José é um
sujeito franzino, seus cabelos estão sempre desalinhados e suas roupas puídas;
mesmo limpas, parecem estar sempre sujas devido às manchas encardidas nas
calças e também nas camisas, especialmente as de cor claras, justamente as que José
gosta mais de usar. Quando José se casou com Maria Clara, esta logo lhe comprou
roupas novas. As camisas de cor verde, vermelho ou bege; as calças de um azul
marinho, marrom ou preta. José pegou as roupas novas, olhou, olhou, e disse à
Maria Clara que fora um desperdício de dinheiro. “Pra que gastar dinheiro com
isso se eu eu já tenho roupas suficiente?” Maria Clara disse que queria que ele
ficasse elegante com as roupas novas. “Assim, todo mundo vai elogiar você.” José aceitou, mas pediu que, despois dos elogios,
ela deveria lavar as roupas com pouco sabão. “Assim, elas ficam com aquelas
manchas lindas que eu gosto de ver.” Maria Clara ficou séria por uns instantes,
depois sorriu da inocência do marido, mas logo compreendeu que não era mesmo
inocência, mas uma certa forma de pureza. O marido parecia não se importar com os
elogios dos outros. “Se a roupa está limpa, não importa que pareça suja”, disse
José. Maria Clara foi arrumar as roupas novas no guarda-roupas, deixando as
antigas, manchadas, por cima e em cima destas apenas uma muda de roupas novas
para José usar no culto de domingo e receber os elogios necessários e volúveis.
“Pronto, José, segunda-feira você vai usar essas roupas no trabalho e elas
começarão a ter uma identidade própria.”
O culto começou às dezenove horas; cinco
minutos antes, José e Maria Clara entraram na igreja pela quinta vez após o
casamento. Por um mês inteiro de casados, José usou suas roupas manchadas e ninguém
disse nada. Não é costume, nas igrejas, que se fique falando das roupas dos
demais fieis. “Cuidados com as fofocas” dizia o pastor, “fofocar também é pecar”.
Mas, tinha regras, e elas eram bem claras: Nada de roupas escandalosas! Roupas
manchadas não eram escandalosas. Antes de se casar, José frequentou a igreja
por cinco anos, assistiu religiosamente os cultos, foi aceito como membro e
recebeu o batismo, sempre com suas roupas manchadas; e, se Jesus o recebeu e se
tornou seu único Senhor e Salvador, quem mais o haveria de censurar? Maria
Clara conhecia o seu lugar, também ela fora batizada. Se Jesus não repreendia
José por causa de suas roupas, não seria ela a fazê-lo. O máximo que ela
poderia fazer seria comprar roupas novas para o marido, e isso ela já o havia
feito.
Quando José e
Maria entraram na igreja, o presbítero ainda não tinha dado as boas-vindas a
todos ‘em nome de Jesus’, o coro ainda não cantava. Uma música gospel, quase
silenciosa, tocava nas caixas de som, era música orquestrada e o volume era tão
baixo que qualquer um que ali estivesse poderia ouvir se alguém cochichasse por
perto; e muitos ouviram, porque muitos cochicharam. Não tinha como não reparar
nas roupas novas do José. Mal se sentaram, num espaço disponível num banco na quinta
fileira, Maria Clara e José também cometeram o mesmo pecado coletivo da igreja
naquela hora e fizeram sua fofoca particular: “A igreja toda parece estar
falando das tuas roupas novas!” disse Maria Clara ao ouvido do marido. “Pai,
perdoa-os, porque eles não sabem o que fazem” respondeu José, com os olhos
fitos na cruz acima do altar.