Maria Clara tinha dezoito anos quando se casou. Seus cabelos castanhos, ondulados até o meio das costas, estavam guardados pelo véu, mas apareciam através da transparência e denunciavam, por si só, uma beleza ímpar. Desde a mais tenra infância, quando ainda brincava de bonecas na sala de casa ou no quintal, ouvia elogios aos seus cabelos. “Como é lindo o cabelo dessa menina!” “Esses cabelos valem ouro” e outros que ela nem se lembra mais, tão distantes ficaram no tempo. Na adolescência, insistiam que ela vendesse o cabelo a salões de beleza ou fábrica de perucas. “Vende”, diziam, “você pode pegar o dinheiro e comprar roupas novas da moda”. Mas ela sempre dizia que não, que o cabelo era seu e não tinha dinheiro que pagasse. “É minha identidade”, começou a dizer depois que completou quinze anos. “´Exclusividade minha e do meu futuro marido”, passou a dizer quando começou a namorar José.
Quando
completou dezesseis anos, no dia do aniversário, sua mãe, Dona Josefa, pediu
que ela se sentasse numa cadeira que havia em seu quarto, em frente ao espelho
da penteadeira. O quarto da mãe era sempre muito bem arrumado. Nesse dia, a
cama estava coberta com uma colcha de algodão, tecido piquet com relevo no estilo favo, parecendo uma colmeia sobre a
cama de casal. Maria Clara, ao entrar no quarto da mãe, ficou um longo tempo
olhando aquela colcha. Tinha visto, no livro de ciências, figuras de favos de
mel de abelhas; o professor dizia que a figura dos favos, em forma de
hexágonos, tem o formato perfeito, porque em sua estrutura é possível armazenar
o maior volume de mel utilizando a menor quantidade de cera. Maria Clara olhou
o guarda-roupas de mogno com seu maleiro, o móvel tinha um brilho que refletia
a luz da lâmpada de LED ligada no centro da lage, no teto; dois criados-mudos
guardavam a cabeceira da cama, um em cada lado, sobre eles, em cada um, um
abajur de haste de metal articulado que os pais utilizavam para ‘leitura de
cabeceira’. Olhou outra vez para a colcha com seus favos de mel e sorriu.
-
Que foi menina Maria? – Perguntou a mãe, também sorridente e, com as duas mãos,
juntou os cabelos que cobriam as costas da filha.
- Nada,
mãezinha – respondeu Maria – é só um pensamento.
- Então diga,
que eu também quero rir.
Ao ouvir isso,
Maria ficou séria e corou. Era só um pensamento, mas Maria ainda não se sentia
em liberdade para expressá-lo à sua mãe. Virou a cabeça e olhou para a
penteadeira; sobre a bancada viu batons, bases, rímeis, sombras e pós de
maquiagens; tinha, também, cremes hidratantes e protetor solar, perfumes, óleos
corporais, um pente, uma escova de cabelo, presilhas e bijuterias. Num canto
havia um porta-pinceis. Tudo que a mãe precisava para se ‘manter bonita’ para o
papai! Pegou o maço de cabelos que a mãe ainda segurava e puxou-os, eles
escorregaram suavemente pelas mãos da mãe, então esparramou-os nas costas e
sobre os ombros, “isso é tudo o que me faz bonita”, pensou e seus pensamentos
foram ao encontro do namorado e de suas roupas encardidas. “Ainda vou comprar
roupas novas para ele”.
- Sente-se,
Maria, hoje eu quero fazer duas tranças muito bonitas nesse teu cabelo.
Maria pôs as
duas mãos para trás e juntou a cabeleira, com a mão direita trouxe tudo por
cima do ombro e deixou cair sobre o seio que estava guardado por uma blusa de
malha amarela. Maria olhou-se outra vez no centro do espelho e viu-se
arrumando-se para seu ‘marido’. Os olhos brilharam, pensou em José, conhecera-o
há uns seis meses, ele tinha dezoito anos, os primeiros fios de barba e do
bigode apareciam e ele se orgulhava disso. “Quando eu tiver barba fechada vou
deixar crescer por um ano inteiro, vou fazer promessa”.
- Trança? Acho
que você nunca fez trança nos meus cabelos.
- Hoje eu quero
fazer, antes que você se case e vai embora, daí nunca mais vou poder.
Maria consentiu
e Dona Josefa fez duas lindas tranças, uma para cada lado, deixou que elas
pendessem sobre o peito da filha.
- E agora, já
pode me dizer o que estava pensando quando olhou para a colcha da cama? –
Perguntou Dona Josefa.
Maria estava
olhando sua imagem no espelho e viu seu rosto ficar completamente vermelho.
- A concha...
os favos de mel? – Gaguejou Maria, meio desconcertada.
Dona Josefa tomou
das mãos da filha, pô-la de pé, olhou meigamente em seus olhos e disse:
- Minha filha,
você já é uma mocinha, eu sou tua mãe, seja lá o que for que tenha passado pela
tua cabeça, pode me falar, e fique tranquila que eu também já fui adolescente.
- É que... Tá
bom. Quando eu olhei para os favos de mel, eu ... – Maria ficou vermelha outra
vez, os olhos marejaram – Eu... eu imaginei que seria ali, nesses favos, que a abelha
rainha fazia o mel para alimentar o zangão...- Disse isso e abraçou a mãe.
Dona Josefa
acolheu a filha que tremia, em seus braços, afagou seus cabelos e deu-lhe um beijo
carinhoso.
- É minha
filha, é ali que a abelha rainha faz o mel para alimenta o zangão. – E riram...