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terça-feira, 11 de agosto de 2026

CASAMENTO

 


III


Como já foi dito anteriormente, José, quando se casou com Maria Clara, usou roupas novas; não que fosse do seu gosto, mas unicamente para agradar sua noiva, que lhe pedira gentilmente que as usasse pelo menos uma vez, e esta única vez seria na cerimônia de núpcias, na igreja e na festa e, também na lua-de-mel. José estava bem-vestido para os padrões sociais que, para este cerimonial ‘exige’ roupas novas. Um dia antes do casamento, pediu que Maria Clara fosse até sua casa, onde morava com seus pais, e lhe escolhesse as roupas. A noiva pegou as três camisas que comprara e as colocou sobre a cama, uma ao lado da outra, então pegou as três calças e colocou abaixo de cada camisa, procurando a melhor combinação e, dentre elas, a que considerou a mais adequada foi a camisa bege com a calça azul-marinho. Escolheu também um para de meias azuis para combinar com as calças, foi à sapateira e trouxe um para de sapatos que havia sido lustrado no dia anterior e os colocou no chão, diante das roupas. “Pronto, José, aí está!”  As outras calças e camisas devolveu ao guarda-roupas. José passou as mãos sobre a camisa, depois pegou a calça e a ergueu diante de si, pô-la de volta na cama e olhou para Maria Clara que o observava com um sorriso nos lábios.

- Está bem – ele disse – se é isso que você quer, é isso que vai ser. Me agrada agradar você!

Maria Clara também tinha roupas novas. Com a ajuda da mãe, comprara na loja Monalise Ateliê um vestido de noiva com corpete estruturado com barbatanas; o decote, em forma de coração era bastante discreto; Duas alças sustentavam o vestido sobre os ombros e as mangas eram longas e tinham um efeito ilusão, com tule transparente na cor da pele, com bordados e rendas, dando a impressão de que estavam aplicados sobre o corpo da noiva. A saia, com corte evasê fazia um formato da letra A, o que para Maria Clara, sendo a letra A a primeira do alfabeto, poderia significar que ela mesma seria a letra A na literatura do futuro marido. A cauda prolongava o vestido por pelo menos três metros, significando longevidade para a vida matrimonial. José ainda não vira o vestido, “só no altar” dissera a noiva quando ele perguntou se poderia ver o vestido da noiva.

E o dia chegou: dia 14 de maio de 2.016. A Igreja Evangélica Luterana do Brasil, congregação Cristo, estava toda enfeitada; o corredor central tinha laços de fita em todos os bancos que alcançavam o chão; o altar tinha grandes buquês de flores coloridas; no primeiro degrau, em ambos os lados do altar, se via um lindo suporte de um metro e meio de altura sobre os quais estavam arranjos de rosas vermelhas e amarelas. Os convidados ocupavam quase todos os lugares disponíveis e os padrinhos estavam alinhados próximos dos arranjos de rosas. O noivo, vestido com sua camisa bege, calça azul marinho, meias azuis e sapatos pretos abotoava e desabotoava nervosamente seu paletó. Percebendo o nervosismo, o pastor levou-lhe um copo de água e falou-lhe algo ao ouvido que ninguém escutou. O noivo só fez que sim com a cabeça, tomou da água e pareceu ter ficado calmo. Logo o órgão começou a tocar a Marcha Nupsial. Na porta surgiu a noiva toda sorridente, acompanhada do seu pai, o senhor Márcio Deivis. A igreja inteira pôs-se de pé. A passos lentos Maria Clara aproximava-se daquele que dali por diante seria sua outra metade. Essa cerimônia os tornaria um só diante de Deus!

Não vou transcrever aqui tudo o que se passou, de como o pastor saudou a igreja, leu um texto apropriado, abençoou as alianças e pediu que cada um dos noivos fizesse seu juramento de fidelidade eterna. Mas, depois que os noivos prometeram viverem juntos e se amarem ate que a morte os separasse e o pastor disse a eles que agora podiam selar o ato com um beijo, aconteceu algo surpreendente. Quando os noivos se olharam carinhosamente e aproximaram seus lábios para o beijo, no último banco da igreja um dos convidados, demonstrando nervosismo, esfregando as mãos suadas, respirava já com alguma dificuldade e murmurava, alto o bastante para que as pessoas próximas o ouvissem claramente, e dizia: “Não... não... não.” E, quando os noivos finalmente se beijaram, ele gritou alto e prolongado para que todos o ouvissem: “Nãããããããoooooooooo...”

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