Meu último texto publicado neste blog foi em 07 de janeiro. Desde então, uma página em branco está diante de mim. Eu deveria preencher cada espaço com sentimentos, percepções e vivências, mas as letras se escondem atrás de alguma coisa invisível chamado tempo passado.
Para eu escrever, eu preciso estar no
presente, neste momento, no agora, enquanto a chuva que está caindo canta sua
música, enquanto as pessoas neste camping cumprem suas tarefas, enquanto meu
coração bate forte a vida que se esparrama pelo infinito das artérias. Agora,
enquanto o William cuida do jardim, enquanto me despeço do Argentino Xavier que
vai embora, enquanto a Márcia limpa a cozinha e faz uma faxina geral, enquanto
as galinhas ciscam o gramado em busca de comida, enquanto sinto saudade da Cléo
Saudades é algo que não precisa de
muito tempo para ser sentida; às vezes, antes mesmo da despedida ela já vem,
antecipando o vazio do depois. E se a despedida vem com data marcada para a
volta, mesmo num camping a saudades vem com a chuva, com o frio, com o tempo
que se demora. A saudades se alimenta do vazio, se fortalece numa cerveja, se
deleita na esperança, dança a música romântica do rádio e se angustia com o
tempo, porque ela sabe que logo será substituída pela presença.
Tenho saudades da Cléo, dos meus
filhos, das aulas de espanhol e até de casa! Aos poucos vou matando a saudades
de um tempo que não vivi. Eu sempre quis ter um motor home. Ano passado comprei
uma Kombi, fiz minha primeira viagem em dezembro. Não tenho nenhuma saudade
dela, da viagem. Agora, sim. Já estou na estrada há cinquenta e cinco dias!
Estou amando esta viagem. Talvez eu escreva sobre ela, cada etapa, cada
vivência, cada lugar, as pessoas e o que elas me ensinaram.
Hoje estou feliz, derrotei o vazio da
página.