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sexta-feira, 19 de outubro de 2018

AS CONTAS DE SEXTA-FEIRA


Não que sexta-feira seja um dia especial para se fazer contas, mas sendo hoje esse dia eu aproveito para fazer as minhas. Logo de manhã eu pensei: 'puxa vida' bem que eu poderia ficar dormindo mais alguns minutos. Fiz as contas e cheguei a conclusão que durante as horas dormidas na noite que passou, umas oito, a minha casa, comigo junto, viajou algo em torno de 13.000 quilômetros. Isso mesmo! A superfície da Terra tem aproximadamente 40.000 quilômetros e dá uma volta completa em 24 horas, então estamos o tempo todo a uma velocidade de 1.666 km/hora. E me vem um guarda de trânsito dizer que não posso passar de 30km/h nas lombadas eletrônicas... deixa prá lá...

Sexta-feira é o 5º dia dito útil da semana. Prá mim o último de trabalho no meu emprego. O 1º útil será amanhã, sábado. Trabalhei 5 dias desta semana para meu empregador, aprendi muitas coisas novas, que só servem para eu ser mais explorado ainda, cresci em conhecimentos que só servem para a empresa. Mas, pelas minhas contas, terei dois dias: 80.000 quilômetros a serem percorridos até que meu patrão me veja novamente.

Bem, acho que ninguém acreditou que eu fiz aquelas contas logo cedo ao acordar. De verdade, foi só a primeira, mais alguns minutos. Mas minha mulher, que faz muitas contas, não perdeu tempo e foi logo dizendo: preciso de dinheiro... E eu que já perdi até a conta de quando foi a última vez, fiquei pensando, só pensando, podia ser outra coisa..., quem sabe nos próximos 80.000 quilômetros...

 

Elairton Paulo Gehlen

terça-feira, 16 de outubro de 2018

FUGA AO ENCONTRO DA LIBERDADE

São pernas que correm
São peles que coram
É o pau!


É a vida que leva
É a intriga que sega
É o mal!


São pernas de ladrão
É a vida de cão
É o sal!


São peles que viciam
É a intriga da polícia
É o calo!


O pau que cora a pele do ladrão
O mal que a polícia viciada leva
O sal que cega uma vida de cão
O calo que a intriga na pele prega.


Um dia quando...
As pernas do ladrão pararem
Os vícios da polícia acabarem
O sal deixar de cegar, e
O pau finalmente se quebrar.


Então...
A paz virá no alinhamento
Do fim do estado e do policiamento
A supressão de toda autoridade
Nos dará vida digna e liberdade!


Elairton Paulo Gehlen



quinta-feira, 11 de outubro de 2018

CONSTITUIÇÃO


O homem escreve

Leis que não servem

Para a sociedade que

Serve ao homem que

Escreve as leis.

 

Os padrões sociais

Constituídos de

Parágrafos e artigos

Se tornam inimigos

Do homem...

 

... que serve

De elemento ao estado

(de putrefação estupenda).

Compreenda, homem!

As leis só servem

Ao homem que escreve.

 

Declaro constituído um

Congresso de pobres!

Todas as leis repressoras

Estão revogadas.

Revogo todas as classes dos nobres.

Estão eleitos para Constituintes

Todas as classes dos favelados.

 

Ao lado dos sem-terra,

Dos pobres, dos abandonados.

Para relator um analfabeto.

Artigo 1º: “É proibido baixar decreto”.

 

Parágrafo único:

“Decreto, em caráter excepcional,

Que por via constitucional,

De acordo com a Lei Magna das Nações,

Está proibida a corrupção”.

 

Consta, ainda, no regulamento:

“Farão parte do novo Parlamento,

Pessoas que não dependam da razão:

Poetas, poetisas e cronistas;

Contistas, chargistas, mas

Nunca charlatão”.

 

E o segundo artigo,

Antes da publicação no diário oficial

Proíbe a vida em solidão

Sob pena de grande mal.

 

Publicado, cumpra-se.

 

 

Elairton Paulo Gehlen

terça-feira, 9 de outubro de 2018

O NEGÓCIO



O negócio andava meio desentendido com o comprador que vinha com a caminhonete hilux. Já tinha uns tempos que a conversa vinha assim como as promessas dos políticos. Quando fez a proposta de comprar deu a mão com alegria mostrando os dentes brancos da limpeza feita no dentista, deu tapinha nas costas nem sei quantos, tomou até chimarrão. Falou bonito de tantas coisas que ia fazer no sítio, renovar o galpão, construir uma casa para o caseiro, fazer açude de peixe, se eu quisesse podia até vim pescar umas tilápias! Depois sumiu por uns tempos dizendo que estava viajando a negócios. Não vende para ninguém, eu já dei minha palavra que vou comprar.

O preço não estava caro, mas também nesse deserto onde só tem boi! Vieram compradores interessados que ficaram sabendo do interesse da venda e fizeram propostas até melhores. Não posso vender, já está prometido. O homem está de viagem de negócios, vai comprar.

Quatro vezes apareceu o homem com sua hilux. Primeiro disse que o galpão estava ruim por isso tinha que dar desconto e o desconto dava para fazer uns dois galpões novos, depois descontou o valor dos tanques de peixe que eu não disse que tinha, aí falou que para o negócio dele tinha que construir casa para um trabalhador e finalmente achou a minha casa muito pequena e assim ele ia ficar morando na cidade e ia gastar muita gasolina para ir e voltar todos os dias, então ia pagar ainda menos pelo sítio. Tem outros interessados.... Tu não és homem de palavra? Se me prometeu, sou o primeiro comprador. Vende logo homem, disse a mulher de noite enquanto esquentava a janta, vamos morar na cidade, lá é que é bom.

Quando viu a hilux chegando no corredor da entrada do sítio, o coração acelerou, estava decidido a não dar mais desconto. Se descontar mais um pouco vou ter que pagar para ele comprar! Vim fechar o negócio, o valor combinado na última conversa, e eu pago à vista. Tinha outro homem junto, disse o nome e foi apresentando a propriedade dele. Mostrou a casa boa que tinha ali, o galpão, as nascentes e por fim disse que a rodovia ia passar em frente da propriedade triplicando o valor em pouco tempo, assim ele aceitava vender o sítio, mas sem ficar achando defeito ou pedindo desconto.

 

Elairton Paulo Gehlen

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

EU SÓ BRINCAVA COM AS PALAVRAS


Juntei as quinquilharias,

Fiz um balacobaco,

Não fosse a ziquizira,

Eu saía do buraco!

 

Mas era tanto zumzumzum

Que tive um faniquito,

Mandei tudo para o beleléu

Depois que tive um Siricutico.

 

Saí andando em ziguezague,

Vi a moça das bugigangas

Na hora senti tanta vontade

De consumir uma burundanga!

 

Sorri feito serelepe,

Aquele andar feito borogodó,

Balançando a mala de quinquilharia,

Deixou meus pensamentos dando nó

 

Na esquina tive um piripaque,

Aí me chegou um mequetrefe,

Disse que ia me ajudar,

Virei e dei um tabefe.

 

Tive uma epifania,

Parou um guarda municipal

Perguntou se era vesânia,

Ou se me sentia mal.

 

Fiz um epidítico,

Me vi cercado por muitas caretas,

Diante da plateia,

Epífane, eu só brincava com as letras!

 

 

Elairton Paulo Gehlen



Significado das palavras:  



Quinquilharia
Refere-se a objetos com pouca importância, utilidade e valor



 

Balacobaco 

Indica uma farra bem animada e barulhenta. Pode indicar também uma coisa que é muito boa, com caraterísticas excepcionais.

 

Ziquizira

Refere-se a uma má sorte ou a uma doença desconhecida

 

Faniquito

Indica uma crise nervosa.

 

Beleléu

Refere-se à morte e ao fim de algo que desaparece ou não tem sucesso.

 

Siricutico

Indica um chilique provocado por ansiedade.

 

Burundanga

droga do tipo alcaloide tropânico cujo efeito consiste em anular a vontade de quem a ingere, sendo que a pessoa que a consome fica completamente submissa perante as ordens de outros.

 

Borogodó

Refere-se a um atrativo especial, um charme irresistível.

 

Piripaque

Refere-se a um ataque nervoso ou indisposição súbita.

 

Mequetrefe

Indica uma pessoa enxerida e intrometida. Pode indicar também algo ou alguém sem importância e valor.

 

Epifania 

aparição ou manifestação de algo, normalmente relacionado com o contexto espiritual e divino. 

 

Vesânia

denominação genérica das diferentes formas de perturbação ou alienação mental.

 

Epidítico

Discurso demonstrativo, ostentoso


 

Epífane


Aquele que se manifesta com esplendor, ilustre. Palavra de origem grega, que significa visível, manifesto, evidente, ilustre.

terça-feira, 2 de outubro de 2018

BIBLIOTECA


BIBLIOTECA

 

         Diante da biblioteca abarrotada de livros, olha vagamente para cada um, lentamente estende a mão sobre a aldrava como a pedir licença. A luz do sol clareia a sala e um raio de sol se debate em um quadro na parede e atravessa o vidro da estante como a indicar um título em especial. “Minha irmã é a Guilhermina”. Metade dos livros viera com a faculdade. Encapelado, continuou acumulando conhecimento.  

A porta aberta da sala se associa à janela e um ar fresco renova constantemente o ambiente. O conhecimento fica estagnado na estante. Da parede, a televisão traz notícias de um mundo hostil. Um ataque terrorista faz o preço do petróleo disparar. O ar entra gratuitamente pela janela. Os livros se calam na estante e a luz do sol insiste na capa do livro. Desligou a televisão. Caixa de Pandora! 

        Por muitos anos cultivou acres de conhecimento com sementes escolhidas na biblioteca. Comparou cultivares especiais com autores divergentes. Terreno preparado na história da filosofia. Paradigmas cercando quadrados de conhecimento para depois serem revolvidos pelo iluminismo e finalmente contaminados por ideologias pouco tolerantes. A praga do radicalismo. 

        Aposentado há quase dois anos, livre das metas do trabalho, quase esqueceu-se de estabelecer metas pessoais para a vida. ‘Fiz o que tinha que ser feito! ’ Carreira brilhante, entrou na empresa como office boy e saiu quarenta anos depois no mais alto cargo da diretoria. Os filhos estudados em escola particular, casa boa, carro do ano, investimento em ações e imóveis... 

        Na cobertura do seu próprio prédio de quatro andares, dois alugados, dois para sua moradia, olha há vinte minutos para a biblioteca, sem coragem de abrir as portas de vidro que prendem o conhecimento. Aos poucos move a mão deslocando o ferrolho, o ar renovado da sala invade os livros, o raio do sol agora está um pouco abaixo. Os olhos, que andaram por toda estante, voltam para a claridade: “Minha irmã é a Guilhermina”. Encheu-se de coragem e tomou o livro nas mãos, já nem se lembra de algum dia tê-lo adquirido. Folheou as páginas uma a uma e foi descobrindo algo absolutamente novo: Solidariedade!

 

Elairton Paulo Gehlen

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

BATE CORAÇÃO


Bate Coração

 

O coração bate tudum... tudum...tudum.

Parece bumbo de fanfarra!

E lembra com tristeza e alegria simultânea

A juventude e a algazarra

 

Tudum... bate o coração puberal

Fazendo mamparra para fugir do trabalho

Tudum... acelerado e liberal

Descompromissado, feliz, farra de balho.

 

A juventude é flor que desabrocha,

Faz tudo o que o coração manda.

Dorme tarde, mais tarde acorda,

E a vida é um verdadeiro encanto!

 

Mas, um dia a conta chega,

E o sonho se desmancha.

A vida cobra seu preço,

A responsabilidade se arrancha.

 

Como árvore produz muitos frutos

Rebentos sugam a seiva com força,

É preciso buscar alimento

E evitar caso de comborça.

 

Como avião que vai longe

O seu destino encontrar,

Assim os filhos se vão

A sua própria vida cuidar!

 

Tudum... tudum bate o coração.

Lento e descompassado,

Conta e reconta histórias,

Do tempo que desce o alcantilado.

 

Tudum... como bumbo de fanfarra,

Faz mamparra, virou capacho,

Um dia o sonho se desmancha,

Como bananeira que deu cacho!

                              

 

Elairton Paulo Gehlen

terça-feira, 25 de setembro de 2018

O BAILE


O BAILE

 

 

Passou como uma flecha! Um raio! Não sei, passou, agora não tenho mais saudades. Um gato vive até vinte anos e eu já tenho sessenta. Quando ele, o gato, estava velhinho eu ainda bebia demais e me entorpecia em baforadas que hiperinflaram meus pulmões. A teoria da relatividade geral já tinha sessenta anos quando eu ainda tinha vinte. Einstein só tinha trinta e seis quando escreveu a teoria, mas já tinha morrido enquanto eu bebia e fumava. Tudo relativo.

 

        Eros se deleita com a imortalidade da endeusada Psyqué! O dia amanhece e eu vou tratar os ferimentos pelo corpo. A moto não parou no trevo. Psyqué é mais linda que Afrodite. A cabeça pensa pelos hormônios. A testosterona gera eletricidade emocional. A moto não anda mais, o braço está todo ralado e o coração partido. Quando se tem vinte, tudo é relativo.

 

Bem que o Cupido poderia estar disponível nesse dia. Ela era muito linda e tinha dois anos menos que eu. O palco se esparrama em ondas deliciosas feitas monção encharcando o espírito. Da alma proliferam sentimentos que o coração sente, mas a razão duvida. Um turbilhão de pessoas rodando feito estrelas cintilantes num céu azulado e brilhante. Uma estrela brilha mais que as outras. Sirius estava mesmo a oito bilhões de anos-luz. Só Eros para lançar a flecha. Estava muito ocupado endeusando Psyqué!

 

O dia já irradiava seus primeiros raios, insinuando uma claridade a qualquer momento. A estrela mais brilhante guarda sua luminosidade para outra noite. Vou transportando uma carga imensa de nicotina nos pulmões, os olhos mal identificam a sinalização da rodovia. Tem uma placa informando... O dia não deveria amanhecer nunca mais. Se Hesíodo contasse, minha história seria diferente!

 

A música não para e o salão dando voltas e voltas arrastado por pares que se seguram e se soltam. Tomo meu arcabuz e vou lutar. Mais um copo, só mais um. E um cigarro. Derrogadas as leis de trânsito eu guio a moto. O ronco do motor acelera o coração. Tem uma luminosidade piscando ao redor do capacete. Sirius inalcançável. Sentimentos mortos. Fogo fátuo.

 

 

Elairton Paulo Gehlen

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

AMANHÃ, CERTAMENTE AMANHÃ


                             AMANHÃ, CERTAMENTE AMANHÃ




Amanhã eu vou fazer tantas coisas

Que hoje planejei

Vou plantar uma horta

Semear flores no jardim

Tudo amanhã, e será bonito assim

 

Poderia começar hoje

Mas acho que não

Agora estou cansado e

Vou preparar um chimarrão

 

Meu filho quer brincar de esconde-esconde

Pega-pega, jogar chinelo e não sei o que mais

Agora estou preocupado, não vai dar

Deixa para amanhã, aí nós vamos jogar.

 

Sabe aquelas aulas de inglês

Que eu sempre quis fazer?

Cada dia chega uma de grátis no e-mail

Tem um montão que ainda não fui ver

Amanhã, certamente terei tempo para ler.

 

Vou estudar espanhol

Economia, política e sociologia.

Tenho planos para me desenvolver

Já sei onde tem o material certo

Amanhã, começo a ver.

 

Meus filhos estão crescendo

Cada um vai seu caminho escolher

Já nem tenho mais o controle

‘tô partindo', cada um deu de dizer.

 

Minha mulher também me chama

Agora quer mesmo saber

Como vou me virar

Depois que ela desaparecer

 

Amanhã quando eu acordar

Certamente vou rever

Uma vida inteira que passou

Sem eu mesmo perceber

 

Mas amanhã...

Certamente amanhã!

Hoje não dá para ser.

Estou cansado. Amanhã, vamos ver.

 

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Elairton Paulo Gehlen

MARIA CLARA E SUA LINDA CABELEIRA (II)

                      Maria Clara tinha dezoito anos quando se casou. Seus cabelos castanhos, ondulados até o meio das costas, estavam guard...