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segunda-feira, 6 de setembro de 2021

OS POBRES DEVEM ECONOMIZAR

Hoje, vi na televisão que se deve economizar energia elétrica porque os preços aumentaram. Quase me incomodei. Deixei para lá, afinal o sistema político e econômico é liberal e nesse modelo de governo, cada um ter liberdade de fazer como quiser. O governo diz que a culpa é de São Pedro que tomou a liberdade de não mandar as chuvas necessárias para encher os reservatórios, assim, além de economizar luz também se deve economizar a água. Aí tudo faz sentido, o segredo é não tomar banho!

O que eu não entendi bem foi a atitude de São Pedro. O Brasil está sob o comando de um governo terrivelmente evangélico, que se diz fiel seguidor da palavra divina e de todos os seus preceitos. Sendo são Pedro o chefe da portaria do Céu, certamente conhece muito bem a literatura celestial e, sendo ele mesmo o comandante das torneiras, deixa nosso país, terrivelmente evangélico, sem as chuvas temporais e até mesmo a serôdia. Haveria de São Pedro ter reivindicado cargo no governo e o Centrão recusado?

Mesmo o presidente tendo dado mostras, em tempos pretéritos, de que seria ele quem manda, agora, na prática já não manda mais. O presidente, no caso, o da Câmara dos Deputados, o Arthur Lira é, de fato, o chefe de governo. Nem sei porquê escrevi deputados com letra maiúscula. Teria ele dado um golpe de estado e deixado uma figura decorativa no planalto? Bem, pelo menos em termos de nomeações de assessores disso, daquilo e daquiloutro parece que sim, o Lira indica e o Bolsonaro diz sim, sim e assina a nomeação com a caneta Bic.

No dia da Independência, os dependentes agro negociantes vão à Brasília dar seu grito de dependência! Nunca antes neste país se distribuiu tanto dinheiro a pessoas tão ricas! Não vi os termos do acordo entre governo e o agronegócio, mas suponho que talvez se ofereça um carguinho qualquer ao chefe da chuva. Talvez uma filiação ao PP com promessa de vultosos recursos do fundo eleitoral, sei lá. Se não tiver acordo desse governo com a equipe de São Pedro, o agronegócio sai do apoio, isto é certo. Não adianta financiamento barato e preço alto de mercado se não tiver produção!

E a televisão noticiou outra vez que é necessário economizar energia. Fez até uma reportagem mostrando uma casa de pessoas bem pobres que só tem duas lâmpadas dentro de casa e, se desligarem uma, não tomarem banho e nem abrirem a geladeira mais que duas vezes no dia, então o governo dará um desconto na conta de energia.

As pessoas mais pobres precisam economizar, disse o repórter, para que não falte para os ricos que precisam ligar o ar condicionado para ter conforto para sua família, seja de dia ou de noite. Ah, isso o repórter não disse!

sexta-feira, 3 de setembro de 2021

OS VENDILHÕES DO TEMPLO

Antes de começar a escrever este conto, devo dizer que sou Cristão, ainda que eu não siga nenhuma denominação em especial. Também diria que sou Crente, esse nome que dão para crentes não católicos romanos, ainda que discorde veementemente de muitas denominações que se autodenominam evangélicas, mas que mais parecem empresas capitalistas e que não têm nenhum pudor em adorar a dois deuses ao mesmo tempo, ainda que a bíblia o proíba. Dito isto, vamos ao texto propriamente.

Eu tenho um amigo que mora num país Sul Americano e ele diz que por lá as igrejas são muitíssimas ricas. O segredo, disse, está na liberdade religiosa. Não me espantei, pois aqui no Brasil também temos liberdade de organização religiosa e igrejas muito ricas, ao que ele acrescentou o que seria o tal segredo. O segredo, repetiu como se fosse realmente algo muito secreto, é que lá no meu país, qualquer um pode abrir uma igreja, fazer-se pastor, cadastrar na Receita Federal e com o CNPJ em mãos reivindicar até o terreno junto ao poder público sem ter que pagar nada, e daí vender a promessa do Céu para aqueles que pagam o dízimo e pronto, logo a igreja se enche de esperançosos miseráveis, assim como enche também a conta bancária do pastor.

Como falava à sério, cenho franzido e tudo, pensei tratar-se de um pequeno país administrado como um fazendeiro cuida de uma fazenda de gado. Sim e não, disse. O presidente administra mesmo como se fosse uma fazenda de gado, ele berra para um lado, grita para o outro e o gado o segue fielmente, mal sabe que vai para o matadouro. Mas, não é um pequeno país, é um dos maiores do continente, prá lá de duzentos milhões de habitantes, incluído os bovinos que seguem os gritos e os berros!

Perguntei-lhe sobre o governo do país e sua relação com as igrejas, já que aqui isso parece tão evidente. Respirou fundo, ergueu as mãos ao ar em pequenos círculos, olhou-me com aquele olhar intrigado de quem quer, não querendo, responder uma pergunta, fechou a mão esquerda diante de si e com direita espalmada em direção ao meu peito, afirmou com segurança e tristeza no olhar que, se não fosse o Superior Tribunal Federal, o presidente já teria colocado placa de igreja em frente de seu palácio e se autonomeado pastor titular da igreja com o nome do país. Pelo sim, pelo não, apresentou uma reforma tributária prometendo instituir o dízimo. Para ser ministro, disse, não importa a idoneidade, basta ser terrivelmente evangélico!

E o povo, perguntei, está feliz? Feliz? Sim. Os banqueiros e os latifundiários estão felicíssimos! E o gado pasta! Pensei ser isso uma metáfora. Não é possível que banqueiros e latifundiários paguem o dízimo. Não!!! Quase berrou. Banqueiros e latifundiários não pagam impostos, eles são tidos por deuses, são adorados pelos do povo. Quando um destes aparece em público, o que é raro, normalmente ficam reclusos em seus templos, mansões, resorts, casas de praia, fazendas, etc., mas quando aparecem no meio do povo são reverenciados como a santos da igreja católica, o povo põe-se de joelhos diante deles.

Então perguntei: E os católicos, por lá devem ter muitos, eles também adoram deuses relacionados às riquezas? Eu sou suspeito para dizer, falou abaixando a cabeça. Não me confesso católico, mas, se Martinho Lutero voltasse, seria imediatamente mandado vivo para a fogueira, tamanho é o empenho em vender objetos santificados pelas redes de televisão da igreja.

Dito isso, danou a chorar como criança. Chorou um vale de lágrimas. Depois de algum tempo em silêncio, tomamos de um livro de Albert Camus e conversamos por um longo tempo sobre o absurdismo.

segunda-feira, 30 de agosto de 2021

O CASAMENTO DA BRUNILDA

- Mãe, estou tão feliz!!

Mais que feliz, a Brunilda estava radiante! Novo Sarandi é uma cidade pacata, onde todos se conhecem e não dá para fazer um evento sem que a notícia se espalhe.

- A Vó, mãe, ela vai na festa?

- Não, filha, não fica bem, ela nem fala mais. Melhor ela ficar em casa, já contratei uma cuidadora.

Brunilda olhou-se no espelho e viu a Lua, e o mel escorrendo. Tão distante a Lua quanto o tempo que haveria de durar a paixão; tão doce o mel quanto o amor que espreme os corpos e retorce o favo, colhe o doce sabor em cada gota nas entranhas do bem querer. Já colhera o fruto, é verdade! Contratado em Cartório. Não fosse a pandemia e o padre já os teria abençoado há tempos! Mas, como, se não for acompanhado de uma grande festa? Agora, sim, diante de Deus e dos homens, o mesmo Deus que não faz acepção de pessoas e homens que se acham melhores que os outros, Brunilda irá se casar!

- Que bom que o tio chegou. Uma viagem tão longa, pensei que talvez não viesse.

A distância e o parentesco têm quase a mesma medida. Laços que amarram o tempo, nós que seguram sentimentos de pertencimento. A Vó que agora já não fala palavra, gerou o tio, as tias e o pai, é a mesma que, ainda garota, viera do Sul em aventuras da família para recomeçar a vida por esse descampado. Se ela falasse, o que diria?

- Olha, mãe! - Brunilda tirara os olhos do espelho para pô-los através da janela. – Um bem-te-vi, está fazendo seu ninho onde até ontem uma pomba rola chocava seus filhotes...

O seu ninho haveria de ser original. Nada de bem-te-vis, nem de chupins. Os filhotes haverão de ser chocados em brumas de Avalon.

- O Padre vai nos abençoar, mas ele não há de mandar na minha casa. É bom ser mãe?

A mãe passava as mãos pelos cabelos da filha, puxando um cacho por sobre o ombro. A mão espalmada acolhia a mecha de loiros cheia de sonhos de meninice. Um filme se lhe passa na memória. É bom ser mãe? Fechou a mão e virou-se para a janela, queira esmurrar parte do passado. A filha vai se casar.

- Sim, filha, é bom...

- A Vó não vai na festa, já não pode mais. A tia que mora ali do outro lado da rua, a irmã da Vó, ela vai?

- Não filha, ela também já está muito velha, não a convidei, ela anda bengala, não ia ficar bem lá na festa.

- Quando meus filhos se casarem, vai ser feio se eles te convidarem para a festa?

quinta-feira, 26 de agosto de 2021

A DANÇA

             Genilson chegou ansioso, passou os olhos aflitos pelo ambiente na esperança de não ver conhecidos por ali. Entre as mesas, desalinhadas, atravessou risos e conversas soltas, copos sendo cheios e esvaziados, um jovem casal trocava um beijo rápido, a moça da outra mesa acariciava a mão do namorado e olhares cúmplices indicavam que algo poderia acontecer mais tarde. Um jovem tímido corou as bochechas quando a garota disse que queria namorar.

No balcão, pessoas avulsas davam conta da solidão bebendo cerveja. Um verdadeiro quebra-cabeça onde peças poderiam se encaixar perfeitamente não fossem os muros construídos entre os jogadores.

- Uma cerveja, por favor....  Posso sentar?

- Não sei, pergunte para o dono do bar...

- Bem, acho que isto significa que posso, você é muito gentil, obrigado.

- Se pensa que vamos conversar, esquece. Só quero ficar aqui, calada.

- Com pouca espuma. Obrigado. Não quero. Se quisesse conversar estava lá na mesa com os amigos. Não quero os amigos. Só quero uma cerveja...

- Aai, disse a moça, atropelada por um cliente. Virou rapidamente a cabeça, palavrão escorrendo pelo beiço, recolhido rapidamente pela língua e devidamente engolido diante dos lindos olhos azuis que se desculpavam enquanto o corpo balançava alcoolizado.

- Desculpe..., eu... só quero mais uma... uma... cerveja.

- Eu quero mais do que uma cerveja...

- Achou... o cara certo.... Foi tudo o que conseguiu dizer antes de cair completamente desacordado.

Genilson tomou a cerveja totalmente alheio. Eu sei o que você sente, disse olhando para dentro do copo como se conversasse com a cerveja.

- Falou comigo? Perguntou a moça voltando para a banqueta ao balcão, passando as mãos pelos cabelos e ajeitando a blusa. Antes de sentar puxou a mini-saia para baixo, esfregou as mãos uma contra a outra e quase sorriu.

- Não, não falei contigo. Você não quer conversar. Só disse que sei, também perdi meu sorriso para um olhar brilhante.

- Eu ia me vingar. Tomara que não tenha morrido.

O bar, que assumira um silêncio sepulcral, voltara a vida. Não se faz velório no bar.

- Você a amava?

Genilson rodou o copo e o líquido dentro fez ondas que iam e voltavam acompanhando as bordas. Na parede, atrás do balcão, acima da portinhola que dava acesso à cozinha, uma pintura mostrava um casal dançando ao som de uma banda de música.

- Eu não sei dançar.

- Não precisa, eu dançava muito bem. Não sei fazer ondas.

Um carro do Conselho Tutelar encostou no meio fio. Uma senhora uniformizada entrou no bar acompanhada de dois policiais. Duas garotas tentaram se esconder no banheiro, foram levadas à força.

- Também fui presa, três vezes, disse a moça, mas onde deviam fiscalizar nunca foram.

- Eles pagam bem?

- Sim.

- Então é melhor eu me conformar!

- Como é o nome dela?

- Salete.

- Eu já vou, talvez eu a encontre no meu trabalho.

quinta-feira, 19 de agosto de 2021

AVES DE MAU AGOURO

             Às nove horas da manhã ainda tem sombra na piscina, no quinto andar do hotel. Uma espécie de mezanino onde fica o bar, impede que os raios solares chegarem até a água que permanece morna, aquecida pelas muitas tardes de sol que antecederam esse dia em que Joaquim parece ter percebido aquele sentimento de extrema solidão. Alguém precisa filtrar essa água, pensou.

Por cima dos telhados vê a rua, lá embaixo, onde pessoas tristes andam em frente das lojas. Coloca os dedos polegar e indicador diante dos olhos para medir o tamanho dos transeuntes, três milímetros, calculou. Um carro estacionado mede um pouco mais, talvez meio centímetro. A loja, só o térreo, um centímetro. Ergue os olhos uns dois centímetros e encontra um prédio de apartamentos, há duas quadras de distância. Contou as janelas, doze andares, dois centímetros. Se pudesse ver as pessoas dentro dele, não teriam sequer um milímetro. Não significam nada!

Às nove e quinze chegou um moço vestindo uniforme de trabalho, disse bom dia, abriu uma tampa metálica num canto e desceu por uma escada de ferros fixos numa parede. Desapareceu por baixo do piso. Algum tempo depois subiu de volta. Roberto, disse e seguiu seu caminho desaparecendo numa porta atrás. Joaquim perguntou seu nome, mas não lhe pediu nada mais. Só o nome. Antes que desaparecesse pela porta, mediu-lhe a altura, oito centímetros. Este piso está sujo. Um urubu aterrissou próximo da piscina, bicou as penas das costas, abriu e fechou as asas, aproximou da borda e tomou da água. Andou um pouco sobre o piso sacudindo o corpo e arrepiando as penas, voou por cima do cercado e desapareceu.

Ruídos da cidade sobem até o quinto andar do hotel. Joaquim está em pé. Ao lado da piscina o esperavam quatro mesas, cada uma rodeada por quatro cadeira. Espreguiçadeiras, também quatro, se ofereciam ao seu descanso. Joaquim tem quatro filhos. Teve quatro casamentos. Acumulou quatro milhões em patrimônio. Roberto foi embora, desapareceu por detrás da porta. Não tem ninguém na piscina. Só um quadrado. O horizonte não pode ser visto, só os prédios ao redor do hotel, prédios de apartamentos, todos altos, doze andares, ou mais. Não se poder ver ninguém dentro deles. Assim, vazios, não tem nenhum valor. A cidade é muito barulhenta.

Pronto Seo Joaquim, os sanitários estão limpos e desinfetados! Roberto? Então ele estava ali? O tempo todo? Ele viu o urubu? Sim Seo Joaquim, eles sempre vêm. Dizem que são agourentos. Tomam da água da piscina e vão embora. Para a liberdade. Não fazem mal a ninguém. Roberto? Não estava mais ali, ninguém está, todos desapareceram. Pela porta? O barulho da cidade aumentou! O que querem as pessoas como todo esse barulho? Se é o meu dinheiro, podem pegar, quatro milhões em patrimônio. A água da piscina está limpa, num tom azulado refletindo o céu absolutamente limpo. Joaquim aproxima-se da borda, abre os braços como se abrisse as asas. Sacudiu o corpo, então abaixou-se bebeu um pouco da água. Andou pela borda da piscina, daí subiu sobre a cerca e voou. Dizem que os urubus são agourentos. Eles não fazem mal a ninguém.

sexta-feira, 13 de agosto de 2021

BILHETE PARA A SANTINHA

             - Se tem uma coisa que essa pandemia fez bem, disse meu amigo Joaquim, é que acabou com as novenas! Joaquim não era jovem e isso se percebe claramente pelo nome. Não só o nome, Joaquim tinha belos cabelos brancos, ainda fartos apesar da idade em torno de setenta anos. Diariamente frequenta a academia ao ar livre instalada pela prefeitura na praça central do distrito, logo depois vai ao bar do Zé para umas cervejas com os amigos, eu, eventualmente, um deles.

-Agora está uma paz!, disse brindando com um copo de Antárctica e pediu que todos brindassem com ele, afinal, ninguém mais aguentava aquela rezação cada vez que aparecia uma data religiosa importante. E quando não era importante inventava uma, que dia de santo é todo dia, se fosse feriado, ninguém mais trabalhava. E ainda tem a capelinha que vai de casa em casa todo mês. Agora a Clarinda só reza o terço quando ela vem, depois é a televisão, todos os dias, mas daí eu não ligo, tô aqui tomando minha Antárctica.

Entre o terço da Clarinda, o programa do Datena e a missa da TV Aparecida, Seo Joaquim toma bem umas quatro garrafas, sem contar o que bebem os amigos. Quando casei na Igreja, falou entre a terceira e a quarta garrafa, achei bonito aquele lugar, as coisas que o padre falou, todo mundo sabia responder quando o padre rezava e tal. Depois continuei indo, decorei tudinho da missa, todas as falas, dá até para prever o que o padre vai dizer no sermão, é só prestar atenção nas leituras. Tem uma hora bem importante que o padre pede dinheiro para a igreja e no fim da missa a gente sai e só lembra de tudo de novo no outro domingo quando vai lá na igreja outra vez. Agora não vou mais.

Quando o Zé do bar veio com a quarta garrafa de Antárctica, Joaquim contou a história da santinha, a da capelinha que vai todos os meses na casa deles. É uma imagem de santa, disse. Feita de argila ou cerâmica, não sei, ela é trazida por alguém que tinha ela em casa e quando chega tem lá as rezas que se deve fazer. Tudo bem. Rezar é até bom. Mas da última vez que rezei com Clarinda, aconteceu um fato que daí em diante eu não quis mais rezar para a santinha da capelinha.

Quem trouxe a capelinha foi dona Quitéria, continuou. O marido dela faz já muitos anos que deixou de ser católico e o filho foi convertido para uma dessas igrejas de crente e acabou que levou a irmã para lá também. Só dona Quitéria que continua firme, uma verdadeira Beata. Mas, foi justo com a santinha que dona Quitéria trouxe que veio o acontecido que me deixou intrigado. Até pensei em virar crente, só que vim pro Bar do Zé. Aqui posso confessar tomando uma Antárctica.

A capelinha da santa veio normal, teve as rezas e tudo, eu que acendi as velas para a oração. No outro dia rezamos de novo para levar a capelinha da santa para a casa do João, o da oficina. Quando peguei a capelinha, que era eu que ia levar, vi um bilhete bem colado atrás que dizia: “Antes de levar, deve ser lido o texto bíblico contido em Êxodo 20:4 e depois Deuteronômio 5:8 e 9”.

terça-feira, 10 de agosto de 2021

AS FILHAS DOS MILITARES NUNCA SE CASAM

             Há muitos anos atrás, num pobre e vasto país da região Sul das Américas, país este, diga-se de passagem, que havia participado de uma grande guerra promovida por interesses de outro país, europeu, que desconfiava que o comércio na região seria dificultado pelo grande desenvolvimento econômico de um terceiro país sul-americano, resolveu-se dar mais garantias para seus militares para atrair mais jovens à carreira.  Entre as muitas propostas de incentivo à caserna, decidiu-se que além das ex-mulheres, também as filhas e até irmãs solteiras teriam direito a uma pensão vitalícia, caso o feliz guerreiro viesse, infelizmente, perder sua vida no serviço à pátria.

Houve mesmo um grande interesse pela carreira militar. De olho nas pensões, nas guerras e na virilidade desses valorosos servidores da pátria, também cresceu enormemente o interesse das moçoilas casadoiras. Na rua do Ouvidor ouvia-se muito falar em como seria bom casar-se com um soldado. Muito mesmo se dizia das benzedeiras e ciganas que receitavam esse ou aquele chá de benzimento ou faziam tal ou qual previsão da carreira militar do futuro marido. Grande sucesso fez Dona Zaldina dos Prazeres que montou sua tenda na Praça do General, onde benzia as pretendentes para que seus filhos fossem a maioria do sexo feminino, elas serão seu melhor investimento, dizia enquanto cobrava alto valor pelo vaticínio.

Desde que o projeto da pensão fora aprovado e as filhas dos militares também passaram a receber pensão vitalícia, os atos fúnebres se tornaram eventos sociais importantes, com fotos nas capas dos principais jornais e comentários em todos os salões. Como se sabe, quando um assunto ganha as mídias, logo aparecem especialistas. Muitas pesquisas foram feitas e em pouco tempo se percebeu que, caso a guerra prosseguisse por um longo período, se teria, naquele pobre país, uma nova e importante classe social em ascensão, com remuneração garantida e vitalícia!

Jusciliano Pereira, neto de portugueses vindo para a Colônia ainda jovem, viu esta se tornar um país independente. Enquanto ainda se debatia com os hormônios da puberdade, tentou inutilmente ascender às forças da Marinha, buscou as Armadas sem sucesso, mas firmou-se como chefe de gabinete do Senador Adroaldo Jarride. Queria o cidadão Jusciliano dar segurança à sua família. Sabia ele que as mulheres pouco espaço tinham para fazerem carreira sem depender de um casamento e, mesmo este, se não fosse com um militar, dependeria do marido vivo e, marido vivo, raramente representava o bem-estar para as mulheres naquele pobre país de memória colonial. Já sei, disse um dia, minhas filhas serão mulheres de militares, custe o que custar! Tem muitas vantagens, dizia, além de eles irem para a guerra deixando-as mais livres, se morrerem até mesmo as filhas estarão seguras para toda a vida.

Jusciliano foi abençoado com três filhos, um belo garoto que aos dezoito anos ingressou para a Marinha. Josephina, que se casou aos dezessete com o sargento Mathias e teve duas lindas filhas, orgulho do Vô. Cecília, coitada, formou-se professora e casou com o Manoel, bisneto de portugueses que tinha uma padaria na rua Quinze de Março. Por esse tempo, o mundo só falava da Grande Guerra Mundial, Sargento Mathias estava preparado para ir, mas seu país não foi lutar pelos ideais de Liberdade, pelo quê Jusciliano lamentou profundamente.

O tempo passou e, quando finalmente eclodiu a Segunda Grande Guerra e o exército convocou os militares para darem a vida na Itália, as netas de Jusciliano, filhas do sargento Mathias já estavam adultas. A mais velha realizara o sonho do avô, casando com o jovem soldado Araujo, recentemente convocado para a Guerra. Mas Adriane, já balzaquiana, para desgosto do pai e também do avô Jusciliano, enamorara-se de um jovem artista, queria casar-se com ele, mas se casasse perderia a pensão iminente, já que seu pai, o agora Tenente Mathias, acabara de embarcar para a Itália onde estaria na frente de combate, muito próximo da morte heroica e da sua pensão vitalícia.

- Então, exclamava tristemente, eu nunca vou poder me casar?

terça-feira, 3 de agosto de 2021

LEITURA BÍBLICA

             Estavam sentados num banco da praça conversando quando se aproximou aquele homem de terno e gravata, camisa muito branca e sapatos lustrados, o cabelo despenteado como se o vento tivesse mexido neles, vento refrescante, ótimo para aquela tarde ensolarada de novembro, ou talvez tenha passado a mão nos cabelos, deixando-os desalinhados. Trazia, também, uma grossa bíblia debaixo do braço.

- Paz do Senhor, disse o distinto e entregou um papel que, explicou, seria um guia para a leitura anual da bíblia. Basta seguir a tabela, ler diariamente e, exatamente no dia 31 de dezembro você vai terminar a leitura completa de todos os livros que compõe o compêndio bíblico.

- Bem na hora, disse Joaquim de oliveira, bem na hora, repetiu. Sente-se, convidou. Meu amigo Manuel e eu falávamos exatamente sobre isso. Eu mesmo nunca li a bíblia, mas meu amigo tentou várias vezes, mas para sempre no livro de Crônicas. Aquela sequência de nomes embaralha as ideias. Ninguém precisa ler aquilo!

O pastor animou-se, aceitou o convite feito pelo Joaquim e sentou-se no banco em frente dos amigos, não sem antes tirar do bolso um lenço, com o qual forrou o banco da praça para não sujar a calça do terno que usava, afrouxou o nó da gravata que lhe apertava o pescoço, pôs a bíblia sobre uma das pernas enquanto ouvia atentamente.

- Você deveria começar pelo Novo Testamento, disse calmamente. O Novo Testamento cancelou o antigo, e fez vária citações contidas nas cartas de Paulo aos coríntios, gálatas, etc., etc.

Joaquim e Manuel entreolharam-se espantados. Seus pais vieram juntos de Portugal, eram muito amigos desde os tempos da imigração. Católicos muito praticantes sempre tinham em casa o livro da Liturgia Diária onde diariamente se lia um texto do Antigo Testamento e logo outro do Novo. Como podia ser que o Antigo estava cancelado e ninguém ainda havia percebido?

            - Eu sou pastor, disse o distinto homem de terno e gravata. Então pegou sua bíblia e leu em 2 Coríntios 3.14: “Mas os seus sentidos foram endurecidos. Porque até hoje, o mesmo véu está por se levantar no Antigo Testamento, o qual foi por Cristo Abolido”.

Joaquim e Manoel entreolharam-se, mais uma vez, espantados. Seria o caso de os católicos nunca terem lido esse texto? Aí Joaquim resolveu copiar São Tomé e quis ver para crer. Tomou a bíblia do distinto e foi ver se estava mesmo escrito o que o sujeito lera. Estava! Enquanto pensava, foi folheando o livro de trás para frente lendo cá uma frase, acolá outra, até que leu: “Como em todas as igrejas dos santos, conservem-se as mulheres caladas nas igrejas, porque não lhes é permitido falar...”.  O senhor pode me explicar está parte? Arguiu. É do novo testamento, não é?

- É, disse o homem de sapatos lustrados e camisa branca. Mas, temos que ter cuidado ao ler a bíblia. Este texto é da Carta de Paulo aos Coríntios e foi escrita com orientações específicas para o povo daquela época, mediante os costumes deles. Depois de se identificar como pastor, provou seu conhecimento bíblico com outras epístolas do Apóstolo com orientações específicas aos crentes de então.

Manuel, que até então permanecera calado, pediu a bíblia do pastor e, calado mesmo começou arrancar todas as páginas do Antigo Testamento jogando-as fora. O pastor protestou veementemente, mesmo assim, o filho de portugueses extremamente católicos continuou arrancando folhas do livro do crente, jogando fora todas as epístolas de Paulo, Pedro, João e Judas, ficando a bíblia somente com os Evangelhos e o Apocalipse.

- Agora está fácil, disse Manuel, ainda este ano leio a bíblia toda!

quinta-feira, 1 de julho de 2021

NUNCA MAIS VOU SUBESTIMAR A TERCEIRA IDADE!

             Terceira idade, como se sabe, é aquele tempo que as pessoas aproveitam para curtir o descanso por ter trabalhado muito durante a juventude e a idade adulta, a tal da segunda idade. A primeira idade, lógico é a infância onde não se trabalha. Antes de prosseguir, também lógico, devo constatar que não é a maioria dos que estão na terceira idade os que usufruem do descanso laboral, também não são todos que trabalham na juventude e idade adulta, já que grande parte são adeptos da teoria nem, nem, nem: Nem trabalha, Nem estuda, Nem ajuda em casa. Ainda tem uma galerinha que trabalha uma barbaridade na infância!

Em meio a todas essas exceções, sou um dos felizardos idosos que, de alguma maneira, pode usufruir da aposentadoria, mas em vez de descansar anda fazendo coisas que deveria ter feito na juventude e até na infância e não fez. De certa maneira, crianças deveriam brincar com crianças, jovens gastar suas energias com esportes mais radicais, tipo andar de skate, adultos trabalhar para se sustentar e idosos viver da aposentadoria num ritmo mais lento até que a morte o separe.

Cada um que responda por si, eu, de minha parte, acho que idosos devem usufruir de todos os direitos pelos quais lutaram durante todos os anos de vida. Não tenho nenhuma dificuldade de estacionar naqueles locais reservados para idosos, assim também sou um frequentador assíduo das filas preferenciais e, se algum comércio resolver dar desconto especial para a melhor idade, lá vai a identidade junto com o dinheiro no caixa.

De vez em quando faço alguma coisa que para mim é normal, mas que parece meio fora da caixinha. Normal para mim! Tenho uma slackline, que vez ou outra amarro entre duas árvores para “andar na corda bamba”. A internet tem umas loucuras que os jovens amam... deixa prá lá. Tenho uma Bike que gosto de pedalar feito alguém que ainda não tem direito ao estacionamento preferencial, e um skate...

Para o skate tenho que dar um parágrafo especial nesta crônica. Há uns seis ou oito anos atrás, meu filho adolescente me ensinou ‘pedalar’ no skate e nos patins. Isso foi lá no sítio, longe de qualquer plateia. Aprendi. E gostei! Pela internet comprei um Skate mini-longe, e fui treinar nas varandas de casa, depois nos parques e até nas ruas. Agora, oito anos depois, já me arrisco andar em praças públicas sem correr risco de dar vexame. Ontem encontrei uma galerinha, dessas que ainda estão na idade de brincar com outras crianças, e eles se empolgaram com meu skate. Enquanto uns empurravam os outros fui fazer umas barras, que me lembram os tempos de Colégio Agrícola, quando erguia o corpo para depois girar por cima da barra.

Um dos meninos que ali estava, talvez uns onze ou doze anos, me olhou espantado e sorridente, não se conteve e disse: Nunca mais vou subestimar a terceira idade! E pediu para ensina-lo como se faz.

segunda-feira, 28 de junho de 2021

O OURO VERDE E AS ESTATÍSTICAS DO GEBORENHAUS

             José Carlos Geborenhaus é um sujeito pacato que vive em uma localidade pequena do Paraná, na fronteira com o Paraguai, onde trabalha como cartorário. Parece que tem uma praga nesta região, ele me disse quando conversávamos na feira livre em Marechal Cândido Rondon, quando lhe entreguei um panfleto do meu Poesia Verde. Os poetas entendem melhor as coisas, disse gesticulando ao ar como a querer pegar algo até então invisível, pelo menos aos meus olhos. Só então deu mesmo atenção ao panfleto: Verde! É isso, tem uma praga e ela é verde, os agricultores chamam de Ouro Verde.

Cartorário de longa data, há pelo menos trinta anos, Geborenhaus é um daqueles sujeitos que busca por respostas o tempo todo. À quais perguntas? Não importa! Seus pensamentos estão buscando informações que ‘talvez possam ser úteis’. Assim, passara a dedicar tempo e esforço em pesquisar nos arquivos cartoriais de sua pequena cidade sobre o porquê de haver cada vez menos registros de nascimentos e casamentos enquanto que o de propriedades aumentava ‘aproximadamente’ na mesma proporção. Mais propriedades para menos proprietários!

Uma conversa dessas pede mais tempo, então saímos do meio daquele tumulto de gente que rodeava as bancas da feira e fomos para o outro lado da rua onde tem um barzinho e ali ficamos vendo o movimento de longe, enquanto comíamos pastel e meu amigo tomava uma cerveja, não me arrisquei, na volta teria que passar pelo posto da polícia federal na rodovia entre Marechal Rondon e Quatro Pontes. Pedi um café com leite que bebi em goles pequenos, estava bem quente, ótimo para uma tarde fria de inverno.

Meu novo amigo mal tocou nos pasteis, bebeu cerveja e falou na mesma empolgação com que trabalhava no cartório buscando informações para suas perguntas. Não citava números específicos, não me interessa quanto, mas por quê! Franziu a testa, olhou para o movimento da feira do outro lado da rua, balançou a cabeça de um lado para o outro informando um ‘não’ dos seus pensamentos, tomou o pastel, do qual comeu a primeira de duas mordidas que daria, tomou mais um bom gole de cerveja, pôs o copo sobre a mesa e, com o dedo indicador diretamente ao meu rosto disse: Esses caras estão virando relíquias! É isso! Esse verde das verduras e legumes não é o ouro! Então calou-se, abaixou a mão que me indicava, mas continuou com o dedo indicando um lugar qualquer no chão, aleatoriamente conforme respirava. Ficou alguns segundos em silêncio olhando para o infinito atrás de mim, encheu o copo de cerveja que tomou de um gole só, encheu outra vez, ergueu o copo em minha direção com movimentos mais expansivos que fizeram a cerveja derramar abundantemente por sobre a mesa, tomou o que restou e pôs o copo outra vez na mesa, sobre a qual apoiou as duas mãos para se erguer. Em pé, olhou em volta e, com os braços abertos finalmente revelou seu surpreendente entendimento acerca dos números cartoriais:

- Commodities, isso, são as commodities!


terça-feira, 22 de junho de 2021

UMA BOHEMIA NO FRIO

- Quanto você ganha para fazer propaganda de cerveja? Foi assim que eu descobri um leitor assíduo das minhas publicações. Até essa pergunta chegar ao meu perfil nas redes sociais nunca tinha ouvido falar desse senhor que, lendo meus textos ficara intrigado sobre a quantidade de vezes, aliás nem tantas! que eu cito essa marca de cerveja. Certo é que não ganho nada, aliás nunca tive qualquer contato com o fabricante da bebida além de remeter, indiretamente, certo valor em lucro toda vez que compro uma lata ou garrafa no supermercado.

Não posso negar que bohemia é uma das cervejas que eu gosto de beber, mas quando me refiro à essa marca nos meus textos isso é uma metáfora para dizer que uma cerveja na beira da piscina com uma companhia agradável é muito melhor do que ficar num escritório sonhando com o aumento de salário. Agora mesmo, exatamente em meu escritório, à uma temperatura de 13º centígrados, me permito uma bohemia e com certeza o significado da palavra que em bom português é quase um delírio num sistema social que discrimina quem busca liberdade, me traz exatamente esse desejo de ‘deixar prá lá’ os conceitos sociais para viver a liberdade que, no fim das contas, é próprio da natureza. Respeitar a natureza é essencialmente desrespeitar as razões do ser humano.

E eu, decididamente não tenho razão. Quando tentei ser racional fiz tantas bobagens que, melhor seria ter bebido uma bohemia e relaxado um pouco e deixado a vida me levar com mais leveza e cordialidade. São as regras! Justamente elas, que tornam a vida muito dura e, ainda que feitas para organizar a sociedade, acabam tirando a essência da vida. Desde a mais tenra idade me debati entre o rigor das regras e o desejo infinito de romper com elas.

Disse lá em cima, que era um senhor que havia me questionado sobre a publicidade da cerveja. Descobri-o depois de uma breve troca de mensagens. Me disse ele que não deveria eu fazer propaganda de bebida alcoólica. E ele está certo, se bem que muitas vezes nos valemos de alguma droga para fugir da realidade em que nos metemos enquanto seres sociais. Eu não tenho costume de beber bebida destilada, também não fumo e nem uso outras drogas viciantes. Um vinho, talvez, sim Seco ou Demi seco. Quase convenci meu leitor a experimentar uma cervejinha, Bohemia, claro, mesmo ele tendo se confessado membro de um dessas denominações assumidamente abstêmica. Que é que eu posso fazer, ele disse, talvez eu deva reler aquela postagem sobre o ‘não tempo’. Lá, continuou, você disse que: “não havendo o tempo, tudo que se faz não tem consequências. Vou consultar e meu pastor, talvez ele concorde, quem sabe até toma uma?

sexta-feira, 18 de junho de 2021

 

A MÚSICA QUE EU MAIS GOSTO

- Vou aumentar o volume, eu disse, esta é uma das músicas que eu mais gosto!

Minha mãe pôs a mão no ouvido, em forma de concha, para ouvir melhor. Aumentei o volume no máximo e a Rádio Ambiente Suprema me proporcionou um dos momentos mais emocionantes da minha vida! Aos poucos, a mão que ainda tem um braço com mobilidade suficiente para alcançar a cabeça com relativa facilidade, foi deixando o ouvido e indo para a mesa onde acompanhava a música com batidas suaves ao ritmo de ‘O Milionário’, os Incríveis. Seus olhos que, há mais de 31.700 dias apreciam este mundo, me olhavam e voltavam para a mesa como a ver a música e me dizer, não sei muito bem o que ela quer dizer, mas sei perfeitamente o que tu queres!

Uma música. Tem uma música que, se ouço, logo me volto para a janela do quarto da casa de meus pais onde na adolescência me debruçava olhando perdidamente as luzes da vila onde talvez estivesse a garota daqueles meus sonhos de juventude. Tem música que me lembra que ainda posso amar como amava quando ia aos bailes e encontrava a bem-amada e dançava com ela a última música só para poder ficar mais um tempo e ir com ela até o carro onde seus pais a esperavam ansiosos e confiantes e desconfiados ao mesmo tempo. Uma música me lembra que posso ter sentimentos, não importa a idade, ainda posso amar mais e até melhor do que na juventude quando a ouvia animado pelos hormônios da testosterona. Uma música hoje me mostrou que posso amar mais do que jamais amei na vida: O milionário, uma mão em forma de concha ao ouvido e depois batendo na mesa e um olhar me dizendo que sabe mais do que aquela música possa expressar.

Quando era adolescente aprendi a tocar Noite feliz no órgão do colégio interno onde estudava. Depois disso não aprendi a tocar mais nada, mas ouvi muitas músicas daquelas que se pode dizer que marcaram minha vida, tanto na juventude quanto na idade adulta quando ouvia Beatles, Pink Floyd, Queen, Credence, Bonnie Tyler, Suzi Quatro, Martinho da Vila, Chico Buarque, tantos outros e, claro Os Incríveis e sua belíssima música O Milionário. Saí da casa de maus pais aos treze anos de idade para nunca mais voltar para morar com eles. Quarenta e nove anos depois descarrego minha mudança na casa da minha mãe para cuida-la. Hoje, quando estávamos à mesa, liguei o rádio Ambiente Suprema, o som do seu melhor ambiente, quando tocou O Milionário, minha mãe foi tão generosa comigo permitindo que eu percebesse o quanto eu a amo.

De certa forma, o Milionário sou eu!


quarta-feira, 16 de junho de 2021

CRÔNICAS NOS TEMPOS DA PANDEMIA

Desculpe aí o trocadilho com o livro do Gabo, Gabriel Garcia Marques, mas crônicas são também um tipo de amor que sofre nestes tempos bicudos onde as pessoas só se encontram às escondidas e, se assim não for, não se veem, pois as máscaras escondem a beleza que sobra no rosto, já que o que se quer ver de verdade só anda livremente nas praias de Santa Helena que, nestes tempos de Covid são um risco maior do que as aventureiras descobertas da nudez, por si só já tão perigosas.

- Você bem que podia escrever uma crônica para mim, disse a garota, uns vinte anos, puxando a máscara para mostrar o belo rosto e deu uma piscada de olho, daquelas que faz qualquer um dar o que tem de melhor por um desejo imaginário que salta do cérebro sem nenhum pudor.

- Uma crônica? Perguntei por perguntar, talvez para ganhar algum tempo, respirar. Eu mal conheço você! Se me deres um bom motivo... Que poderia eu escrever para ti?

- Uma declaração de amor, você sabe como fazer, uma declaração de amor, repetiu. Eu preciso, é muito importante. Você é escritor e...

Uma declaração de amor. A garota quer uma declaração de amor. Um pedido desses deixa qualquer um confuso. Ela quer que eu faça a ela uma declaração de amor, ou ela que apenas ter uma declaração de amor. Anotei seu telefone e prometi que lhe enviaria pelo WhatsApp. À noite, depois de um vinho e um filme romântico da Netflix achei que podia finalmente escrever-lhe um texto que a fizesse se sentir amada, ainda que por uma pura fantasia.

Já não ando escrevendo há algum tempo, então recorri a Vinicius e achei a melhor declaração de amor no Soneto de fidelidade: De tudo ao meu amor serei atento... Não poderia reproduzir um Soneto do Vinicius, isso aliás nem seria uma crônica, mas foi bastante inspirador. Daí escrevi as primeiras linhas. Confesso que me entreguei de tal forma à beleza daquela garota que fiz-lhe minha melhor declaração, exaltando sua formosura tal qual jamais vista nem mesmo nos mais badalados concursos de beleza, a perfeição do rosto, obra perfeita do Criador, os cabelos pretos encobrindo os ombros em ondas tão belas quanto as mais lindas ondas do mar na praia de Copacabana, perdi-me diante dos seus olhos verdes e morri de amor em seus lábios para então aventurar-me em suas curvas suaves até o infinito do prazer...

- Você está louco? Eu só queria fazer uma declaração de amor para meu namorado! Se ele ver isso ele te mata!

sexta-feira, 11 de junho de 2021

PRIMEIRO VOU VER O WHATTSAPP

- A gente podia fazer uma viagem para comemorar o aniversário de casamento, disse a esposa esperançosa por mais umas férias no Nordeste. E o mar de Sergipe não deixa nada a desejar a qualquer praia, menos as da Bahia, de Rio Grande do Norte, Ceará... enfim, que importam os outros lugares quando se escolheu ir para João Pessoa? E lá tem o Mangai! É caro, e daí? o que vale é sentar-se a qualquer hora e fazer a refeição que tiver vontade de fazer. Assim, se pode tomar café reforçado na pousada às nove da manhã e almoçar no Mangai às quatro da tarde gastando o valor do almoço e da janta, mas não precisa jantar já que o almoço foi ‘isso’ da hora da janta, depois um passeio na orla e daí os preparativos para as comemorações do aniversário de casamento, na pousada, claro, com direito a Champagne e guloseimas! Sim. Guloseimas, até as... deixa prá lá...

Os planos da viagem estavam detalhados, e ainda faltavam quase dois meses para o embarque. Tudo acertado, a pousada reservada e as passagens compradas, só faltava cancelar os próximos cinquenta e quatro dias. Não houve outro recurso senão vive-los todos, ainda que essa tarefa, de viver os dias da espera, fosse por deveras árdua e cheia de ansiedade. Quem sabe o que pode acontecer para estragar tudo?

Dia sim, outro também, Jaqueline, a esposa, via e revia cada detalhe da viagem. A localização da pousada, as praias mais próximas, possíveis passeios turísticos, restaurantes: Mangai! Uma amiga tinha passado férias em João Pessoa e recomendara pelo menos uma refeição lá. Uma delícia! Tem tantos pratos que é impossível servir de todos eles numa única refeição! Tem até buchada de bode! Você não pode perder isso!

Aurélio, o marido, estava animado com os planos da esposa e resolvera fazer seus próprios planos. Em segredo pensava e repensava cada detalhe das surpresas que faria para encantar e surpreender Jaqueline. Ela seria tratada como rainha! Encomendaria flores que seriam entregues pela equipe da pousada no primeiro dia após o jantar. No dia seguinte uma garrafa de vinho e alguns quitutes para o acompanhamento. Champanhe, claro para o dia de sábado. Bombons e outras guloseimas sempre presente e carinho, muito carinho, beijos, abraços e, e...

E, o dia chegou. Nem tudo foi perfeito. Uma discussão que poderia ter sido só uma bobagem qualquer se transformara num bate-boca daqueles que dão a certeza absoluta da separação iminente. Não se separa antes de uma viagem para João Pessoa! Nas próximas duas semanas não se falou mais nisso. Embarcaram para a viagem balançando entre a empolgação e os remorsos da fatídica discussão.  Logo que o avião pousou no destino a empolgação parece ter vencido a disputa e os olhos se perdiam para longe do táxi que os levava do aeroporto até a pousada. O mar! Praia! A pousada era lindíssima e o quarto muito limpo e espaçoso, pronto para a reprise da Lua de Mel.

E Lua de Mel tem que ter muito carinho, amor e sexo, lógico! Jaqueline e Aurélio fizeram quase tudo. Quase! Um dia de praia, o passeio vespertino na Orla, umas comprinhas para levar de lembrança, a janta no restaurante e a volta para o quarto da pousada. Nem deu tempo de encomendar as flores, nem fizeram falta tão ocupados estiveram durante o dia e depois do jantar, quando voltaram para o quarto era como se fosse mesmo a primeira noite de amor! Resolveram fazer um joguinho para passar um tempo. Enquanto jogavam iam diminuindo as roupas, o calor era intenso! O jogo acabou com Aurélio em pelo e Jaqueline fazendo cena para se livrar da lingerie que ainda lhe restava. A cama estava bem ali, e é para lá que se foram eufóricos. Quase não daria para continuar o relato, não fosse um pequeno detalhe: O telefone.

- Espera só um pouquinho que eu vou dar uma olhadinha no WhatsApp, pode?

sábado, 15 de maio de 2021

RODA POR AQUI UM CLIPE DA TINA TURNER

 

Acabei de ouvir um clipe da Tina Turner cantando The Best e fiquei com vontade de escrever qualquer coisa que me viesse à mente porque a Tina é um show e se você prestar atenção em como ela canta fica com vontade de fazer algo que seja tão envolvente quanto ela demonstra no palco com aquele vozeirão peculiar dela, sua dança, a cabeleira especialmente preparada para aquela artista e a paixão com que ela canta, encanta e envolve a plateia que sem descontar um sequer, gostaria de ser a Tina. Quem não?

Logo na sequência veio um clipe do Dire Straits, uma gravação de garagem que me pôs bem aqui no meu escritório, onde antigamente era exatamente a garagem do carro do meu pai. Não, o clipe não foi gravado aqui, só que eu pensei que muitos casos de sucesso começam assim, na garagem. Se eu quero ser um caso de sucesso? Claro, minha ‘garagem’, transformada em escritório, tem livros em abundância onde me deleito em leituras do Drummond, Vinicius, Garcia Marques, Lima Barreto, Fernando Sabino, Rubem Braga, Odila Lange, ... Acabei de encomendar dois livros do Ernst Hemingwai, no original em Inglês que é para melhorar meus estudos da língua.

Enquanto escrevo, volta o clipe da Tina Turner, agora em outro palco, espalhando seu vozeirão e esbanjando beleza em seu corpo negro num vestidinho branco, curto. A cantora tem aquela beleza negra que muitas brancas gostariam de ter, mas não conseguem, é própria da negritude. O clipe foi postado no facebook pela minha amiga Marina, negra também, dona dessa beleza incomparável. O treze de maio marca as comemorações relativas ao fim da escravidão no Brasil e eu fico pensando se não eram os ‘brancos’ os escravos dos preconceitos que ainda hoje escravizam mentes desde ingênuos idosos aculturados em tempos idos até brutamontes encastelados no palácio do planalto.

É bem possível que boa parte da nossa juventude não tenha a menor ideia de quem foi Tina Turner ou Dire Straits ou o que significou realmente o treze de maio. Perdidos entre o Sertanejo Universitário, as novelas da televisão, os programas do Faustão e o Big Brother fica difícil encontrar uma saída para o lado de fora da caverna. Volto meus olhos para o livro que me chegou há poucos dias: Contos completos de Lima Barreto. Por uma dessas coincidências da vida, o autor nasceu no dia 13 de maio, exatamente sete anos antes da Princesa Isabel assinar abolição da escravatura neste país. Autor de belíssimos contos e romances, o escritor, negro, só teve reconhecido seu talento muitos anos após a sua morte.

Roda aqui um clipe da Bonnie Tyler, Total Eclipse of the Heart. Hoje é sábado e eu vou tomar uma bohemia.

sexta-feira, 7 de maio de 2021

A RAINHA DA BOA VISTA

 


Acordo de manhã e a primeira coisa que faço é ir até o quarto da minha mãe para saber se ela acordou, se passou bem a noite e se precisa de ajuda para se vestir, daí vou até a cozinha preparar o chimarrão enquanto preparo o café da manhã. Algum tempo depois escuto o barulho da bengala contra o piso, então vou até a mesa e ajeito a cadeira onde minha progenitora senta-se com dificuldade sobre uma almofada, empurro a cadeira para que fique próximo da mesa e então tomamos chimarrão por uns trinta minutos, daí sirvo o café com leite, corto uma fatia de pão e me sento à mesa para o desjejum. Para completar, tiro da ‘saboneteira’ seis comprimidos que serão tomados para que a vida continue. Um para afinar o sangue, outros para hipertensão, pressão alta, asma e mais outro tomado anteriormente para proteger o estômago contra a agressão destes.

Hoje levei a Rainha da Boa Vista de 1.951 para uma consulta com a dermatologista. As notícias que me vieram do diagnóstico das manchas no rosto não foram boas! Escutei em silêncio, não tive coragem de antecipar qualquer preocupação, melhor esperar pelo resultado da biópsia que será feita depois de um tratamento alternativo. A médica disse carinhosamente: “Isso parece um cancerzinho”. Disse ‘cancerzinho’ como se dissesse ‘e´so uma gripezinha’! Minha mãe não ouviu, semana que vem tem agenda com um otorrinolaringologista para ver se melhora a audição usando aparelho nos ouvidos. A doutora estava com um barrigão enorme, logo entrará em licença maternidade, vai ser mãe, talvez daqui a uns sessenta anos será seu filho a leva-la para tratamentos de pele e outras doenças que aos oitenta e poucos anos vão transformando idosos em crianças outra vez.

As histórias se repetem. ‘Acho que já contei para você’, ela diz quando vai contar outra e outra e outra vez a mesma história já contada. E são muitas as histórias. Desde a viagem do Rio Grande do Sul para o Paraná que demorou catorze dias, até o isolamento social por quê está passando, tem uma vida de liderança na comunidade. Mas tem uma que eu não quero repetição. Quando eu nasci, minha mãe quase morreu, teve hemorragia e não tinha um hospital, sequer uma farmácia onde se socorer. O recurso veio de uma parteira que injetou um medicamento sem nenhuma prescrição médica e salvou-nos.

Em 1.951 uma garota de dezoito anos foi eleita a mais bela dentre todas as garotas da cidade da Boa Vista, no Rio Grande do Sul, tornando-se a Rainha da beleza! Hoje, aos 87 anos de idade, a minha Rainha continua bela e é com ela que homenageio as mães no seu dia.

sexta-feira, 30 de abril de 2021

COMO POSSO ME DEFINIR SE NÃO SEI QUEM SOU?


O mês de abril vai terminando e eu também. Um mês é só um mês e uma vida é só uma vida. Um marco temporal. Data marcada para o fim. Estatística: finda o quarto mês do ano; finda mais uma vida. Talvez eu viva além desse mês que matou a quatro centésima milésima vida pela COVID-19, talvez eu seja o próximo número, como posso me definir?

Agora vou tomar um vinho para celebrar que ainda estou vivo e o mês não acabou. O que é um mês em um bilhão de anos e o que sou eu em sete bilhões de pessoas? Para os matemáticos, eu sou matemático, um número que tende a zero. Eu sou exatamente 0,0000000001428571 da população mundial, um número completamente insignificante. Você também!! Se eu morrer, irão acrescentar + 1 na estatística e, pronto. Hoje é o último dia do mês de abril, talvez maio nem venha a existir!

Ando na rua e vejo somente números. Três clientes numa loja que deveria estar fechada para que eles não morram de Covid, cinco na farmácia comprando remédio para prevenir a gripe e dezenas no supermercado fazendo compras para alimentar os que continuam vivos. O comércio garante o cumprimento das normas de higiene e distanciamento e até a limitação do número de clientes, mas os ônibus estão lotados. E daí, são só trabalhadores!

Enquanto escrevo estas linhas, já penso no fim... de semana quando não se deve pensar em nada que não seja o prazer de viver o feriado. Dia do trabalhador. O trabalho dignifica o homem, a mulher, as crianças e produzem riquezas que são apropriadas por pessoas que não trabalham. Ano passado os maiores bancos no Brasil tiveram lucro de mais de R$ 61 bilhões!!!! A lista da FORBES agora tem 66 bilionários brasileiros, todos com patrimônio acima de US$ 1 bilhão. Em um mês morreram mais de 100 mil brasileiros de COVID. E daí? Eu não sou coveiro!

E, já que o dia do trabalhador é no sábado, talvez eu deva tomar mais um vinho. O álcool cria uma ilusão de que a vida pode ser o que pensamos que ela possa ser, menos real que a realidade real e mais ilusória que a ilusão da qual nos iludimos. Depois de meia garrafa penso que liberalismo econômico seja como a mulher ideal: Nunca vou ter, mas lutarei até o fim para que ela seja feliz! Enquanto luto, o tempo passa e eu fico me olhando no espelho, cada vez mais velho, menos atraente, mas a mulher ideal do livre mercado desfila esbanjando bilhões de dólares em festas privadas nas melhores das orgias neoliberais! Quem sou eu?

sexta-feira, 23 de abril de 2021

EU TENHO MEDO DO COMUNISMO!


Logo eu, que sou comunista, ando com medo desse sistema tomar conta do mundo. Pensa bem. Ontem mesmo vi uma postagem sobre as barbáries ocorridas na segunda guerra mundial e um comentário implorava ao Deus ou deus, sei lá, para que nunca mais chegássemos aquela mesma situação de ameaça do comunismo. Corri até a biblioteca e procurei na Larousse Cultural e tava lá: Hitler, o vilão da segunda guerra, combatia justamente os judeus e os comunistas! Em outra postagem, um mapa, também divulgado como verdadeiro informava vários países sul americanos que já estariam sob controle dos vermelhinhos. Tentei entender o mapa. Não consegui. Pesquisei no google e não achei nenhum país deste continente que hasteasse uma bandeira vermelha com a foice e o martelo e uma estrela de cinco pontas em amarelo. Nada! Mas os comunistas devem ser assim mesmo, invisíveis a olho nu.

Outra coisa que me deixa muito assustado com a ameaça comunista é o medo que os latifundiários e os banqueiros têm. Eles são assessorados por profissionais altamente capacitados. Não é possível que suas análises políticas e econômicas estejam erradas. Banqueiros juram que somente a livre iniciativa permite o desenvolvimento das pessoas com oportunidades iguais para todos e meritocracia para selecionar os melhores em cada área. Assim, um pobre pode disputar a mesma vaga que um rico, é só se dedicar e superar o concorrente. Num eventual sistema socialista, as riquezas seriam distribuídas para todos. Um absurdo. Pobres que nunca conseguiram um emprego iriam usufruir da riqueza sem nenhum esforço, do mesmo jeito que o filhinho do rico, que nunca trabalhou, faz.

Não sei muito bem de onde me veio essa ideia de ser comunista. Deve ser algum tipo de lavagem cerebral. Já ouvi isso. Dizem que os comunistas arregimentam jovens com promessas de aventura e poder, depois mandam eles para lugares ermos onde recebem muitos ensinamentos e são doutrinados de tal forma que não conseguem mais aceitar o capitalismo. Eu fui para Cuba, onde fiquei 28 dias estudando na Escola Nacional de Formação de Quadros Sindicais, mas nessa época eu já era comunista. Isso foi em 1997, faz tempo já e eu continuo comunista. Deve ser muito convincente essa doutrina!

Veja o caso do Bolsonaro. Ele combate um comunismo totalmente imaginário. Para os bolsonaristas, políticos como Dória, Witzel e qualquer que se oponha à sua aventura ditatorialesca é vermelho, na certa! Eu tenho que admitir, me tornei comunista lendo Jorge Amado, um dos mais importantes escritores brasileiros, escrevo poesia por que amo ler Neruda, comunista chilelo respeitado no mundo todo e sou apaixonado pelas crônicas do Carlos Drummond de Andrade, outro comunista. O meu caso não tem cura!

segunda-feira, 19 de abril de 2021

O DIA MAIS IMPORTANTE


Tem uns dias que a gente pensa que são mais importantes que os outros, e são justamente aqueles que passam mais de pressa! Tipo assim, um feriado no meio de semana para comemorar Tiradentes! Por sorte esse dia é amanhã e ainda dá tempo de deixar que ele passe lentamente, como a importância que a história vem dando para o fato que inspirou essa data comemorativa. Ontem foi dia do Índio, e daí? Meu tataravô veio da Alemanha para colonizar o Sul do Brasil, junto com muitos outros homens e, não tendo mulheres para todos se casarem, laçou uma índia numa aldeia e a levou para ser sua esposa. Essa história foi romantizada por gerações até que lideranças indígenas escolarizadas puderam explicar o tamanho da violência que isso foi para seu povo.

Um feriado é sempre uma boa desculpa para a gente se alegrar, mas já pensou que tem sempre uma tragédia por trás desse dia? Só neste mês celebramos a morte de Jesus Cristo, pregado numa cruz, e o esquartejamento de Joaquim José da Silva Xavier, sabe quem é? que teve as partes do corpo pendurado em postes no caminho entre Rio de Janeiro e Ouro Preto. Dia do Índio nem feriado é! Não dá para marcar um feriado para um genocídio que continua acontecendo!

Se eu fosse legislador, proporia Lei para ser feriado toda quarta-feira e todo sábado. Domingo deixava como está para podermos descansar! quarta-feira seria dia da acumulação capitalista e sábado para lembrar de todos trabalhadores que morrem na semana devido à exploração do trabalho no processo de produção capitalista.

Mas hoje é terça e, eu não tenho nenhuma ideia para esse dia, a não ser que se canonize mais um santo brasileiro que faça o milagre de curar a ganância dos políticos e dos banqueiros. Eu sei, isso é querer demais. Não há santo que de conta de milagre tão grande! Pelo sim, pelo não, continuemos rezando e orando em missas e cultos virtuais, quem sabe Edir Macedo ou Valdomiro Santiago ou o Papa nos ensine o caminho da riqueza! Ou da humildade.

Por ora, melhor agir com cautela, pois 20 de abril é o dia do Diplomata. E, nesses tempos bicudos onde facções políticas se agridem pelas redes sociais, quem sabe não devêssemos eleger a diplomacia como a atividade mais importante! Lembra daquele primeiro ministro que mandou o presidente da Venezuela se calar? E a diplomacia do Ernesto Araujo? Pensando melhor... voltemos nossas atenções ao Tiradentes e suas inconfidências!

quinta-feira, 15 de abril de 2021

CADA UM TEM O SEU SEGREDO

Me sento à mesa deste computador para escrever e não entendo como as palavras, tão disponíveis em outros tempos, de repente se escondem como se tivessem medo de uma contaminação qualquer desse vírus que anda fazendo as pessoas se trancarem em casa, para não serem visitadas mesmo depois da segunda dose da vacina. Dei de procurar na literatura para ver se encontrava caso parecido, se não, talvez tenha chegado o fim das minhas escritas! Não demorou e encontrei um Vinicius, penoso numa crônica de desabafo com a dificuldade da escrita, eventualmente presente na hora de mandar o texto para o jornal, isso lá pela década de 1960!

É certo que meu álibi vem das ruas. Além dos supermercados que se enchem nos sábados à tarde e as lojas que se esvaziam de segunda a sexta, só as igrejas, que agora são virtuais, têm público cativo, sem contar o Bolsonaro que, por mais que faça loucuras, tem um bando de seguidores insanos e fidelíssimos, para a vida ou para a morte! As ruas estão cheias de robôs programados para continuar produzindo e quando se transformam em pessoas ficam em isolamento dentro de suas casas, quando morrem adquire-se outro na linha de montagem.

Às vezes falta matéria-prima. Isso não depende da pandemia, a não ser que o industrial seja escritor e os textos precisem de relacionamentos. Aí só tem um jeito: seguir o exemplo das igrejas, fazer cultos, quer dizer, relacionamentos virtuais! Quem nunca teve um? Essa seara, ao contrário do texto bíblico, tem muitos operários. Ali se cultivam todos os tipos de loucuras. Andei experimentando, afinal, de onde vem uma boa história?

Histórias, em tempos de pandemia, preferencialmente via internet, que só tem vírus eletrônicos, desses que destroem o Hard Disk, mais conhecido como HD, podem eventualmente infectar relacionamentos tidos por absolutamente fieis. Uns chamam a isso de loucuras de amor, outros uma aventura sem maiores consequências, os padres e os pastores juram que isso é pecado, mas os poetas, contemplando o infinito criado por Deus, sabem por sabedoria do sentimento, que o amor, ah, o amor! pode ter lá as suas licenças e permissões, inda que se tenha que morrer de amor!

 Se déssemos atenção à República, de Platão, não teríamos necessidade de guardar segredos. Para o filósofo, tudo deveria ser comum, inclusive os homens, as mulheres e os filhos. Nada de propriedade particular! Pronto. Um grave problema moral estaria resolvido. Mas, não! Enquanto o moralismo sustenta a ganância de uma sociedade hipócrita, os segredos pululam pelas redes sociais. Quem ainda não tem um segredo, que atire a primeira pedra!

quinta-feira, 8 de abril de 2021

O DATENA VEIO PARA MATAR ROUBAR E DESTRUIR

 

- A Joana enlouqueceu!

Precisava de uma resposta mais esclarecedora? Precisava, talvez uma menos enlouquecida! Joana não podia estar assim, fora das suas faculdades mentais. Sempre fora tão disponível na comunidade. Não tinha um pobre que batesse à sua porta e de lá não saísse sem uma ajuda. Agora estava assim: Enlouquecida?

Estava. Estava que estava! O marido teve que mudar de casa. De um mês para cá Joana deu de imaginar que ele ia matá-la de noite. Reuniu os filhos para falar-lhes dos planos do pai deles para a sua morte, seria cruel, ela sabia, cuidara de observar seu comportamento suspeito. Não podia mais dormir, a qualquer hora ele daria a ordem e os capangas viriam para matá-la, morte cruel, mal pegava no sono e vinha o pesadelo. Uma noite, quando o marido a abraçou, querendo um querer de intimidade e ela estava quase dormindo, que já não dormia desde muitos dias, sentiu  o braço do marido no pescoço e, de um pulo empurrou o marido com tanta força que ele caiu fora da cama e quebrou o braço que ficou preso em baixo do corpo e teve que ser levado ao hospital de onde voltou engessado.

- Bem feito! Quem mandou tentar me estrangular?

- Ninguém enlouquece assim, do nada!

O Padre andava de um lado para o outro dentro da Sacristia. Beata Severina andava atrás, de mãos juntas jurando que sim, Joana estava louca! Padre Amâncio, queira chamar José, o marido, para uma confissão que pudesse esclarecer tudo. Não adianta padre, confissão é para Deus, padre não pode fazer juízo de valor e nem julgamento! Então deixa, melhor nem confessar... E os vizinhos o que dizem? Não dizem..., dizem..., quer dizer, dizem, mas dizem que não disseram, porque ela anda de um jeito que não dá para saber se não vai quebrar o braço de outro alguém, então é melhor não dizer, ou pelo menos dizer que não disse, caso tenha já dito alguma coisa.

- E o delegado?

Não pode fazer nada, ainda ninguém denunciou. Que mal ela fez? Quebrou o braço do José! Quem disse que ele não merecia? Homem é tudo igual! Dona Jaqueline sempre se colocava ao lado dos acusados achando neles alguma inocência que fosse. E Joana? Coitada, não seria difícil arregimentar um exército de pobres que formariam fileiras em sua defesa!

Enquanto a igreja se ocupava de racionalizar o sobrenatural, na Vila, a casa da Joana virou atração turística. Da janela ela alertava para o perigo que eram os padrastos e as madrastas. Não deixem seus filhos em casa, ela gritava a pleno pulmões. Parte do público ria das peripécias, parte se indignava, especialmente quando Joana aparecia seminua invocando Afrodite, a deusa do amor! “Mais, mais...” gritava uma galera que há uma semana programara o hapy hour para a esquina próxima da casa.

- Mas, o que afinal pode ter afetado a mente da Joana?

- Não sei, Padre, disse a beata Severina, só sei que pelas informações dos vizinhos, a Joana assistia sempre o Datena! E com o volume cada vez mais alto!

segunda-feira, 5 de abril de 2021

OS EXCLUÍDOS HERDARÃO A TERRA

 

JUVITA BALLARINI

Já passei um pouco daquela idade em que a gente corre atrás dos neologismos, especialmente esses do internetês que deixam a gente meio sem saber o que se quis dizer. Esse novo jeito de falar que os jovens inventam a cada dia para se comunicar pelas redes sociais parece um pouco com taquigrafia, aquela forma de escrever que os jornalistas tinham para escrever rápido, usando sinais que simbolizavam quase que somente os sons das consoantes. Estudei taquigrafia quando tinha vinte e poucos anos e copiava as matérias das aulas no caderno com esse monte de rabiscos depois traduzia para a língua formal e assim eu fazia duas coisas: Era admirado por conseguir escrever e depois traduzir e, fazendo isso, estudava duas vezes, daí minhas notas eram sempre boas! Eu queria ser jornalista...

O máximo que consegui como jornalista foram dois dias de redação no Jornal O Panfleto. Fui sumariamente demitido. Daí a Caixa me chamou e eu virei bancário e continuei minha carreira de professor por mais alguns anos. Mas nunca parei de escrever, agora me vem essa dificuldade de comunicação pela internet. Fds pode significar muitas coisas, inclusive ‘fim de semana’, pqp não precisa tradução e todxs é um novo jeito de falar assexuadamente. Fico no meu deboismo com certos exageros.

Meu espírito jornalista encontrou hoje o foco das atenções: Dona Juvita! Eu me chamo Juvita, ela disse, sou a irmã da Lorita. Disse ‘irmã da Lorita’ como se essa informação fosse muito importante. Dona Juvita veio visitar minha mãe. Sentou-se na cadeira de fios que lhe ofereci, pôs o saco que carregava, ao lado da cadeira e disse que queria saber como estava a vozinha. Aproveitei para saber um pouco mais dessa figura folclórica desse lugarejo onde moro agora.

Juvita, a irmã da Lorita, não sabe quantos anos tem. Precisa ver no registro. Ela diz ‘ver no registro’ com a maior naturalidade do mundo! Não sabe ler nem escrever e isso parece não ser importante para essa mulher que passou a vida alheia ao sistema que organiza as pessoas num modelo de produção de bens de capital. Nenhuma importância ela dá a quem se proponha a incorpora-la a uma lógica social racional.

 Católica, parece ser uma das poucas fieis a compreender o cristianismo. “Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus”. É quase incompreensível a simplicidade com que vive e se relaciona com as pessoas. O Sermão da Montanha é uma dura advertência aos ‘cidadãos de bem’. “Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra”. Pessoas como Juvita, a irmã da Lorita, herdará a o Céu e a Terra!!!!

quinta-feira, 1 de abril de 2021

ERA 31 DE MARÇO OU 1º DE ABRIL?

             Aproveito as duas datas para publicar esta crônica, já que a escrevo no último dia de março e será publicada no primeiro de abril, ambas datas com celebrações e troças. Sei que meus textos não agradam a todos que os leem, assim como a ditadura imposta às vésperas do dia da mentira, em 1964, não agrada aos que defendiam e ainda defendem a democracia, então aproveito que ainda temos democracia para celebrar as lutas sociais que advieram em oposição à fatídica madrugada daquele dia da mentira, primeiro de abril de 64.

Para ser sincero, prefiro mil vezes as loucuras de amor em tempos de paz! Fui jovem na década de setenta e oitenta quando o Brasil era governado pelo séquito de militares que prometiam um novo país ordeiro e seguro. Os bailes de salão embalados pela banda Os Wikins de Marechal Cândido Rondon faziam rodopiar os sonhos mais lindos e as garotas mais encantadoras, até que, em algum momento, para desespero da juventude, cantavam: Ai, ai, ai, está chegando a hora...

O líder da banda, o cantor Walter Basso, ainda faz sucesso com suas músicas e até hoje apesenta programa de rádio. O Brasil dos militares também fez sucesso. Obras como a transamazônica, a ponte Rio-Niterói e usina de Itaipu são obras de vulto. A Petrobrás se tornou a mais importante petrolífera do mundo e todo setor estratégico como riquezas minerais, telecomunicações, energia e navegação de cabotagem eram estatais e a indústria produzia seus próprios bens de capital! Tudo alimentado por captação de divisas externas abundantes, enquanto o povo encantava as praias do Brasil ensolaradas e cantava eu te amo meu Brasil! Mas, ai,ai,ai...

Quando voltei do Colégio Agrícola, em 1977, encontrei o grande amor da minha vida! Uma garota maravilhosa de quem tenho saudades até hoje. Me apaixonei pelos livros e fiz descobertas incríveis: Eles não usam black-tie, Cabra marcado para morrer, O que é isso, companheiro?, Zuzu Angel, Batismo de Sangue, Lamarca, Chuva sobre Santiago, Tortura nunca mais e outras obras que iluminavam a sangueira das Veias Abertas da América Latina.

Sinto saudades da minha garota como muita gente sene saudades da ditadura militar, uma ilusão sobre algo que não conhecemos bem. Conheci outras garotas e tive outros amores, a literatura engajada de Jorge Amado e o romantismo compromissado do Neruda me levaram ao altar da justiça social onde firmei compromisso eterno com a democracia e a igualdade de oportunidades, Leonardo Boff me levou direto à opção preferencial pelos pobres e Frei Beto ao socialismo cristão.

Afinal, foi 31 de março ou 1º de abril? Era tudo mentira?

MARIA CLARA E SUA LINDA CABELEIRA (II)

                      Maria Clara tinha dezoito anos quando se casou. Seus cabelos castanhos, ondulados até o meio das costas, estavam guard...