings. Entre o sobrenatural e a legião, os olhos falavam uma língua só compreendida pelos anjos. Enquanto o Internacional ganhava o campeonato brasileiro de futebol eu parecia ter feito os treze pontos da loteria esportiva. O campeonato acabou com a vitória do Inter e olhos não mais viram o prêmio.

Às vezes o jogo é sujo. Ainda que as luzes sejam coloridas e as caras pareçam amigáveis, uma aposta pode ser alta demais para um jovem amador. Essa palavra: amador, ou ama dor, parece resumir todo o desencanto de uma ilusão que vem das cores. A inocência enfrentando o colorido das casas e o amor, que não é do Céu, que não é do Inferno, penetra nas veias e inflama a vida. O remédio é amargo, absinto. Dor! A escuridão vem, mas ela termina exatamente quando a luz acende.

Trezentos milhões de reais! Dá para comprar o amor e aniquilar a dor. Com muito menos esbarrei em sentimentos que navegavam por águas mansas. Até que uma tranqueira aqui, uma pedreira ali e sempre tem uma corredeira que leva à cachoeira, muita emoção e um afogamento seguro no fim.

Se eu ganhasse na Mega-Sena, eu apostaria em você?

Se eu apostasse em você, ganharia na Mega-Sena?

domingo, 25 de agosto de 2024

EU QUERIA SABER

 


Quando deixei de querer saber só das coisas de casa e me interessei por conhecer o mundo, a primeira fonte de conhecimento foi a Enciclopédia Trópico que meus pais tinham adquirido. O mundo estava ali, dentro daqueles livros coloridos e interessantes. Tudo que eu lia era absolutamente verdadeiro, as outras verdades sobre o mesmo assunto ainda se encontravam escondidas alhures. Não se sabia da existência desses outros lugares, a verdade era única, absoluta, indiscutível, bíblica.

Daí vieram outros lugares, eles eram muito agradáveis, eu sabia, mas eram totalmente desconhecidos. As amizades não eram como as descritas nos Trópicos e a escola era um lugar muito estranho onde o conhecimento vinha das varas de vime e das bordoadas dadas pelo professor. Esse lugar era pavoroso e, mesmo assim, diziam que eu era inteligente. Talvez porque a escola me era totalmente estranha.

Eu só queria saber onde eu estava, mas ninguém me dava essa resposta. Três anos num seminário buscando a Deus e mais três num Colégio Agrícola encontrado o inferno. A paternidade dos padres e um diretor furibundo foram o bastante para me habilitar a muitos anos no purgatório. Eu só queria saber onde eu estava. Um dia li Dante Alighieri. A minha vida era uma Divina Comédia!

Nos bailes da vida eu via o Sol iluminando as noites de música e prazer. O mundo rodando aos meus pés arrastava complexas garotas que sorriam e dançavam. Uma cuba-livre e um Minister. A onda eram os filmes de Hollywood, dançar nas discotecas e ter uma Honda, com ela eu me agarrei até parar na farmácia. Eu só queria saber o que era a vida e os relacionamentos. Ninguém nunca me ensinou que o mundo não ensina, o mundo só aprende e rápido demais.

Me perdi nos lugares mais amáveis, onde pensei que iria me encontrar. O amor custa caro e o preço do pecado é a morte. Entre a Auréola e as luzes coloridas a pureza do amor desbota e o amor fica puído. Eu não sabia, mas o amor delirava. Como manter a pureza se o amor pede o pecado? Isso eu queria saber! O amor que era puro não me dava o amor que o pecado me dava. O pecado me dava o amor que o mundo conhecia, o mundo aprende rápido demais! O amor são as luzes coloridas?

Quando pensei já saber o bastante fui ser professor. Eu só queria saber se já sabia mesmo o bastante. Por vinte anos apliquei provas aos meus alunos. Quando descobri que todos os meus colegas, professores de outras disciplinas, reprovariam em qualquer das minhas provas e eu nas deles, descobri que meus alunos não tinham mais nada para me provar e desisti de lecionar. Eu queria saber por que as escolas cobram dos alunos o que os professores não sabem.

Por trinta e cindo anos trabalhei para alimentar um sistema que não concordo e agora já estou velho demais para lutar contra. Eu queria saber por que, por que eu tenho que ser a favor de um sistema que é contra mim? O mundo aprende rápido demais. O mundo contrata os pobres para trabalhar para os ricos e os filhos dos pobres para defender uma elite que rouba os trabalhadores, os filhos dos pobres são policiais, os filhos dos ricos são empresários. Os policiais defendem os empresários.

Eu queria sabe por que eu ainda escrevo.

quarta-feira, 21 de agosto de 2024

É PRA HOJE!

 


Eu quero para hoje porque estou com pressa. Ontem já não tive e nem a semana passada, não posso esperar mais uma semana. Estou ansioso, talvez necessitado. O tempo, tão precioso para ganhar dinheiro, permite tantas alegrias aos nossos olhos, mas depõe contra nossa felicidade.

Se não houvera o tempo, então tudo seria sempre hoje! Nada teria acontecido no passado que gerasse os traumas do presente, simplesmente porque o passado não existiria. Também não existiria o futuro e seríamos livres da ansiedade, esse mal que atormenta a alma. As contas não venceriam e ninguém seria condenado à prisão por ter cometido algum delito, não se pode atribuir uma pena sem definir o prazo de tempo e não podemos definir um prazo de tempo se o tempo não existe. E eu não estaria tão ansioso...

O Drummond sorri para mim da parede onde o tempo já não conta mais. Despejei sobre ele minha cara carrancuda e recebi de volta aquele mesmo sorriso de alguém que não se importa. Um dia, quando o tempo deixar de existir, nada mais será importante. Ficarei preso até lá? É essa a minha pena? Quem foi mesmo que me condenou? A culpa é da Eva, foi ela que comeu do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal e o deu a Adão. Se eu não conhecesse o mal, não ficaria tão apreensivo pela sua existência. Eu espero pelo bem, mas até quando? Se o tempo não existisse, o mal e o bem estariam diante de mim e eu poderia escolher.

O bem e o mal estão na razão, mas o amor está no coração. O coração não conta o tempo, apenas ama! O coração vaga por momentos que estão sempre no presente. O sentimento circula pelas veias e não tem prazo para chegar outra vez ao coração, está sempre circulando poesias e alimentando a alma que é eterna. Na eternidade o tempo não existe. O amor é eterno!

Eu amo eternamente a vida, estou acampado no meio do deserto da humanidade vivendo de Oásis em Oásis. Em cada um deixo um pouco do infinito do amor. Se sou acossado pelas asperezas da humanidade, entre uma eternidade e outra, deixo o coração eternamente sepultado no isolamento da vida. Penduro as delícias do amor na linha do horizonte para onde vou, ainda que ela recue enquanto me aproximo e tenha que demorar uma eternidade par alcançar. O que é a eternidade se o tempo não existe?

Eu não existo de fato, sou apenas uma representação da vida humana que não deveria existir, uma casa temporária para os sentimentos eternos. Afinal, quem sou eu? Essa matéria humana desagradável que destrói a natureza ou o sobrenatural que extrapola a matéria e se faz amor?

sexta-feira, 16 de agosto de 2024

EU QUEIRA NÃO SENTIR SAUDADES

 



Saudades é uma daquelas coisas ruins que são boas de sentir. É uma ausência que se faz presente para trazer uma tristeza da alegria que se foi, mas ficou para ser lembrada quando a saudade sente um desejo incontido de atenção. É como a esposa quando quer que o marido perceba que ela cortou o cabelo, ela penteia-os enquanto olha para ele, ajeita de um lado, depois do outro, então vira de costas e joga os cabelos para trás. Se o marido não diz nada ela vai embora e ele fica na saudade, o que ele queria não eram só os cabelos, mas o corpo todo que acaba de se ir. A saudade é assim, o desejo de um todo que se foi.

Eu tenho muita saudades das coisas que não fiz. É um incômodo que traz imagens tão generosas das coisas que poderia ter feito! Ah, que saudades! Eu podia ter escolhido morar numa cidade litorânea e, lá escolher ver o pôr do sol junto da pessoa amada. Aliás, eu poderia mesmo ter escolhido a pessoa amada. Tenho saudades do pôr do sol que não vi com a pessoa amada que não amei. E o pôr do sol estava ali, só para me provocar, como uma mulher que penteia os cabelos e depois ajeita de um lado e de outro, daí joga os cabelos para as costas e se vai porque eu não fui ver o pôr do sol.

Quisera eu nunca sentir saudades do futuro do passado. Esse tempo verbal da gramática parece existir só para alimentar a dor da saudade daquilo que poderíamos ter feito e não fizemos. Não posso ter saudades do futuro. Se bem que já ando tendo esse sentimento de que as coisas que ando planejando vão se distanciando das possibilidades, de um tanto, que só de pensar em quão bom seriam se se realizassem já ando tendo aqueles sentimentos que apertam o coração e nos fazem chorar por dentro fazendo rugas no rosto e misturando a alegria do que deveria ser com a tristeza do que não será, e isso me faz ter saudade de um futuro incerto.

Tenho saudades de quando tinha fé. Isso mesmo, saudades de ir para o Céu quando morresse! Seria tão lindo morrer e ir subindo através das nuvens vestido em roupas brancas, um sorriso de absoluta felicidade expresso no rosto e olhar para baixo e ver o mundo em trevas ficando para trás, daí erguer o olhar e ver a porta do Céu se abrindo e um coro celestial cantando uma canção na língua dos anjos. A cidade celestial seria de ouro puro e os fundamentos da cidade de pedras preciosas. Eu não morri e as promessas do Céu se misturaram com a ganância mundana e o altar ficou manchado pela idolatria. Minha igreja agora sou eu. Irei para o Céu?

Saudades é a ilusão do amor que ficou quando o sonho se foi. Temos o direito de amar e de sonhar e o destino tem o direito de transformar isso em saudades. Eu sou responsável pela saudade que sinto das coisas que não fiz, mas o destino, ah! Bem que o destino poderia assumir sua responsabilidade e permitir que eu não sinta saudades do amor que ainda sonho ter!


segunda-feira, 12 de agosto de 2024

FELICIDADE

 


Hoje me arrisco a escrever qualquer coisa sobre um assunto que não entendo bem. Já ouvi tanto falar em felicidade que fui buscar na internet o conceito. Apareceram 280 resultados para a pesquisa. Olhei um, outro e mais outro e descobri que cada um tem seu conceito para a felicidade que não alcançou, mas que de alguma forma gostaria que alguém alcançasse para, então, ser feliz com a comprovação do seu próprio conceito. Olhei para o espelho e perguntei para a imagem refletida por detrás do vidro: Você já foi feliz?

Um silêncio brutal me olhou através do espelho e quando eu quis me mover ouvi uma voz absolutamente silenciosa que gritava aos meus pensamentos: “Se o que eu vou te dizer pode, de alguma maneira, trazer-te, ainda que seja uma pequena dose de felicidade, sim, já fomos felizes”. Quando? Eu quis perguntar. Meus lábios tremeram sem balbuciar palavra.

É claro que eu já fui feliz, quer dizer, devo ter sido feliz algum dia. Talvez eu tenha mesmo sido feliz. Se eu fui feliz, então eu quero me lembrar. Andei pela casa arrastando pensamentos idosos de uma infância infeliz e fui até o portão que se abriu e fechou estalando contra a parede. A rua me levou até a praça onde as crianças brincavam felizes no parquinho que eu nunca tive. Talvez eu tenha sido feliz na infância, não me lembro.

Um vento repentino levou meus pensamentos para um lugar florido. Era a primavera cheia de música em discotecas. Corpos balançando de um lado para outro ao som das guitarras e baterias, a cabeça jogando a bola da felicidade para os lados. Uma cuba livre e o sonho de rebeldia, isso era a felicidade! Dancei todos os Rock And Roll que pude e acordei ralado num tombo de motocicleta. O mundo real não perdoa quem quer ser feliz.

Um carro estacionou no meio fio e tinha música tocando. Não dá para negar, o som era de boa qualidade, amplificava para se ouvir a uma grande distância. Seu Jorge cantava dentro do carro para dizer que a felicidade é viver na sua companhia e estar junto todo dia. Lá, dentro do carro, Seu Jorge se calou e um modão balançou o carro com uma bebedeira, uma multidão gritava a felicidade pelos alto-falantes.

Fiz um filme da minha vida estrelando Júlia Roberts, ela é uma mulher linda. Por mais que eu estivesse apaixonado por mim mesmo, era necessário que eu amasse uma mulher. Mulheres lindas trazem felicidade. Depositei meu tesouro em vasos carnosos enquanto o amor dormia e o desejo vigiava. O maior desejo era trabalhar para conquistar todas as alegrias do mundo e transforma-las em um único instante de felicidade. Quem tem um instante de felicidade tem todas as alegrias porque a felicidade é para onde tendem todas as alegrias.

O amor é a felicidade, quem ama é feliz! Tá lá na internet, é o centésimo octogésimo terceiro resultado da pesquisa. E o amor tem pernas roliças, corpo de academia, cabelos de salão, cheiro de boticário, é cliente do JPMorgan Chase Bank N.A. e anda de Rolls-Royce Limited. Eu queria me banhar na piscina olímpica do amor. Entre as pernas roliças e o cheiro de perfume me casei quatro vezes. O amor ainda estava no futuro, era preciso trabalhar. Trinta e cinco anos de carteira assinada, 420 holerites com promessa de felicidade e quando me aposentei e pensei que seria feliz percebi que a felicidade tinha ficado no passado.

Onde mesmo?

quinta-feira, 8 de agosto de 2024

AS MARIAS

 





O inverno de Santa Catarina é frio e a cidade de São Joaquim é uma espécie de símbolo desse inverno, é considerada a cidade mais fria do Brasil e onde tem a maior ocorrência de neve. Por lá se diz que o frio é cortante! Sim o frio de São Joaquim é muito intenso e o vento que corre livremente pelo planalto a uma altitude de 1.360 metros acima do nível do mar, é congelante, especialmente em dias de baixa temperatura, que pedem chegar a negativos 10°C, e alta umidade como nos dias 12 e 13 de julho, quando estive por lá e havia previsão de neve que, infelizmente não deu o ar da graça.

São Joaquim é uma cidade pequena, sua população mal passa dos 27 mil habitantes, um décimo da população de Dourados e a economia não tem nada a ver com nossos campos de soja e milho cheios de agrotóxicos. Por lá se produz muita maçã, do qual é o primeiro produtor do estado e do  Brasil, outro produto regional com forte impacto econômico são os vinhos finos de altitude preparados por pessoas apaixonadas pelo que fazem em suas lindas vinícolas, cada uma com um estilo e história particular.  Se produz, também, cachaça artesanal e é com ela que as Marias juntam pinhão ou maçã e temos uma bebida deliciosa que as Marias preparam artesanalmente em seu apartamento, onde alugam quartos para turistas que, eventualmente, se perdem ou se acham por São Joaquim. Me perdi na cidade e me achei no apartamento delas, experimentei a mistura e fomos apresentados à outra receita com vinho e pinhão. Delícias das Marias, e tinha mais.

São Joaquim é um belo lugar de se visitar. Muita natureza, montanhas, na safra da maçã se pode colher a fruta direto do pé e consumir no local. O turismo se profissionalizou nas vinícolas onde, pela bagatela de uns R$ 130,00 por pessoa se pode degustar uma carta de até cinco ou seis vinhos ou comprar uma garrafa que custa entre R$ 70,00 e R$ 300,00, ou até mais se o vinho foi um dos premiados em concursos internacionais. Nos supermercados, em cidades próximas dali se compra vinho chileno ou argentino de boa qualidade pela metade do preço, mas quem gasta quase uma fortuna para ir até o planalto catarinense não vai deixar de degustar um D’alture ou um Vivalti. 

Não se pode esperar uma vida cultural muito intensa num dia frio e úmido de uma cidade pequena. Quando chegamos, fomos direto para a praça da cidade, o que foi, claro, fácil de achar, basta seguir a rua que dá acesso ao centro e pronto. Lá, na praça, tem um centro de informações ao turista, bonecos que se protegem contra o frio e logo do outro lado da rua um dos atrativos, a Igreja Católica, construída em pedra ferro pelos primeiros moradores da cidade, onde as pedras eram carregadas em couros de boi e puxadas por homens ou até mesmo por bois, uma construção muito bonita que estava em reforma, deve ficar ainda mais bela quando terminarem as obras.

Tínhamos reservado uma casa pelo Airbnb, mas ao final da tarde descobrimos que a tal da casa não estava mesmo disponível, então fomos procurar alternativa urgente pois o dia já anoitecia e o frio, que marcava 6 graus às quatro da tarde já devia estar perto dos três ou quatro. Encontramos As Marias, que ofereciam o aluguel em quarto compartilhado dentro do apartamento onde moram. Pelo sim, pelo não, fizemos a reserva e fomos ao endereço.

O viajante perdido que se acha numa reserva desse apartamento com certeza vai sair de lá considerando que esse, ou melhor, essas, As Marias, são também, digamos, um ponto turístico da cidade. A recepção é direto para a cozinha. Com as malas ainda no corredor, nos aconchegamos próximo do fogão à lenha para um cafezinho com muita, muita, muita conversa. Há uma empolgação das Marias em receber pessoas que nem conhecem, em menos de um minuto já parecia que éramos amigos de longa data. Elas fazem questão de contar a história da cidade e suas próprias vivências.

Uma das Marias se chama mesmo Maria, é a mãe. Nascida e criada em São Joaquim, mora no mesmo apartamento há mais de quarenta anos, onde criou a filha e, agora viúva, compartilha o lugar com ela e com todos os viajantes que quiserem se hospedar nesse lugar, tomar café cozinha perto do fogão à lenha e comer das gostosuras que elas varam a noite preparando para oferecer e vender.



A outra Maria não se chama Maria, mas Thais. Formada em Nutrição, Thais trabalha em pelo menos dois empregos antes de cumprir outra jornada com a mãe. A cozinha é uma verdadeira indústria de gostosuras. Ali se preparam bebidas como as que citei acima com vinho e pinhão ou maçã, bolos, tortas, palitos de queijo, pão de queijo, rosca de coalhada, compotas, ... , mas tudo para imediatamente por horas quando chegam hóspedes totalmente estranhos que entram pela porta, largam as malas no corredor e adentram para a cozinha para um ‘cafezinho’.

Eu sou um cronista, gosto de escrever sobre experiências que vivo, especialmente se são boas! Ultimamente quase não tenho publicado, por circunstância ligadas aos remédios que ando carregando por onde vou, mas estou voltando e As Marias parecem ser um bom motivo para essa volta. Quando voltar à São Joaquim, ainda voltarei a ver As Marias, tomar café na cozinha aquecida pelo fogão à lenha e aquecer a alma com histórias riquíssimas das Marias.

domingo, 4 de agosto de 2024

SOMOS TODOS LOUCOS

 


Depois que li o Elogio da Loucura, do Erasmo de Rotterdam, me convenci de duas coisas, a primeira é de que somos todos anormais e a segunda é que ser louco é que é normal. Deste modo, se somos anormais para a sociedade, somos loucos. Por outro lado, se somos normais para a sociedade, somos loucos para a natureza, portanto loucos mesmo! Daí que somos todos loucos.

A loucura é uma coisa bacana! Einstein é considerado o louco mais genial das ciências exatas, exatamente nesse lugar onde se precisa ser racional, isto é, normal. Se o universo, para Einstein, é infinito, por que eu deveria me restringir a este mundinho pequeno, do tamanho de um nada em comparação ao infinito do universo?  Se a Terra é um nada em comparação ao universo, então, quem sou eu? Nada mais que 1 divido por 8.000.000 de uma parte de um nada do universo.

Espero que ninguém conte para meu médico que estou escrevendo isso tomando cerveja. O médico está tentando me libertar do Pênfigo e eu estou tentando me libertar do racionalismo. O remédio para o pênfigo é o corticoide, o imunossupressor, dapsona, restrições na alimentação e bebidas alcoólicas. O remédio para a racionalidade é cerveja, vinho, whisky, e outras alternativas que não dá para descrever aqui porque são consideradas ilegais, mas que são úteis, ah, isso são! Eu não vou deixar de viver, o médico que lute para me curar, ele ganha muito bem para isso.

Tem umas coisas que são meio loucas na vida da gente, tipo encontrar um amor a mil quilômetros de distância e pensar que vale a pena estar apaixonado. Melhor seria racionalizar que num raio de cinco ou dez quilômetros existem centenas de possibilidades mais, digamos, adequadas, para uma vida amorosa. Mas, isso é racional, o amor não! A irracionalidade tem razões que nem a razão pode explicar.

A loucura é uma delícia! Dizem que os poetas são loucos. Eu concordo. A poesia tem a capacidade de fazer com que o poeta saída da realidade para viver a loucura. A poesia e a filosofia andam de mãos dadas e formam um par perfeito. A filosofia pensa as possibilidades e a poesia faz rimas e versos transformando as possibilidades em sonhos. Eu sou um poeta que ama a filosofia.

Você não gosta de filosofia? Tudo bem, então olha para o teu lado e veja se o que a sociedade te oferece é útil e bom. Se é, seja feliz, você é um sujeito racional. Se não, melhor tomar uma cerveja e filosofar pelas madrugadas. Pode, também, tomar um porre de Vinicius, Drummond, Neruda, Ferreira Gulard. Faça uma revolução! E não deixe de ler Erasmo de Rotterdam.

sábado, 27 de julho de 2024

DEU VONTADE DE ESCREVER

 



Há muito que não escrevo, mas hoje deu vontade, talvez porque nesta semana foi o dia do escritor e teve comemoração na Academia de Letras e isso é bem inspirador, se eu não fosse mal entendido, teria dito que é excitante, mas essa palavra pode deixar dupla interpretação, então fiquemos com a inspiração, que é disso que um escritor precisa, inspiração, muita inspiração.

A Academia reuniu os escritores e mais alguns convidados para um jantar no restaurante ‘O Casarão’. E lá estávamos todos, excitadíssimos, afinal era o ‘nosso dia’. Inspirado mesmo só o Marcos Coelho, que é o presidente da Academia. Como sempre, fez seu discurso falando de literatura, da importância da escrita, e nominou cada ser vivente daquele lugar, exaltando a produção literária de cada um. Até de mim ele falou, fiquei muito orgulhoso, especialmente porque ali estavam meu filho Pedro e a Feltrin, minha futura nora. Qualquer um quer ser elogiado junto de pessoas assim, próximas, e eu fui, obrigado presidente!

A Inteligência Artificial não foi convidada, mas, intrusa como é, não se fez de rogada e ocupou cada lugar ocupado por um ser humano qualquer que fosse. Escritores, no sentido literal da palavra, não gostam da Inteligência Artificial para produzirem textos, por dois motivos: 1) Ela, a IA não é capaz de produzir conhecimento novo, criativo; e 2) Não dá para concorrer, comercialmente, com ela. Mesmo a detestando, não tinha um ser vivente naquele lugar que não se ocupasse com o celular, repleto de IA. Bem, era só uma festa, não estávamos escrevendo textos e, para isso a IA até que pode ser aceita amigavelmente.

Inspiração é o que não me falta hoje. Além do dia do escritor, que foi anteontem, ontem foi dia dos avós. Eu sou avô, cinco netos, para os quais dediquei meu segundo livro: ‘História de Ana Maria e seu Avô’. Há poucos dias viajei para o Sul, onde residem três deles, incluindo aí nesse rol a Luiza, estrela de dança no Festival de Dança de Joinville. É muito orgulho para um avô que mal sabe escrevinhar umas mal traçadas linhas. O Luis é apaixonado por futebol e o Vinicius, com esse nome de poeta, é quase um escritor de personagem de videogame. Em Dourados estão o Miguel, que vai ser bombeiro como o pai e a Heloisa que certamente vai ser ilustradora de livros, já tenho na estante vários ‘livrinhos’ dela. Eu sou mesmo um avô muito orgulhoso!

Agora só me resta esperar pelo dia 30 deste mês, que será o dia internacional da amizade. Quem sabe numa boa conversa numa roda de chimarrão ou de cerveja não encontremos motivos para mais algumas crônicas!

E que estejam todos vivos, porque do jeito que a coisa anda....

 

Sei não, hem!

segunda-feira, 10 de junho de 2024

ESPERANDO O DIA DOS NAMORADOS

 




 

Estava eu andando pela vida, cabisbaixo, meio soturno, borocoxô, quando, de repente, não mais que de repente, eis que estava namorando. Que felicidades! A cabeça ergueu-se, os olhos brilharam e o dia dos namorados passou a ter uma certa importância emocional. E não era o dia 12 de junho, era algum dia entre janeiro e abril. Por mais que seja uma data que acontece assim, meio repentinamente, ela pode acontecer num momento qualquer enquanto o nada vai se transformando em vida, enquanto o fogo se acende em meio as geleiras do coração, enquanto a lua emite seus raios refletidos do sol e clareia os sentimentos e aquece a alma. Enquanto o amor, que nasce platônico, rompe as correntes da amargura e abraça forte o desejo irresistível de um abraço de mil quilômetros de distância. Vai se fazendo o amor. E este é o dia, o dia dos namorados!

Dia dos namorados, agora eu tinha um. Ainda que incerto, era certo que namorava, e precisava de presente, de presença, essa força misteriosa que atrai desde uma distância muito longa para aquecer dias de praia em Bombinhas, no Sul do Brasil, em pleno inverno, dois corações fragilizados pelo amor. É assim o amor, não tem nenhuma lógica e é lindo! Lindo de morrer, como morre às vezes o amor em meio à sua própria beleza.

E o amor morreu! Está morto e agora me vem esse dia de celebrar o amor, o dia dos namorados. Pensei em fazer campanha de oração, dessas poderosas, que curam paralíticos, para ver se o amor se levanta e vem ao meu encontro com júbilos de alegria. Pensei na cartomante, uma carta, se for boa, bem feita, convincente, pode trazer o amor de volta. Pensei numa curandeira, benzedeira, mágico. Pensei na Fênix, se o amor morreu, talvez tenha sido cremado e virou cinzas. Fênix renasceu das cinzas.

Pensei em mandar um presente. Uma caixa de bombom, perfume, uma caneca personalizada com uma poesia que fizemos juntos, um porta-retratos, uma garrafa de champanhe para lembrar nosso primeiro encontro. Pensei em tudo, até em fazer uma serenata e cantar: Stand by me! Dizem que quem canta reza duas vezes!

Rezei, orei, fiz promessa de me cuidar, cuidar de mim mesmo. Descobri que posso me namorar. Sou bastante compreensivo e tolerante comigo mesmo e até já perdoei todas minhas falhas do passado. Me perdoei até por ter amado mais aos outros do que a mim mesmo. Agora sei que me amo, e quero me namorar a cada dia porque eu sou o melhor que eu tenho para mim.

Não tenho mais saudades do dia dos namorados, porque quem ama o dia dos namorados é o dono da loja. O comerciante é o dono do amor, e ele o vende pelo valor de uns poucos dígitos até alguns milhares de reais. O comerciante se deleita com o amor, e o presente que se compra para dar nem sempre é o que ela ou ele queria. O que ela, ou ele, queria, era só o teu amor. Stand by me!

sábado, 1 de junho de 2024

MEIA NOITE

 



Meia noite. O que pode ser da vida nesta hora? Se eu tivesse uma resposta eu escreveria um belo texto, porque eu estou mesmo precisando de um motivo para escrever algo, nem que seja sobre o que aconteceu antes da meia note.

Muitas coisas acontecem à meia noite! Agora me lembro do filme: Meia noite em Paris. Filme maravilhoso! Cria uma ilusão de que se pode ser transportado para uma era anterior e viver acontecimentos que marcaram ou influenciaram os tempos atuais de um personagem. De certa forma estou vivendo algumas cenas do filme e, de novo, certamente daria para fazer um filme com o que tenho vivido nesta meia noite em Dourados.

Eu não tive um encontro com Ernest Hemingway, apesar de que eu gostaria de encontra-lo, nem tive o prazer da companhia de artistas como Picasso que eu acho um gênio, mas de certa forma voltei ao tempo em que se podia expressar com alguma liberdade a arte e a literatura. Talvez em tenha tomado um Uber e ele me deixou numa casa noturna e lá estava Emilinha Borba cantando Chiquita Bacana, e ela estava vestida apenas com uma casca de banana. Com toda razão Chiquita Bacana vivia conforme suas próprias convicções. Ela buscava a felicidade genuína! Mario de Andrade bateu no meu ombro e disse: Antropofagia!

E o quadro da Tarsila do Amaral surgiu à minha frente, era a cortina que se fechava sobre Emilinha Borba, e todos aplaudiam freneticamente como se a casca de banana tivesse caído. Era o quadro da Tarsila: Pés grandes e cabeça pequena. Muito trabalho e pouca capacidade de pensar. O auditório não pensava, só aplaudia.

Emilinha rebolou, deu beijinhos e foi embora, foi ser artista nos Estados Unidos, os financiadores dos bananais! Antes que o dia amanhecesse, voltei, meu amor me esperava dormindo a mil quilômetros.

Mais um dia em Paris, ou em Dourados. Há de ter outra meia note!

domingo, 26 de maio de 2024

PORTO

 Navego pensamentos

Mar bravio
Tempestades
Não olho para mim
o céu é o infinito
Meu espelho
quebrado
Uma estrela brilha
Viro a bombordo
Desvirou a estibordo
O infinito
uma ilha
Aporto em nuvens
algodão
O Sol brilha
você
Meu Céu
Paz
do infinito
tempo!

sábado, 25 de maio de 2024

sexta-feira, 19 de abril de 2024

ESQUERDOPATA!

 


Ontem eu estava fazendo minha caminhada vespertina pela praça do Parque Alvorada e ouvi uns amigos que caminhavam e conversavam animadamente, quando me aproximei, já que meus passos estavam um pouco mais acelerados que os deles, pude perceber que a conversa era sobre política. Esse assunto perdeu, para mim, a importância que tinha há alguns anos, mas não havia como não escutar a conversa mais ou menos apaixonada que andava a passos ritmados um pouco à frente.

- Mas nenhum deles mora em Cuba. - Escutei um deles dizer, aparentando uns setenta anos de idade, cálculo que faço única e exclusivamente comparando ele comigo, que tenho sessenta e cinco. Ele parecia ter alguns anos mais que eu.

Não sei se ele já morou em Cuba ou se, pelo menos, já visitou aquele país caribenho. Eu estive lá em 1997, quando eles, os cubanos, ainda sofriam muito com o bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos. Passei vinte e oito dias na Ilha, andei livremente pelas ruas de Havana e até tomei banho nas praias de Varadero, um lugar lindíssimo que atrai turistas do mundo todo. Mas, voltemos aos caminhantes do Parque Alvorada.

- Ainda tem gente que defende o comunismo! – Respondeu o outro caminhante, quase ao meu lado, pois meus passos já os alcançavam. Dei boa tarde e eles me responderam alegremente.  

- Isso aí, esses que defendem o comunismo, são gente que não tem religião. – Ouvi isso claramente quando estava a uns três passos adiante, segui minha caminhada, estávamos passando em frente da igreja católica que fica localizada do outro lado da rua.

Eu sou um escritor, e parece que escritores quando escutam conversas como essas logo buscam algum contexto em que elas se encaixam. Quando falavam de Cuba e do comunismo, fiquei me perguntando se eles tinham conhecimento real sobre a vida naquele país ou se suas opiniões eram deles mesmos, ou só repetiam o que viram na imprensa que reproduz seus próprios interesses ou de classe.

Mas, quando falaram de religião, olhei para o prédio da igreja e me lembrei do texto bíblico que descreve a atuação dos apóstolos quando iniciaram o trabalho de pregação do cristianismo de forma organizada. Tudo está escrito no livro de Atos dos Apóstolos, do qual transcrevo fielmente um trecho:  “Os que criam mantinham-se unidos e tinham tudo em comum. Vendendo suas propriedades e bens, distribuíam a cada um conforme a sua necessidade” (Atos 2; 44-45). Não sei porquê, mas esse texto me parece um tanto quanto... digamos... comunista!

Continuei caminhando e me afastei dos camaradas, à minha frente caminhava uma jovem senhora, ela não sabia nada sobre comunismo e nem se importava com religião. Ela era uma mulher bonita!

sábado, 3 de fevereiro de 2024

EU QUERIA FOTOGRAFAR O IMAGINÁRIO

 



Um escrevinhador vive da imaginação. Não basta ver para escrever, é preciso imaginar, e imaginar fortemente senão a escrita fica devendo para o leitor mais exigente. Mas tem coisas que não dá para escrever, senão a história fica real demais e pode ofender algum personagem mais discreto, conservador ou tímido, talvez alguém que não queira ser revelado num determinado lugar ou situação. Daí entra em cena a imaginação de quem escreve. Ver coisas que deveriam existir ou apagar coisas que existem faz parte da produção de textos. Eu escrevo crônicas, e estas são textos literários com base em algum fato.

Em janeiro tirei um mês de férias, fui passear pelo Sul do Brasil, conhecer a maior praia do mundo, Praia do Cassino, no Rio Grande do Sul, duzentos quilômetros de praia! Conheci, também, a Ilha do Mel, em Paranaguá, depois passei uns dias em Canasvieiras, em Floripa, daí São Bento do Sul, Curitiba e finalmente a volta para casa em Dourados. Em cada lugar desses deu vontade de pegar o computador e escrever um texto. Fiz isso saindo da Ilha do Mel. Em Floripa o texto teria que ser traduzido para o espanhol, tamanha a quantidade de gringos naquele lugar. É quase uma invasão argentina e olha lá que os Hermanos estão vivendo uma terrível crise econômica! Claro, nem todos, boa parte está ganhando muito dinheiro com a crise e passeando em Florianópolis.

As praias têm de tudo. Quase! Tem futebol, peteca, Voleibol, Tênis de praia, baralho, música, dança e até gente que toma banho de mar! Muita gente curte as férias se divertindo livremente e comendo frituras, cozidos e doces que se vendem pelas areias. Umas quatro e meia da tarde de um belo dia de sol passou um vendedor de milho apressado e eu o chamei para comprar uma espiga, ele parou para me atender dizendo que já ia para casa pois seu filho estava de aniversário e ele queria voltar mais cedo. Conversamos um pouco e ele se foi para a festa do filho.

É quase estranho constatar que um vendedor de milho verde nas areias da praia tenha uma família! Parece que as famílias estão todas embaixo dos guarda-sol sorrindo uns para os outros. Vendedores ambulantes são só vendedores ambulantes. Nos quiosques tem vendedores também. Eles têm mesmo família?

- Milho verde, milho verde!

- Picolé, olha o picolé!

- Queijo coalho, quem quer?

- Água mineral, refrigerante. Vai uma cervejinha?

- Saída de praia, uma blusinha...

- Batidinha de coco com amarula...

O pôr do sol na praia é maravilhoso!!!

MARIA CLARA E SUA LINDA CABELEIRA (II)

                      Maria Clara tinha dezoito anos quando se casou. Seus cabelos castanhos, ondulados até o meio das costas, estavam guard...