Translate

terça-feira, 4 de agosto de 2026

JOSÉ E AS ROUPAS NOVAS

 


         José é um sujeito franzino, seus cabelos estão sempre desalinhados e suas roupas puídas; mesmo limpas, parecem estar sempre sujas devido às manchas encardidas nas calças e também nas camisas, especialmente as de cor claras, justamente as que José gosta mais de usar. Quando José se casou com Maria Clara, esta logo lhe comprou roupas novas. As camisas de cor verde, vermelho ou bege; as calças de um azul marinho, marrom ou preta. José pegou as roupas novas, olhou, olhou, e disse à Maria Clara que fora um desperdício de dinheiro. “Pra que gastar dinheiro com isso se eu eu já tenho roupas suficiente?” Maria Clara disse que queria que ele ficasse elegante com as roupas novas. “Assim, todo mundo vai elogiar você.”  José aceitou, mas pediu que, despois dos elogios, ela deveria lavar as roupas com pouco sabão. “Assim, elas ficam com aquelas manchas lindas que eu gosto de ver.” Maria Clara ficou séria por uns instantes, depois sorriu da inocência do marido, mas logo compreendeu que não era mesmo inocência, mas uma certa forma de pureza. O marido parecia não se importar com os elogios dos outros. “Se a roupa está limpa, não importa que pareça suja”, disse José. Maria Clara foi arrumar as roupas novas no guarda-roupas, deixando as antigas, manchadas, por cima e em cima destas apenas uma muda de roupas novas para José usar no culto de domingo e receber os elogios necessários e volúveis. “Pronto, José, segunda-feira você vai usar essas roupas no trabalho e elas começarão a ter uma identidade própria.”

          O culto começou às dezenove horas; cinco minutos antes, José e Maria Clara entraram na igreja pela quinta vez após o casamento. Por um mês inteiro de casados, José usou suas roupas manchadas e ninguém disse nada. Não é costume, nas igrejas, que se fique falando das roupas dos demais fieis. “Cuidados com as fofocas” dizia o pastor, “fofocar também é pecar”. Mas, tinha regras, e elas eram bem claras: Nada de roupas escandalosas! Roupas manchadas não eram escandalosas. Antes de se casar, José frequentou a igreja por cinco anos, assistiu religiosamente os cultos, foi aceito como membro e recebeu o batismo, sempre com suas roupas manchadas; e, se Jesus o recebeu e se tornou seu único Senhor e Salvador, quem mais o haveria de censurar? Maria Clara conhecia o seu lugar, também ela fora batizada. Se Jesus não repreendia José por causa de suas roupas, não seria ela a fazê-lo. O máximo que ela poderia fazer seria comprar roupas novas para o marido, e isso ela já o havia feito.

         Quando José e Maria entraram na igreja, o presbítero ainda não tinha dado as boas-vindas a todos ‘em nome de Jesus’, o coro ainda não cantava. Uma música gospel, quase silenciosa, tocava nas caixas de som, era música orquestrada e o volume era tão baixo que qualquer um que ali estivesse poderia ouvir se alguém cochichasse por perto; e muitos ouviram, porque muitos cochicharam. Não tinha como não reparar nas roupas novas do José. Mal se sentaram, num espaço disponível num banco na quinta fileira, Maria Clara e José também cometeram o mesmo pecado coletivo da igreja naquela hora e fizeram sua fofoca particular: “A igreja toda parece estar falando das tuas roupas novas!” disse Maria Clara ao ouvido do marido. “Pai, perdoa-os, porque eles não sabem o que fazem” respondeu José, com os olhos fitos na cruz acima do altar.

JOSÉ E AS ROUPAS NOVAS

            José é um sujeito franzino, seus cabelos estão sempre desalinhados e suas roupas puídas; mesmo limpas, parecem estar sempre suja...