V
- Nada! - disse João esforçando-se por mostrar firmeza em suas palavras. – Serve a pinga! – Ordenou batendo com o dedo indicador sobre o balcão para mostrar onde queria o copo servido.
Seu Zé do Bar serviu-lhe uma dose, “bota mais uma” disse João, “que eu estou precisando de coragem” e pôs uma nota de vinte reais ao lado do copo. Seu Zé pegou o dinheiro, fez o troco e foi atender outros clientes que também pediam pelo seu trago, eram clientes costumeiros e com eles não havia questionamentos, bebiam e alegravam-se, bebiam para esquecer o mal que pertence a cada dia, depois iam para casa, escutavam os queixumes das espoas e então sentavam-se diante da televisão para ouvir notícias no Jornal Nacional, daí se consolavam porque o mundo visto pela televisão lhes parecia ainda pior do que o seu. João ficou no bar, devolveu o troco que seu Zé lhe dera e disse ia beber por todo aquele dinheiro. Agora já não sentia tontura da ansiedade, a tontura que sentia era a da pinga, essa tontura era-lhe reconfortante, João estava quase feliz! O coração se acalmava, havia ali, dentro daquele bar um mundo de felicidades, as pessoas riam, brindavam batendo os copos uns contra os outros, jogavam baralho ou sinuca, “Eu quero isso para mim”. Aproximou-se de um grupo que jogava truco, queria participar, mas não sabia as regras, disseram para sentar e observar, “é fácil você vai ver, semana que vem entra no jogo”. Seus olhos já não tinham nitidez suficiente para identificar as cartas, levantou, encostou-se à mesa de sinuca, pediram que saísse, estava atrapalhando. Aquele mundo do bar era mesmo um mundo feliz, mas João não pertencia a ele. Virou-se para sair, mas tinha uma cadeira bem atrás dele, tropeçou nela e caiu batendo com força a cara no chão, o nariz sangrou e uma mancha roxa apareceu sobre o olho direito, na testa um inchaço arredondado ia ficando roxo também, a vista turvou-se de vez, João ficou por um instante sem sentidos. Ergueram-no, seu Zé do trouxe logo um copo de água que João bebeu aos poucos; queriam chamara uma ambulância, mas João, voltando a si, protestou, não queria ser levado de ambulância, não queria ser salvo, “é isso” disse e encheu-se coragem pela primeira vez na vida, “é isso” repetiu, “agora eu sei o que devo fazer”. João parecia ter despertado de um sonho, “vocês não sabem nada, isso aqui é uma ilusão, tudo é uma ilusão, agora eu vou para a vida real e a vida real não pode ser compreendida por pessoas normais porque a vida real não essa realidade que vocês estão vivendo”. Levantou-se para sair, mas sentiu tontura e sentou-se outra vez, deram-lhe outro copo de água, bebeu, então levantou calmamente e saiu do bar.
A rua Otacílio Marques estava quase deserte, o relógio de pulso indicava que faltavam ainda cinco minutos para as nove da noite; João olhou para o relógio e pensou que nesse momento os noivos estariam cortando o bolo, já jantaram, certamente, fizeram brindes, os padrinhos fizeram discursos, os pais felicitaram o amor e a felicidade que deve durar para sempre. Daqui a pouco estarão no hotel para a noite de núpcias. João parou um instante, no meio da rua, e olhou para o céu, viu na claridade que vinha do poste que uma garoa se formara, aos poucos ia aumentando a intensidade até que se transformou em chuva, passou a mão pelos cabelos e pensou que essa chuva vinha de algum lugar indefinido e que depois desse lugar existia um infinito onde a vida terrestre não é capaz de ir e nem de entender. “O infinito é o lugar para quem já saiu dessa vida mesquinha”. Sentiu vontade de beber outra vez, No meio da quadra, Seu Martinho olhou a rua molhada, viu João falando com os céus, balançou a cabeça o fechou a porta de entrada da mercearia com estrondo. João sentiu o baque que a porta fez e saiu correndo em direção do mercado, pediu que Martinho lhe vendesse uma garrafa de cachaça ainda antes de fechar.
- Cachaça? Você deu de beber agora? Que foi isso no rosto, sofreu um acidente?