IV
Os noivos receberam os cumprimentos dos convidados em frente ao altar e dali saíram de mãos dadas pela porta principal. O paletó desabotoado deixava à vista de todos a camisa bege que em menos de dois dias já estaria com as primeiras marcas de sujeira encardida. O vestido de Maria Clara arrastava atrás de si três metros de cauda branca simbolizando pureza e longevidade para o casal. Assim, atravessaram o vão da porta e, em meio a aplausos e gritos de ‘viva’ desceram os sete degraus até a calçada sob uma chuva de arroz. De dentro da igreja o pastor observa tudo com um largo sorriso nos lábios, mas balançava a cabeça de um lado a outro como quem diz: “Não bastam as bênçãos de Deus?” Os noivos entraram no carro que os levaria até o local da festa, os três metros da cauda do vestido foram recolhidos cuidadosamente pela mãe da noiva e depositados sobre o seu colo. O carro partiu, depois dele os demais convidados, os que foram convidados para a festa, tomaram o mesmo rumo. Antes de embarcar, um pequeno grupo discutia entre si sobre os motivos da aflição do jovem João Damasceno Filho, rapaz de uns vinte anos, conhecido da sociedade e da igreja, filho de João Damasceno e Joana Damasceno, proprietários da loja de calçados Calce Bem, e membros antigos da Igreja Luterana, congregação Cristo.
- Ele ficou aflito quando os noivos
se beijaram! – Disse Jandira dos Reis.
- Nem deu os parabéns aos noivos, foi
embora sem falar com ninguém – comentou Carlos Moraes.
- Era apaixonado pela noiva, só pode –
disse Marialva com desdém.
Mais alguns comentários se seguiram,
depois foram todos às festividades, onde o assunto voltou com força e se
esparramou pela festa, evitando-se, evidentemente, que chegasse aos ouvidos dos
noivos. Mas, o que houve com João Damasceno?
João Damasceno Filho era o terceiro
filho do casal João e Joana Damasceno. Quando seu pai João conheceu sua mãe
Joana, ele estava noivo de uma outra moça, de nome Janaína. Namoravam há mais
de dois anos e já faziam planos para se casarem, quando a família da Joana se
mudou para nossa cidade em busca de uma nova vida. Os pais dela adquiriram uma
propriedade rural e ali construíram uma granja para criação de aves e de suínos.
Trabalhavam em regime de integração com uma grande empresa que lhes fornecia os
animais e a ração, além da assistência técnica para criação. Um ano depois
estavam estabilizados e frequentavam a sociedade e a igreja luterana onde se
tornaram membros ativos. Joana tinha dezessete anos quando adentrou pela
primeira vez na igreja para assistir ao culto dominical, João estava lá com sua
namorada. Ainda faltavam cinco minutos para o início do culto quando João se
lembrou do envelope dos dízimos que havia deixado no banco do carro e saiu para
pegá-lo. Ao descer as escadas, deu de cara com ‘aquela’ garota, seus olhos se
encontraram, ambos ficaram petrificados como por encantamento. “Boa noite”
disse o pai da moça e, tomando-a pelo braço, arrastou-a para dentro da igreja.
João não sabia o que tinha acontecido, nunca antes havia visto aquela garota. “Tudo
bem, João?” ouviu alguém dizer, isso o despertou para a realidade. “Sim”
respondeu e desceu os degraus sem saber o porquê de estar ali. Então olhou
instintivamente para dentro da igreja, mas não viu mais aquela garota
misteriosa, lembrou-se dos dízimos, quando voltou para dentro da igreja já não
era mais o mesmo, e nunca mais o seria. Nos próximos trinta dias uma revolução
aconteceria na sua vida. João rapidamente perdeu o desejo de estar junto de
Janaína, vivia aéreo, parecia estar ‘em outro mundo’. Durante a semana ficava
agoniado esperando chegar o domingo para ir ao culto. “O que você tem, João?”
Perguntavam Janaína, e também seus pais. João não respondia; não sabia o que
responder. Na igreja, queria chegar mais cedo que de costume e ficava o tempo
todo a olhar para a porta de entrada a ver se aquela garota encantadora estava
chegando. Ao vê-la, suava frio, seu corpo tremia, então saía a tomar fôlego, bebia
água, respirava fundo e voltava ao banco da igreja para sentar-se ao lado de Janaína.
Na terceira semana não aguentou mais e disse que queria terminar o namoro. Janaína
concordou, pressentia ela também que aquela situação se tornara insuportável.
Janaína não sabia o que estava acontecendo, mas pelo jeito só poderia ser que
João estivesse apaixonado por outra pessoa. Mas, quem?
Joana também sentia algo estranho quando
seus olhos se cruzavam com os de João. Sentia um calafrio que atravessava a
espinha dorsal; tremia o corpo todo; às vezes sentia o suor brotar em seu
rosto. Ficava vermelha quando lembrava e sorria um sorriso tímido. Se alguém
perguntava o que era, ela não sabia responder, dava de ombros e dizia: “nada!” Ficava
ansiosa para ir aos cultos dominicais e quando cruzava com “aquele moço” sentia
uma energia diferente de tudo que já sentira na vida. Um dia o pastor convidou
os jovens da igreja a participar de um retiro espiritual, um fim-de-semana,
desde sexta-feira até domingo, um evento a ser realizado fora da cidade e os
jovens ficariam internados lá em oração e atividades de lazer. Joana
inscreveu-se e, ao chegar lá viu “aquele moço” dirigindo-se ao alojamento masculino.
O que aconteceu durante o evento ficou em sigilo absoluto dos participantes,
mas na semana seguinte aqueles dois jovens, João Damasceno e Joana, adentraram
a igreja de mãos dadas para assim permanecer para o resto de suas vidas. Casaram-se
um ano depois e onze meses após o casamento nasceu, para alegria das famílias,
João Damasceno Filho. No próximo capítulo falarei mais sobre João Damasceno
Filho e como sua morte trágica marcou para sempre a vida de José e Maria Clara.