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sábado, 12 de setembro de 2026

UMA GRAVIDEZ INESPERADA



VIII

O segundo filho de João Damasceno nasceu no dia 20 de janeiro de 1.995, dia de São Sebastião. A mãe queria porque queria pôr o nome do Santo ao filho, mas o pai não aceitou; todos seriam João, esse era o acordo proposto pela esposa e assim seria, ela poderia escolher o segundo nome, o primeiro estava decidido e não se fala mais nisso. Joana refletiu por alguns dias, convencida de que João Damasceno não mudaria de ideia, então sugeriu que fosse João Vidal.

João Vidal Damasceno deveria ser o caçula do casal João e Joana e assim foi tratado por alguns meses. Enquanto João Alberto, seu irmão mais velho, seria preparado para o sacerdócio e a política, João Vidal seria encaminhado para a vida profissional, seria médico ou engenheiro, talvez arquiteto. Os pais tinham a firme decisão de não ter mais do que dois filhos, “melhor dois bem cuidados do que ter mais e não cuidar!” Joana não queria fazer a laqueadura tubária e João Damasceno também tinha certo receio de proceder a vasectomia, então, por alguns meses optaram por pílulas anticoncepcionais. “É muito seguro”, disse o médico, “só tem que tomar todos os dias, de preferência no mesmo horário.” Joana decidiu tomar os comprimidos todos os dias após o café da manhã, antes de escovar os dentes, assim não esqueceria. Durante todo o ano de 1.995 tudo correu bem, mas durante as festividades de final de ano, quando dormiram muito tarde nas comemorações de natal e ano novo, aconteceu de acordarem tarde no outro dia e seguirem direto para o almoço em família, o que fez com que Joana esquecesse completamente das pílulas que tomaria caso fizesse o desjejum pela manhã. Em fevereiro as regras de menstruação falharam e, em março, os exames confirmaram a nova gravidez. Mais um filho estava previsto para nascer em outubro.

A notícia da gravidez foi um choque na família e repercutiu por toda a vida, como se verá mais adiante. João Damasceno queria que Joana fizesse o aborto o mais rápido possível, antes que a gravidez avançasse, conhecia uma médico alemão radicado em nossa cidade e que fazia clandestinamente o procedimento, mas Joana não aceitou por princípios religiosos. “A igreja vai sustentar e educar o menino?” era a pergunta de João Damasceno que não se sentia psicologicamente preparado para ter mais um filho. “Eu cuido, nem que tenha que morar numa barraca no pátio da igreja,” redarguia Joana, intransigente quanto a manutenção da gravidez. Também ela não quisera ter mais filhos, mas acontecera, foi um descuido durante as festividades de final de ano.

A gravidez, como já se viu, foi um período muito conturbado para o casal; muitas discussões aconteceram e João Damasceno não desistiu da ideia do aborto até que se completasse o terceiro mês de gestação, dali por diante resignou-se, mas constantemente “lembrando” Joana que a vinda de mais uma criança era sua responsabilidade. João afastou-se da esposa, deixou de dar-lhe carinho e passou a sair constantemente com os amigos, à igreja deixou de ir, culpava o pastor pela intransigência da esposa quanto ao aborto. Em julho, às vésperas do aniversário de João Alberto, Joana descobriu que o marido tinha uma amante. Joana a conhecia bem, até então a considerava sua amiga, havia mesmo a convidada para o aniversário do filho que aconteceria dali a uma semana. Joana lembrou-se da promessa que fizera de não cortar o cabelo do filho até que completasse sete anos de idade, ainda não havia falado sobre isso com o marido, no pouco diálogo que tinham, às vezes ele falava que tava na hora de cortar o cabelo do menino, ela dizia que não, era bonito assim, mas no dia do aniversário, João Damasceno levou o menino para cortar o cabelo, Joana interviu, como já vimos, e o menino ficou com o cabelo crescido até que se cumpriu a promessa. Mas, agora, talvez fosse necessário outra promessa, pelo filho que carregava no ventre. No domingo, Joana foi à igreja com as crianças e prostrou- se de joelhos diante do altar pedindo intervenção de Deus para que o filho nascesse com saúde, e prometeu que ele seria casto até que se casasse.

Em 05 de outubro de 1.996, nasceu João Damasceno Filho, o nome, a mãe escolhera para agradar ao marido e aplacar-lhe a ira.

terça-feira, 1 de setembro de 2026

O COMEÇO



 

VII

Agora já sabemos, mais ou menos, como a história termina. Mas, antes de saber o final, vamos compreender o que se deu antes desse acontecimento. Como já vimos, João Damasceno Filho era o terceiro dentre os irmãos. Um ano após o casamento, João Damasceno, o pai, e Joana celebravam o nascimento do primogênito; e estava acertado e combinado que se chamaria Carlos Augusto se fosse menino, ou Ana Vitória, se menina. O bebê nasceu de parto normal na maternidade do Hospital Universitário e pesou três quilos e quatrocentas gramas e media exatos quarenta e sete centímetros de comprimento.

-Ele vai se chamar João Alberto, - disse a mãe.

- Mas, não seria Carlos Augusto? - redarguiu o pai.

- Seria, mas eu quero que seja João, porque é o nome do pai, e Alberto, porque é o nome do avô.

Uma semana depois João Alberto foi registrado no Cartório do 2º Ofício de Registros Civis e um mês depois foi batizado na Igreja Luterana onde os pais confessavam a fé. Quando o irmão nasceu, o segundo, no ano seguinte, João Alberto já andava pela casa toda, brincava de carrinhos e seus cabelos loiros chamavam atenção das visitas. A mãe fizera promessa de não cortar seus cabelos até completar sete anos de idade e estar matriculado no primeiro ano do ensino fundamental. Joana acreditava que, fazendo a promessa, o menino seria abençoado por Deus e, quando fosse adulto, se tornaria um líder religioso e político importante. “Só por Deus para termos um político honesto”. Mas, não contou para o marido sobre a promessa que fizera; João Damasceno detestava políticos e tinha reserva quando se falava de religiosos. Mesmo frequentando a igreja, desconfiava que os pastores estavam ali só para garantir o salário e exercer autoridade sobre os membros. “Onde tem um que manda, tem também um que é oprimido e nas igrejas sempre tem o que manda”. Quando João Alberto ia completar dois anos de idade e ansiava pelo bolo de aniversário, já com as palmas treinadas para o ‘parabéns para você’, João Damasceno resolveu que estava na hora de levá-lo ao cabeleireiro. Agendou o corte para às duas da tarde e na hora do almoço comunicou a esposa que daria um passeio com o filho enquanto ela cuidava de arrumar a casa para a festa do dia seguinte. Joana pensou que o marido ia levar o filho para escolher um presente, concordou logo e pôs-se a organizar o ambiente enquanto o neném dormia em seu berço. Às duas horas chegou o compadre Maurílio, trazia um presente para o afilhado e se desculpava de não poder comparecer à festa, tinha de ir para Campo Grande onde se tratava no Hospital do Pênfigo e a consulta estava marcada para o dia seguinte, não tinha como mudar em cima da hora.

- Já avisei o compadre João, encontrei ele na barbearia, vai cortar o cabelo do Joãozinho.

- Barbearia!!!! Cortar o cabelo do Joãozinho???

Joana ficou visivelmente apavorada, já tinha pegado o presente que o compadre lhe dera, mas devolveu-o com energia e pediu que ele ficasse com o nenê. “É urgente! Não pode cortar o cabelo!” e saiu correndo, entrou na barbearia esbaforida, gritando: “não corta, não corta”. Houve um certo alvoroço, ninguém entendia o que estava acontecendo, Joana percorreu com os olhos as três cadeiras, mas não viu João Alberto em nenhuma delas. Na segunda cadeira, Lucas cortava tranquilamente os cabelos do Jair Valadares, assustado com os gritos, “afundou” a máquina abrindo um caminho de cabelos raspados no meio da cabeça. Enquanto isso, João Damasceno, sentado em uma cadeira com o filho no colo, aguardando a vez para cortar o cabelo do menino, levantou-se assustado também.

- Joana, o que está acontecendo? - perguntou sem compreender a aflição da esposa.

- Ainda não cortou? Graças a Deus!

Sem entender nada, João Damasceno foi para casa sem cortar os cabelos do menino. Com o mesmo desentendimento, todos na barbearia riam do acontecido, mas Jair Valadares permanecia sério. Sem outra alternativa, a única solução para seu caso foi raspar completamente a cabeça.

No dia seguinte houve uma bela festa de aniversário, enquanto João Alberto batia palmas e ria enquanto os convidados cantavam ‘parabéns para você”, a cidade comentava o caso da barbearia e, assim, nossa cidade ficou sabendo da promessa feita por Joana em prol do futuro político e religioso do filho. Jair Valadares guardou ressentimento por muitos anos do acontecido.

UMA GRAVIDEZ INESPERADA

VIII O segundo filho de João Damasceno nasceu no dia 20 de janeiro de 1.995, dia de São Sebastião. A mãe queria porque queria pôr o nome do ...