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quinta-feira, 20 de agosto de 2026

A CARTA



VI


João Damasceno Filho olhou fixamente para o revólver à sua frente e refletiu que finalmente teria achado uma utilidade para aquela arma que comprara do seu primo para que ele ‘não fizesse nenhuma bobagem”. Passou levemente a mão sobre a arma, e abriu a gaveta onde estavam guardadas as cartas que escrevera ao longo de sua vida e nunca as enviara, todas estavam destinadas à uma única pessoa: Maria Clara, mas nenhuma delas continha o sobrenome; ‘o sobrenome, este só vou mencionar quando ela se casar comigo’, dizia a si mesmo enquanto escrevia as cartas, ‘será então Maria Clara Damasceno, e se o cartório aceitar, acrescentaremos Filha, para que fique igual ao meu!’ “Agora ela já tem outro nome”, pensou tristemente, e uma lágrima pingou dos seus olhos. João pegou as cartas e as colocou sobre a mesa, ao lado do revólver, elas estavam dentro de uma caixa de papelão, guardadas em ordem de data, a primeira era só um bilhete, escrito quando ambos estudavam na escola municipal Antônio Capilé. João tinha então dez anos e Maria Clara oito; Maria Clara sentava na terceira carteira da segunda fileira enquanto João ocupava a quinta carteira da fileira ao lado, junto da parede, a professora ensinava os alunos a fazer contas de multiplicação, João só tinha olhos para aquela menina e seus lindos cabelos ondulados, mas sua timidez extrema impediam-no de arriscar qualquer aproximação, ficava olhando-a e sonhando; no intervalo, quando a via brincar com as outras meninas, sentia um espécie de encantamento enquanto ela saltitava em brincadeiras de roda e seus cabelos esvoaçavam e um sorriso lindo iluminava seu rosto. Se algum menino se aproximasse e tocasse nela, já o ciúme lhe ardia. Tinha vontade de se aproximar, fazer-lhe alguma brincadeira, algumas vezes se enchia de coragem, mas ao chegar perto já não sabia o que fazer, ficava aterrorizado e voltava ao seu lugar de solidão. Então alguém o chamava para brincar e ele ia. Quando as aulas acabavam e todos iam para suas casas, João se perguntava: “Por que não falei com ela?” Um dia, nesse dia em que a professora ensinava matemática, João arrancou uma folha do caderno e escreveu: “Olá Maria Clara, já perdi as contas de quantas contas fiz para ter coragem de falar contigo”. Quis escrever mais, mas a inspiração cessou; achou que já estava bom, que ela ia gostar, ameaçou levantar da carteira para entregar-lhe o bilhete, a professora o notou e perguntou aonde ele iria, João ficou completamente vermelho de vergonha e voltou ao seu lugar, guardou o bilhete no caderno onde permaneceu até o final daquele ano, quando já tinha outros seis, todos guardados num envelope dentro da mochila. Todas essas lembranças passaram pela cabeça de João quando iniciou sua carta que dizia:

Querida Maria Clara,

Acabei de tomara a decisão mais importante para a minha vida; muitos hão de pensar que foi uma decisão trágica, mas, te escrevo esta carta porque acho que você será a única pessoa capaz de me compreender. Por isso, se você estiver lendo esta carta é porque eu já não estou mais aqui para poder dar qualquer explicação, e elas não serão mesmo necessárias porque você saberá compreender tudo o que está se passando dentro de mim e compreenderá que o que estou prestes a fazer é a única coisa que julgo possível para que eu tenha paz’.

Quando acabou de escrever esse primeiro parágrafo, João Damasceno Filho surpreendeu-se com sua própria lucidez; até ha pouco sentia-se tonto por causa da bebida. Olhou em volta e viu seu guarda-roupas de madeira em mogno com oito portas, maleiro e três gavetas grandes sob as portas centrais. Esse móvel estava em seu quarto desde a sua mais tenra infância; João Damasceno Filho parecia ver cada peça de roupa sua guardada e tirada de dentro. ‘A minha vida inteira passou por aí’, pensou, e sentiu vontade de beber. Foi até a cozinha e pegou um copo de vidro, de volta ao quarto encheu-o de cachaça e foi bebendo aos poucos até que ficou um terço do líquido, então bebeu o restante de um gole. Ficou tonto outra vez, quis levantar-se da cadeira, mas tropeçou no tapete e caiu, bateu a cara na porta do guarda-roupas e foi ao chão. O rosto sangrou, João passou a mão no ferimento e gritou um palavrão, amaldiçoou a vida e deu graças a si mesmo porque ia por um fim a tudo isso, “assim que terminar a carta para Maria Clara”. Virou de lado para melhor apoiar-se nos braços e levantou devagar, chegou-se à mesa e sentou outra vez na cadeira, retomou a caneta e continuou a escrever.

Maria Clara, eu sei que nunca tive coragem de te contar, mas eu imagino que você saiba que eu sempre te amei. Digo isso porque mais de uma vez você se aproximou de mim perguntando o porquê de eu ficar te olhando ‘assim’. Lembro que eu já tinha mais de dezoito anos quando você me perguntou isso e eu fiquei vermelho de vergonha e saí de perto sem dizer uma única palavra. O meu coração estava cheio de alegria pela oportunidade que você me oferecia para falar do meu amor, mas o sangue fervia em minhas veias, o rosto ficava todo vermelho e os olhos lacrimejavam, eu me sentia aterrorizado e nunc fui capaz de dizer o quanto eu te amava. Agora você está casada e eu nunca mais terei uma oportunidade de te falar dos meus sentimentos.

João parou outra vez, encheu novamente o copo e percebeu que só restava pouca bebida na garrafa; bebeu um grande gole e ficou ainda mais bêbado. Pegou o revólver, acariciou, empunhou com alguma firmeza e encostou o cano na cabeça um pouco acima do ouvido. “Assim está bom”, pensou, “é bem aqui”. Pôs o revolver sobre o colo e escreveu o último parágrafo da carta.

Pronto, agora já sei exatamente o lugar onde a bala irá ferir a minha cabeça, ela atravessará o meu cérebro, assim eliminará qualquer vestígio de lembrança. Estou bêbado, eu sei. Desejo que você seja feliz e que meus pais entreguem está carta para ti pois este é o meu último desejo.

Adeus.

Eu te amo. Sempre te amei!

Um tiro de revólver ecoou pelo bairro.

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