Translate

terça-feira, 1 de setembro de 2026

O COMEÇO

 VII


 

Agora já sabemos, mais ou menos, como a história termina. Mas, antes de saber o final, vamos compreender o que se deu antes desse acontecimento. Como já vimos, João Damasceno Filho era o terceiro dentre os irmãos. Um ano após o casamento, João Damasceno, o pai, e Joana celebravam o nascimento do primogênito; e estava acertado e combinado que se chamaria Carlos Augusto se fosse menino, ou Ana Vitória, se menina. O bebê nasceu de parto normal na maternidade do Hospital Universitário e pesou três quilos e quatrocentas gramas e media exatos quarenta e sete centímetros de comprimento.

-Ele vai se chamar João Alberto, - disse a mãe.

- Mas, não seria Carlos Augusto? - redarguiu o pai.

- Seria, mas eu quero que seja João, porque é o nome do pai, e Alberto, porque é o nome do avô.

Uma semana depois João Alberto foi registrado no Cartório do 2º Ofício de Registros Civis e um mês depois foi batizado na Igreja Luterana onde os pais confessavam a fé. Quando o irmão nasceu, o segundo, no ano seguinte, João Alberto já andava pela casa toda, brincava de carrinhos e seus cabelos loiros chamavam atenção das visitas. A mãe fizera promessa de não cortar seus cabelos até completar sete anos de idade e estar matriculado no primeiro ano do ensino fundamental. Joana acreditava que, fazendo a promessa, o menino seria abençoado por Deus e, quando fosse adulto, se tornaria um líder religioso e político importante. “Só por Deus para termos um político honesto”. Mas, não contou para o marido sobre a promessa que fizera; João Damasceno detestava políticos e tinha reserva quando se falava de religiosos. Mesmo frequentando a igreja, desconfiava que os pastores estavam ali só para garantir o salário e exercer autoridade sobre os membros. “Onde tem um que manda, tem também um que é oprimido e nas igrejas sempre tem o que manda”. Quando João Alberto ia completar dois anos de idade e ansiava pelo bolo de aniversário, já com as palmas treinadas para o ‘parabéns para você’; João Damasceno resolveu que estava na hora de levá-lo ao cabeleireiro. Agendou o corte para às duas da tarde e na hora do almoço comunicou a esposa que daria um passeio com o filho enquanto ela cuidava de arrumar a casa para a festa do dia seguinte. Joana pensou que o marido ia levar o filho para escolher um presente, concordou logo e pôs-se a organizar o ambiente enquanto o neném dormia em seu berço. Às duas horas chegou o compadre Maurílio, trazia um presente para o afilhado e se desculpava de não poder comparecer à festa, tinha de ir para Campo Grande onde se tratava no Hospital do Pênfigo e a consulta estava marcada para o dia seguinte, não tinha como mudar em cima da hora.

- Já avisei o compadre João, encontrei ele na barbearia, vai cortar o cabelo do Joãozinho.

- Barbearia!!!! Cortar o cabelo do Joãozinho???

Joana ficou visivelmente apavorada, já tinha pegado o presente que o compadre lhe dera, mas devolveu-o com energia e pediu que ele ficasse com o nenê. “É urgente! Não pode cortar o cabelo!” e saiu correndo, entrou na barbearia esbaforida, gritando: “não corta, não corta”. Houve um certo alvoroço, ninguém entendia o que estava acontecendo, Joana percorreu com os olhos as três cadeiras, mas não viu João Alberto em nenhuma delas. Na segunda cadeira, Lucas cortava tranquilamente os cabelos do Jair Valadares, assustado com os gritos, “afundou” a máquina abrindo um caminha de cabelos raspados no meio da cabeça. Enquanto isso, João Damasceno, sentado em uma cadeira com o filho no colo, aguardando a vez para cortar o cabelo do menino, levantou-se assustado também.

- Joana, o que está acontecendo? - perguntou sem compreender a aflição da esposa.

- Ainda não cortou? Graças a Deus!

Sem entender nada, João Damasceno foi para casa sem cortar os cabelos do menino. Com o mesmo desentendimento, todos na barbearia riam do acontecido, mas Jair Valadares permanecia sério. Sem outra alternativa, a única solução para seu caso foi raspar completamente a cabeça.

No dia seguinte houve uma bela festa de aniversário, enquanto João Alberto batia palmas e ria enquanto os convidados cantavam ‘parabéns para você”, a cidade comentava o caso da barbearia e, assim, nossa cidade ficou sabendo da promessa feita por Joana em prol do futuro político e religioso do filho. Jair Valadares guardou ressentimento por muitos anos do acontecido.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

O COMEÇO

  VII   Agora já sabemos, mais ou menos, como a história termina. Mas, antes de saber o final, vamos compreender o que se deu antes desse ac...