VIII
O segundo filho de João Damasceno nasceu no dia 20 de janeiro de 1.995, dia de São Sebastião. A mãe queria porque queria pôr o nome do Santo ao filho, mas o pai não aceitou; todos seriam João, esse era o acordo proposto pela esposa e assim seria, ela poderia escolher o segundo nome, o primeiro estava decidido e não se fala mais nisso. Joana refletiu por alguns dias, convencida de que João Damasceno não mudaria de ideia, então sugeriu que fosse João Vidal.
João Vidal Damasceno deveria ser o caçula do casal João e Joana e assim foi tratado por alguns meses. Enquanto João Alberto, seu irmão mais velho, seria preparado para o sacerdócio e a política, João Vidal seria encaminhado para a vida profissional, seria médico ou engenheiro, talvez arquiteto. Os pais tinham a firme decisão de não ter mais do que dois filhos, “melhor dois bem cuidados do que ter mais e não cuidar!” Joana não queria fazer a laqueadura tubária e João Damasceno também tinha certo receio de proceder a vasectomia, então, por alguns meses optaram por pílulas anticoncepcionais. “É muito seguro”, disse o médico, “só tem que tomar todos os dias, de preferência no mesmo horário.” Joana decidiu tomar os comprimidos todos os dias após o café da manhã, antes de escovar os dentes, assim não esqueceria. Durante todo o ano de 1.995 tudo correu bem, mas durante as festividades de final de ano, quando dormiram muito tarde nas comemorações de natal e ano novo, aconteceu de acordarem tarde no outro dia e seguirem direto para o almoço em família, o que fez com que Joana esquecesse completamente das pílulas que tomaria caso fizesse o desjejum pela manhã. Em fevereiro as regras de menstruação falharam e, em março, os exames confirmaram a nova gravidez. Mais um filho estava previsto para nascer em outubro.
A notícia da gravidez foi um choque na família e repercutiu por toda a vida, como se verá mais adiante. João Damasceno queria que Joana fizesse o aborto o mais rápido possível, antes que a gravidez avançasse, conhecia uma médico alemão radicado em nossa cidade e que fazia clandestinamente o procedimento, mas Joana não aceitou por princípios religiosos. “A igreja vai sustentar e educar o menino?” era a pergunta de João Damasceno que não se sentia psicologicamente preparado para ter mais um filho. “Eu cuido, nem que tenha que morar numa barraca no pátio da igreja,” redarguia Joana, intransigente quanto a manutenção da gravidez. Também ela não quisera ter mais filhos, mas acontecera, foi um descuido durante as festividades de final de ano.
A gravidez, como já se viu, foi um período muito conturbado para o casal; muitas discussões aconteceram e João Damasceno não desistiu da ideia do aborto até que se completasse o terceiro mês de gestação, dali por diante resignou-se, mas constantemente “lembrando” Joana que a vinda de mais uma criança era sua responsabilidade. João afastou-se da esposa, deixou de dar-lhe carinho e passou a sair constantemente com os amigos, à igreja deixou de ir, culpava o pastor pela intransigência da esposa quanto ao aborto. Em julho, às vésperas do aniversário de João Alberto, Joana descobriu que o marido tinha uma amante. Joana a conhecia bem, até então a considerava sua amiga, havia mesmo a convidada para o aniversário do filho que aconteceria dali a uma semana. Joana lembrou-se da promessa que fizera de não cortar o cabelo do filho até que completasse sete anos de idade, ainda não havia falado sobre isso com o marido, no pouco diálogo que tinham, às vezes ele falava que tava na hora de cortar o cabelo do menino, ela dizia que não, era bonito assim, mas no dia do aniversário, João Damasceno levou o menino para cortar o cabelo, Joana interviu, como já vimos, e o menino ficou com o cabelo crescido até que se cumpriu a promessa. Mas, agora, talvez fosse necessário outra promessa, pelo filho que carregava no ventre. No domingo, Joana foi à igreja com as crianças e prostrou- se de joelhos diante do altar pedindo intervenção de Deus para que o filho nascesse com saúde, e prometeu que ele seria casto até que se casasse.
Em 05 de outubro de 1.996, nasceu João Damasceno Filho, o nome, a mãe escolhera para agradar ao marido e aplacar-lhe a ira.