Já cansei de reclamar das coisas que
eu queria escrever e não escrevi porque as ideias brilhantes que eu tinha na
cabeça simplesmente não desciam para os dedos. Agora faço assim: escrevo, mesmo
que os pensamentos se recusem a fluir. Só escrevo, muitas vezes sem mesmo olhar
para o teclado; depois corrijo os erros.
Quando não escrevo fico mal, como se
algo estivesse faltando em mim. Escrever é o alimento da minha alma. Estive em
coma por alguns meses, até fazer a última viagem de Kombi home. As estradas, os
campings e as pessoas que conheci ao longo dos mais de seis mil quilômetros
rodados pelo Sul do Brasil me despertaram para a vida!
A vida é como uma viagem: tem um
início, um tempo de descobertas, um tempo de maturidade e um fim. A viagem da
minha vida foi cheia de perrengues, mas isso não quer dizer que não foi boa;
foi boa sim, má também!
De Kombi home fiquei exatos sessenta
e sete dias na estrada. Na vida estou há sessenta e sete anos. Não tem nada que
se se pareça entre a viagem de Kombi e a minha vida; a não ser por alguns
detalhes quase imperceptíveis do percurso. Por exemplo: de Kombi, saí sozinho
para um longo percurso; minha vida foi solitária por uma infinidade de dias.
Hoje estou em casa, à meia noite,
tomando uma cerveja sem glúten porque tenho doença autoimune. Não deveria estar
bebendo, mas a vida é um eterno embriagar-se. A embriaguez é a possibilidade de
se viver uma ilusão; a ilusão de que seremos respeitados, a ilusão de que
seremos amados, a ilusão de que pertenceremos a um grupo, a ilusão de que seremos
felizes. Pura ilusão!
Viajar de motor home é uma ilusão de
se viver em liberdade. É uma delícia viver na ilusão! Já estou fazendo planos
para a próxima viagem. Vou tomar mais uma cerveja, a cerveja me dá a ilusão de
que posso qualquer coisa que eu quiser. Escrever também é uma ilusão, é a
ilusão de que outras pessoas vão ler o que escrevemos e vão pensar: “Uau! Esse cara
é um intelectual!”
Pedi para a alexa tocar uma música,
ela tocou “stand by me”. Ela deve
estar de brincadeira! Eu estou a mil quilômetros de distância. Quando eu
perguntei se a alexa me amava, ela disse que era só um dispositivo eletrônico. Mas,
quando eu peço uma música, ela toca Stand
by me.
Não reclamo da vida todos os dias, só
quando me lembro da merda que foi minha infância, minha juventude e minha idade
adulta. Com perdão da palavra: ’merda’. Precisei ficar idoso para me livrar do ‘laço’. Não troco meus últimos quatro
anos pelo resto da minha vida. É sobre isso que quero escrever. Talvez a vida
ainda me de palavras.
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