V
Vamos saber agora o que aconteceu com João Damasceno Filho após ele ter saído da igreja onde se realizara o casamento de José e Maria Clara. Estamos lembrados de que João ficara muito tenso durante a cerimônia e que, quando os noivos estavam prestes a se beijarem ele começou a dizer: “não, não,... não...”, chamando mesmo a atenção dos convidados que estavam mais próximos dele. João estava sentado no último banco da igreja e, em meio à sua aflição, suava frio, passava a mão pelos cabelos de sorte que ficaram completamente desalinhados, parecendo uma vassoura velha. Sentiu o sangue ‘ferver’ e um calor invadiu seu corpo todos fazendo as pernas tremerem. João sentou-se um pouco, mas o ar lhe faltava, não podia mais permanecer ali, então levantou-se e saiu, sentia tontura por isso agarrou-se ao corrimão para se apoiar enquanto descia os sete degraus da escada. Já no pátio, pensou em voltar para dentro da igreja e dizer em alta voz que ele tinha um impedimento para a concretização daquele casamento, que ele amava aquela que ia se casar e que esse amor já durava uma vida inteira, seria injusto ela se casar com outro homem; chegou a subir dois degraus, mas pensou que talvez não fosse o bastante e ele poderia ser humilhado ali, diante daquela igreja lotada de convidados, todos a favor dos noivos. Pôs a mão no peito e sentiu o coração acelerado, “eu não a mereço, nunca fui bom o bastante”, disse em voz alta e saiu do pátio da igreja, andando sem rumo, até parar diante do bar Central, onde sentou-se ao balcão e pediu um “trago”.
- Boas tardes João, você não é de beber, eu quero vender essa pinga, mas estou vendo que você está meio abatido, meio amarelo, os cabelos desalinhados.... que foi, alguma coisa que eu possa ajudar?
- Nada! - disse João esforçando-se por mostrar firmeza em suas palavras. – Serve a pinga! – Ordenou batendo com o dedo indicador sobre o balcão para mostrar onde queria o copo servido.
Seu Zé do Bar serviu-lhe uma dose, “bota mais uma” disse João, “que eu estou precisando de coragem” e pôs uma nota de vinte reais ao lado do copo. Seu Zé pegou o dinheiro, fez o troco e foi atender outros clientes que também pediam pelo seu trago, eram clientes costumeiros e com eles não havia questionamentos, bebiam e alegravam-se, bebiam para esquecer o mal que pertence a cada dia, depois iam para casa, escutavam os queixumes das espoas e então sentavam-se diante da televisão para ouvir notícias no Jornal Nacional, daí se consolavam porque o mundo visto pela televisão lhes parecia ainda pior do que o seu. João ficou no bar, devolveu o troco que seu Zé lhe dera e disse ia beber por todo aquele dinheiro. Agora já não sentia tontura da ansiedade, a tontura que sentia era a da pinga, essa tontura era-lhe reconfortante, João estava quase feliz! O coração se acalmava, havia ali, dentro daquele bar um mundo de felicidades, as pessoas riam, brindavam batendo os copos uns contra os outros, jogavam baralho ou sinuca, “Eu quero isso para mim”. Aproximou-se de um grupo que jogava truco, queria participar, mas não sabia as regras, disseram para sentar e observar, “é fácil você vai ver, semana que vem entra no jogo”. Seus olhos já não tinham nitidez suficiente para identificar as cartas, levantou, encostou-se à mesa de sinuca, pediram que saísse, estava atrapalhando. Aquele mundo do bar era mesmo um mundo feliz, mas João não pertencia a ele. Virou-se para sair, mas tinha uma cadeira bem atrás dele, tropeçou nela e caiu batendo com força a cara no chão, o nariz sangrou e uma mancha roxa apareceu sobre o olho direito, na testa um inchaço arredondado ia ficando roxo também, a vista turvou-se de vez, João ficou por um instante sem sentidos. Ergueram-no, seu Zé do trouxe logo um copo de água que João bebeu aos poucos; queriam chamara uma ambulância, mas João, voltando a si, protestou, não queria ser levado de ambulância, não queria ser salvo, “é isso” disse e encheu-se coragem pela primeira vez na vida, “é isso” repetiu, “agora eu sei o que devo fazer”. João parecia ter despertado de um sonho, “vocês não sabem nada, isso aqui é uma ilusão, tudo é uma ilusão, agora eu vou para a vida real e a vida real não pode ser compreendida por pessoas normais porque a vida real não essa realidade que vocês estão vivendo”. Levantou-se para sair, mas sentiu tontura e sentou-se outra vez, deram-lhe outro copo de água, bebeu, então levantou calmamente e saiu do bar.
A rua Otacílio Marques estava quase deserte, o relógio de pulso indicava que faltavam ainda cinco minutos para as nove da noite; João olhou para o relógio e pensou que nesse momento os noivos estariam cortando o bolo, já jantaram, certamente, fizeram brindes, os padrinhos fizeram discursos, os pais felicitaram o amor e a felicidade que deve durar para sempre. Daqui a pouco estarão no hotel para a noite de núpcias. João parou um instante, no meio da rua, e olhou para o céu, viu na claridade que vinha do poste que uma garoa se formara, aos poucos ia aumentando a intensidade até que se transformou em chuva, passou a mão pelos cabelos e pensou que essa chuva vinha de algum lugar indefinido e que depois desse lugar existia um infinito onde a vida terrestre não é capaz de ir e nem de entender. “O infinito é o lugar para quem já saiu dessa vida mesquinha”. Sentiu vontade de beber outra vez, No meio da quadra, Seu Martinho olhou a rua molhada, viu João falando com os céus, balançou a cabeça o fechou a porta de entrada da mercearia com estrondo. João sentiu o baque que a porta fez e saiu correndo em direção do mercado, pediu que Martinho lhe vendesse uma garrafa de cachaça ainda antes de fechar.
- Cachaça? Você deu de beber agora? Que foi isso no rosto, sofreu um acidente?
João não quis explicar, disse que caiu, estava bem, ia para casa, queria levar a cachaça para fazer uma caipirinha, os amigos iam lá, etc. Martinho abriu outra vez a porta, trouxe uma garrafa de 51, recebeu o dinheiro e fechou outra vez com estrondo a porta do mercadinho. Perguntou se queria uma carona, João disse que não e foi andando, a chuva continuava intensa, quando chegou na esquina parou em baixo de uma poste de iluminação e abriu a garrafa. Chegou em casa já passavam das dez horas da noite, a casa estava silenciosa, procurou as chaves que estavam no bolso da calça, abriu a porta, não havia ninguém, todos estavam na festa do casamento; entrou, a água da chuva que acumulada em suas roupas e em seu corpo iam deixando um rastro de umidade pelo chão; não pensou em fechar a porta, também não lembrou de tirar os sapatos, entrou no quarto e olhou para a cama, cerrou os punhos com força, a garrafa quase escorregou da sua mão, abriu-a outra vez e tomou um gole fechou os olhos e sentiu outra vez aquela tontura que traz felicidades, tomou outro trago e mais outro, e assim até ficar completamente tonto. Ficou alguns segundos com os olhos fechados, depois abriu-os, viu a cama arrumada, tinha uma colcha branca e na cabeceira, como de costume, dois travesseiros. Na parede ao pé da cama, uma mesa onde João se sentava para escrever seus textos, suas cartas de amor para Maria Clara, que nunca mandara. Sentou-se à mesa e abriu a gaveta, pegou um álbum de fotografias, ali estava ela, linda com seus cabelos ondulados até o meio das costas. A vista embaçou, fechou os olhos e viu Maria Clara na cama com José, estavam nus, José beijava Maria Clara, deslisava seu corpo sobre o dela, mas a imagem mudava, agora era Maria Clara que acariciava o corpo de José, beijava seu pescoço, ia descendo de vagar, seus cabelos cobriam o peito dele, ele gemia, ela esboça um sorriso e continuava beijando. “Nããããooooo…” João gritou, dessa vez ninguém ouviu, a casa estava vazia, todos estavam na festa. “Não posso mais” disse João, e foi nesse momento que decidiu pôr fim ao sofrimento. Maria Clara fora a pessoa que dera sentido à sua vida, desde a infância, agora ela se fora para sempre. João levantou-se da cadeira decidido a se matar, foi até o guarda-roupas onde guardara o revolver que comprou do primo Jair para que ele não ‘fizesse’ nenhuma besteira, o revolver estava guardado no fundo do maleiro para que ninguém o visse; quando comprou, a arma tinha uma bala, uma única, João nunca dera um tiro sequer, nem dissera a ninguém da existência da arma em casa. Agora estava ali, pronta para ser usada, João pegou o revólver, examinou-o com carinho, levou até a mesa, colocou-o contra a parede em sua frente, estava decidido, mas antes ia escrever uma última carta à Maria Clara. A seguir transcrevo na íntegra o teor da carta deixada sobre a mesa com manchas de água, não se sabe se da chuva que escorria da cabeça de João ou se de lágrimas.
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