III
Como já foi dito anteriormente, José,
quando se casou com Maria Clara, usou roupas novas; não que fosse do seu gosto,
mas unicamente para agradar sua noiva, que lhe pedira gentilmente que as usasse
pelo menos uma vez, e esta única vez seria na cerimônia de núpcias, na igreja e
na festa e, também na lua-de-mel. José estava bem-vestido para os padrões
sociais que, para este cerimonial ‘exige’ roupas novas. Um dia antes do
casamento, pediu que Maria Clara fosse até sua casa, onde morava com seus pais,
e lhe escolhesse as roupas. A noiva pegou as três camisas que comprara e as
colocou sobre a cama, uma ao lado da outra, então pegou as três calças e
colocou abaixo de cada camisa, procurando a melhor combinação e, dentre elas, a
que considerou a mais adequada foi a camisa bege com a calça azul-marinho.
Escolheu também um para de meias azuis para combinar com as calças, foi à
sapateira e trouxe um para de sapatos que havia sido lustrado no dia anterior e
os colocou no chão, diante das roupas. “Pronto, José, aí está!” As outras calças e camisas devolveu ao
guarda-roupas. José passou as mãos sobre a camisa, depois pegou a calça e a
ergueu diante de si, pô-la de volta na cama e olhou para Maria Clara que o
observava com um sorriso nos lábios.
- Está bem – ele disse – se é isso
que você quer, é isso que vai ser. Me agrada agradar você!
Maria Clara também tinha roupas
novas. Com a ajuda da mãe, comprara na loja Monalise
Ateliê um vestido de noiva com corpete estruturado com barbatanas; o
decote, em forma de coração era bastante discreto; Duas alças sustentavam o
vestido sobre os ombros e as mangas eram longas e tinham um efeito ilusão, com
tule transparente na cor da pele, com bordados e rendas, dando a impressão de
que estavam aplicados sobre o corpo da noiva. A saia, com corte evasê fazia um
formato da letra A, o que para Maria
Clara, sendo a letra A a primeira do
alfabeto, poderia significar que ela mesma seria a letra A na literatura do futuro marido. A cauda prolongava o vestido por
pelo menos três metros, significando longevidade para a vida matrimonial. José
ainda não vira o vestido, “só no altar” dissera a noiva quando ele perguntou se
poderia ver o vestido da noiva.
E o dia chegou: dia 14 de maio de
2.016. A Igreja Evangélica Luterana do Brasil, congregação Cristo, estava toda
enfeitada; o corredor central tinha laços de fita em todos os bancos que
alcançavam o chão; o altar tinha grandes buquês de flores coloridas; no
primeiro degrau, em ambos os lados do altar, se via um lindo suporte de um
metro e meio de altura sobre os quais estavam arranjos de rosas vermelhas e
amarelas. Os convidados ocupavam quase todos os lugares disponíveis e os padrinhos
estavam alinhados próximos dos arranjos de rosas. O noivo, vestido com sua
camisa bege, calça azul marinho, meias azuis e sapatos pretos abotoava e
desabotoava nervosamente seu paletó. Percebendo o nervosismo, o pastor
levou-lhe um copo de água e falou-lhe algo ao ouvido que ninguém escutou. O
noivo só fez que sim com a cabeça, tomou da água e pareceu ter ficado calmo.
Logo o órgão começou a tocar a Marcha
Nupsial. Na porta surgiu a noiva toda sorridente, acompanhada do seu pai, o
senhor Márcio Deivis. A igreja inteira pôs-se de pé. A passos lentos Maria
Clara aproximava-se daquele que dali por diante seria sua outra metade. Essa
cerimônia os tornaria um só diante de Deus!
Não vou transcrever aqui tudo o que
se passou, de como o pastor saudou a igreja, leu um texto apropriado, abençoou
as alianças e pediu que cada um dos noivos fizesse seu juramento de fidelidade
eterna. Mas, depois que os noivos prometeram viverem juntos e se amarem ate que
a morte os separasse e o pastor disse a eles que agora podiam selar o ato com
um beijo, aconteceu algo surpreendente. Quando os noivos se olharam
carinhosamente e aproximaram seus lábios para o beijo, no último banco da igreja
um dos convidados, demonstrando nervosismo, esfregando as mãos suadas,
respirava já com alguma dificuldade e murmurava, alto o bastante para que as
pessoas próximas o ouvissem claramente, e dizia: “Não... não... não.” E, quando
os noivos finalmente se beijaram, ele gritou alto e prolongado para que todos o
ouvissem: “Nãããããããoooooooooo...”