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quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

APAGUEI

 

 A luz que

                    brilha

A sombra

    segue o caminho

 

 

Acordo

a luz

sombra,

desacordo

 

Um grito

                 no escuro

A luz

O caminho

                        sem fim.

segunda-feira, 29 de novembro de 2021

ACADEMIA DE LETRAS, PARA QUÊ?

            Vou começar este texto admitindo que posso estar totalmente equivocado, nem por isso me furto a esse questionamento, quem sabe um acadêmico experiente possa me responder.

Em 1.991 eu não tinha nenhum livro publicado quando um dos pretensos fundadores me procurou para que eu fosse um dos membros da virtual academia. Você só precisa publicar um livro, ele disse, fazendo referência às minhas publicações no jornal e minha dedicação, ou empolgação, com as letras. Hoje, o saudoso Nicanor Coelho é homenageado e tem até prédio público com seu nome. Nicanor é, sim, o grande responsável pela existência da Academia Douradense de Letras. Eu não publiquei o meu livro naquela época.

Em 1.993 fiz minha primeira publicação em livros, uma modesta participação de dez páginas de poesia numa publicação coletiva de novos escritores douradenses e, só em 2.017 lancei para o público “JOSAFÁ”, um conto urbano de 120 páginas. Nessa época, a ADL já fizera seu vigésimo sexto aniversário e lá estavam seus imortais em seus fardões e eu me perguntando: De onde vem mesmo a imortalidade de um acadêmico?

Não gostaria de fazer nenhuma comparação maliciosa, mas não vejo como abordar o assunto sem tal comparação, ainda que maliciosa, se me permite a redundância, mas escritores que se candidatam à imortalidade se parecem um pouco com jornalistas que juram imparcialidade no trabalho jornalístico. Há jornalista pelos quais eu tenho profundo respeito, pois não se dobram ao brilho do vil metal corruptível promovendo falsas verdades ou escondendo as mentiras entre falsos elogios bajuladores. Imortais não são diferentes. Assim como no jornalismo, na Academia existem valiosos imortais que militam pela cultura com espírito comunista, se dedicando a que a cultura esteja disponível ao cidadão comum. Todavia, também como no jornalismo, há uma leva de seres humanos sensíveis a honrarias, muitos deles se encantam com o título e dele fazem um belo trampolim para um belo salto ornamental na piscina das vaidades.

Se a Academia deve ser o lugar onde se reúnem intelectuais, poderíamos dizer, os melhores entre os escritores, já que uma das exigências é que tenha pelo menos uma publicação de reconhecido mérito, por que há tanta vaidade e tão pouca produção cultural, de mérito, entre os acadêmicos? Me perdoem a falta de sensibilidade, mas, para que serve a Academia mesmo?

domingo, 28 de novembro de 2021

TALVEZ

Talvez na segunda-feira

Eu possa estar de volta

Ao lugar do meu destino

 

Talvez segunda-feira

Eu possa ser feliz.

 

Talvez segunda-feira

 

Talvez

 

segunda-feira.

 

Se não for segunda-feira,

Então talvez terça.

Assim eu me animo.

 

Se não for terça-feira,

O que me diz?

 

Talvez terça-feira.

 

Talvez

 

O destino.

 

Mas, se não for...

 

Se não

 

Eu vou.

 

Eu...

 

...não.

 

Sem data marcada,

A qualquer hora

A qualquer momento.

 

Neste momento!

segunda-feira, 22 de novembro de 2021

“DOCE VENTURA”, novo Livro do escritor Elairton Gehlen

 

“DOCE VENTURA”, novo Livro do escritor Elairton Gehlen

 

O escritor Elairton Gehlen acaba de lançar seu novo livro que traz, com bom humor, reflexões sobre o amor, relacionamento e pitadas de críticas à política em tempos da pandemia do novo coronavírus.

“Falar sobre amor e relacionamento num ano como o de dois mil e vinte, quando os eventos sociais estavam simplesmente proibidos, é um desafio a que me propus”, disse o autor. Boa parte dos textos dessa coletânea foram publicados no Jornal de Dourados desde junho do ano passado, mas alguns textos também foram escritos antes da pandemia do novo coronavírus.

“DOCE VENTURA”, que tem 184 páginas de Contos, Crônicas e Poesias, é o terceiro livro do escritor e deve ser comprado pela internet no endereço da editora: https://clubedeautores.com.br/livro/doce-ventura, ao custo de R$ 37,39 a versão impressa. A versão E-book sai pelo valor de R$ 16,58.

“DOCE VENTURA” não vai ter um evento de lançamento e também não será vendido em livrarias físicas, quem estiver interessado em adquirir o livro deve fazê-lo pela internet, diretamente no endereço da editora. O livro também estará disponível para leitores nos Estados Unidos e União Europeia pelo sito da Amazon.com. No Brasil, somente pelo Clube de autores.

Em 2.017 o escritor lançou seu primeiro livro “JOSAFÁ”, um conto urbano que relata as transformações que ocorrem na vida dos principais personagens, Josafá, um executivo de um conglomerado empresarial, e Janaina, uma garota que, após tomar decisões erradas, se transforma numa pedinte de rua com seus dois filhos pequenos.

Em 2.019 lançou “HISTÓRIAS DE ANA MARIA E SEU AVÔ”, que relata, em 17 minicontos as férias de Ana Maria, garota totalmente urbana, no sítio do avô Júlio. Esse livro tem até historinha para criança dormir e uma bela receita de queijo.

Agora vem “DOCE VENTURA”, para quem gosta de uma leitura agradável! Se comprar nesta semana da Black Friday o livro impresso sai por R$ 31,32.

sexta-feira, 19 de novembro de 2021

 

PALAVRA DE CIGANA!

                                                    Helga Gehlen

 

Quem nunca consultou uma cigana para “ver la suerte?”  Elas sempre tomam das mãos, franzem o cenho e, de alguma maneira que não entendo bem, predizem o futuro em troca de um dinheirinho qualquer. Às vezes não recebem o dinheiro e às vezes, ainda, não fazem nenhuma cobrança, é quando acreditam estar mesmo ‘prevendo’ o destino de alguém. Tamanha é a convicção com que predizem os acontecimentos que não deixam nenhuma dúvida na mente de quem quer que tenha buscado na vidente um alento ou, quiçá, uma esperança no meio do desespero ou, ainda, um algo em que se agarrar para um projeto de vida ou de relacionamento.

Que as palavras têm poder, não há dúvida. Até crentes amadurecidos na fé acreditaram que Bolsonaro não ia se aliar ao Centrão! Imagina, então, jovens adolescentes em busca de revelações sobre o amor e, de gorjeta, a data determinada para a morte, no meio tempo os filhos, os bens e se o marido (ou a esposa) há de amá-la, ou amá-lo, para o resto da vida. É esse fervor dos hormônios da juventude o segredo do sucesso dessas videntes de rua que se autodenominam ‘Ciganas’.

A maioria das vezes o destino se encarrega rapidamente de desiludir jovens ansiosos e contabilizar o prejuízo financeiro na conta das bobeiras onde se gasta dinheiro comprando ilusões. Não só dinheiro, mas o tempo precioso e a energia, tão necessários para a realização de tarefas mais úteis no desenvolvimento pessoal e profissional. Crendices como “la suerte”, ferradura, pé de coelho, e tantas outras, são limitantes e, às vezes matam pessoas inocentes ou tiram-lhes a perspectiva de vida, ainda que, aos olhos deste mundo, a existência humana, seja como for, é totalmente absurda.

Há setenta anos uma cigana fez isso com minha mãe! Pediu para ver  “a suerte”, e viu, isto é, previu que ela teria um casamento com um homem com as características do meu pai, teria quatro filhos, eu sou o quarto e último, previu mais algumas coisas que se concretizaram, fazendo minha mãe acreditar que essa cigana sabia mesmo prever o futuro. Católica de carteirinha, não via problemas entre a fé e as crendices. Católicos são assim mesmo, não veem problemas em buscar benzedeiras quando a igreja não é capaz de dar as respostas e os médicos não encontram a cura ou simplesmente não atendem os mais pobres. Se os umbandistas podem fazer culto nas igrejas e os humanos santificados podem se tornar algum deus a quem se presta culto de adoração, por que não uma cigana poderia ser uma profetisa?

Esta semana minha mãe completou oitenta e oito anos de idade. Pela profecia da cigana, não chegaria aos setenta e oito, talvez por um mau entendimento pudesse ser invertido e então, a idade máxima seria oitenta e sete. Crente de que realmente morreria antes do aniversário, fazia planos para o velório, encomendando isso e aquilo que desejava para a cerimônia, pela fé, pedia uma morte sem sofrimento. Mas, com a aproximação do aniversário, a ansiedade gerou um processo de angústia. Entre a certeza da profecia e a incerteza da morte que parecia não cumprir a profecia, uma senhora de oitenta e sete anos quase morreu mesmo, de ansiedade!

Festejamos seu aniversário no último dia 18. Só o que quero agora, é que ela viva com alegria cada um  dos dias que Deus tem para sua vida, e que se danem as crendices limitantes.

domingo, 14 de novembro de 2021

MEU FILHO PREDILETO



Confesso que esse é um tema bastante melindroso e escrever sobre ele é quase um desafio. Eu tenho quatro filhos, que eu saiba, e não há pai ou mãe que não se afeiçoe por um mais que os outros. Nos tempos bíblicos era quase uma Lei, o primogênito herdava a maior parte dos bens e se tornava chefe dos demais.

Nessa nossa modernidade liberal, só alguns recantos mais tradicionais ainda cultivam este entendimento, atribuindo ao filho mais velho também a responsabilidade pelo cuidado com os pais em sua velhice. De resto, só a sorte para que pelo menos um dos corações juvenis se deitem ao lado da sabedoria dos anciãos para escutar-lhes as repetidas histórias.

Eu ando fazendo as minhas escolhas já há algum tempo. Minha carteira para estacionamento em vaga preferencial já está no terceiro aniversário, antes disso já me ocupava com um plano infalível para os tempos em que as pernas deixarem de se equilibrar em cima do skate e os pés não tenham mais a comodidade dos pedais da bicicleta. Vai demorar, eu sei, mas como diz o ditado: é melhor prevenir do que ‘murmurar’!

Meus quatro rebentos andam fazendo seus planos pessoais, bem pessoais, como deve ser quando avançam pela idade adulta e vão formando suas próprias famílias. Mesmo amando incondicionalmente cada um deles e, ainda que cada um deles jure me amar incondicionalmente, sempre fica um ponto de interrogação no horizonte onde o Sol se põe.

Pelo sim, pelo não, fiz, como já disse acima, um plano infalível: Adotei filhos! Isso, filhos adotivos geralmente são mais atenciosos e costumam adotar seus pais quando estes viram criança. Há mais de trinta anos adotei a Escrita, a primogênita, esta certamente herdará minha maior riqueza, para ela deixarei todo meu talento; tem já uns três anos que adotei o Curso de Inglês, este será meu companheiro nas horas de lazer em frente da televisão assistindo filmes com som original; meu relacionamento com a Fé tem sido tumultuado, mas eu tenho fé... acredito, que esta jamais me abandonará, principalmente nos tempos difíceis.

A Escrita já me deu netos que eu tenho muito orgulho de apresentar: O primeiro, irmão siamês de muitos outros foi uma participação de dez páginas num livro de poesia, o pai, certamente é o Carlos Drummond de Andrade, talvez Vinícius de Moraes, sei lá. Depois veio o livro Josafá, este certamente é filho da Fé, concebido sem pecado original.

Agora vos apresento, com um parágrafo exclusivamente para ele, o filho mais novo, ainda nascituro, mas já totalmente formado: DOCE VENTURA! Que me perdoem os outros quatro filhos naturais, mas este é a cara do Pai. Não preciso educa-lo com o rigor social, pois não o quero adequado às regras da sociedade; também não espero nenhum retorno afetivo, este é o filho da liberdade e como tal, talvez seja o mais importante, nele o tempo deixa de existir para existir o não-tempo! Este é o meu filho amado que, muito provavelmente, não há de me amar!

Filhos, quando nascem são assim, sempre são os prediletos. DOCE VENTURA é o meu terceiro livro que estará disponível na próxima semana!

domingo, 7 de novembro de 2021

UM LUGAR NO MUNDO: NATAL

             Eu estava resistindo a escrever sobre a viagem que fiz em outubro, já me bastavam os três ou quatro textos que publiquei antes de voltar, mas, afora a caipininha bebida pela vozinha de oitenta anos no restaurante Caranguejo e as Loucuras do Mercado Imobiliário que busca convencer turistas comuns a fazer investimentos em Resorts que não existem, acho que nenhuma referência a mais eu fiz, então, aqui vão algumas curiosidades que julgo úteis de alguma maneira para a literatura.

Fundada há mais de quatrocentos anos, é de se esperar que os políticos tenham conhecimento e sabedoria suficientes para planejar adequadamente os projetos importantes para a cidade. Começando por onde se chega, o aeroporto, que ficava em Natal, relativamente próximo do centro urbano, foi substituído, por ocasião dos jogos da Copa do Mundo de Futebol, por um novinho que fica no município de São Gonçalo do Amarantes, a quarenta quilômetros de Natal! Excelente localização, para as empresas de turismo que fazem o transfer dos passageiros e aproveitam para vender pacotes de passeios.

Embarquei numa dessas Vans e fui ouvindo as histórias do guia por quase uma hora até chegar no hotel onde ficaria hospedado por catorze dias. Não demorou e as gracinhas começaram. Guias parecem ser treinados para fazer graça e animar os turistas, o de plantão, de nome Tiago, na Van do transfer, não fugiu à regra. Moreno, cabelos pretos e olhos escuros, dizia ter sido loiro, branco e olhos verdes antes de ser guia de turismo em Natal. O motivo? O Sol! Por estar muito próximo da linha do equador, o sol de Natal é mais intenso que nas demais regiões do Brasil. Taí, para quem ama a negritude, Natal é um bom lugar para a alemoada descontente!

Talvez eu ainda diga por quê, mas demorei uns três dias até fazer o primeiro passeio turístico. O porquê não tem tanta importância, o passeio, talvez. O Rio Potangi, que significa rio de camarão, é por onde os portugueses adentraram o território brasileiro no século XV. Os Potyguares, denominação dada aos cidadãos do Rio Grande do Norte, juram que o descobrimento do Brasil se deu lá, nos arredores de Natal. Esse mesmo rio, o acesso ao mar e o porto, foram entregues à Marinha dos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial, foi ali que os Norte Americanos instalaram a primeira base militar na América Latina. Os natalenses tem um certo orgulho disso, cá entre nós, não consigo entender o orgulho de se ter uma base das Forças Armadas gringas em nosso país, sei lá!

A praia mais famosa é a Dos Artistas, imprópria para o banho, muito poluída, quem se hospeda por ali deve procurar outras praias mais próximas, e têm! Fiquei na praia de Ponta Negra, onde o principal atrativo é o Morro do Careca, lá não se pode subir, é proibido! Me disseram que o local mais bonito para se visitar em Natal eram as praias de Pipa, eu fui. Assim como o aeroporto, Pipa também não fica em Natal, mas em Tibuaçu a oitenta e cinco quilômetros de distância. Fora esse, acho que o que mais me chamou a atenção foi São Miguel do Gostoso. Antes de chegar lá fizemos uma parada charmosa onde a BR 101 inicia, no meio do nada, ali tem um arco em homenagem a obra, desenhado por ninguém menos que Oscar Niemayer!

 Por ter permanecido isolado por muito tempo e frequentado principalmente por turistas estrangeiros, o comércio de São Miguel do Gostoso teve grande dificuldade de vender produtos para os turistas por falta de moeda corrente, daí surgiu a ideia de inventar uma moeda própria para o comércio local, o “Gostoso”, até hoje aceito no comércio local, apesar de estar em desuso, não há quem não queira tirar uma foto de uma nota valendo dez gostosos, quem não quer?

Se este texto serve de alguma maneira para a literatura, os “três dias” que demorei para fazer o primeiro passeio, e mais alguns dos catorze da viagem, gastei com três motivos em especial: Finalizar meu livro de Contos, Crônicas e Poesias que desejo publicar em breve, vagabundear pelas praias e encontrar um sujeito meio louco chamado Elairton Gehlen, que se intitula ‘escritor’. Fiz quase tudo!

segunda-feira, 1 de novembro de 2021

FLORES INÚTEIS

             Hoje é dia de finados. Ontem fui ao cemitério e ele estava lindo! Era dia de Todos os Santos, uma data totalmente fora da razão humana que busca no imaginário um consolo para suas culpas e atribui aos mortos algum poder inexistente na esperança de soluções fáceis para problemas difíceis. Todos os Santos da igreja católica não são nada mais que uma tentativa de racionalizar a fé, ainda que em paradoxo com o texto básico da mesma fé que afirma não haver um sequer que seja justo, portanto Santo.

As flores do cemitério eram belas e enfeitavam cada túmulo. Eu estava lá, assentei um vaso de flores no túmulo de meu pai e outros dois para homenagear meus avós. Flores de plástico, as naturais não duram dentro de vasos e ainda acumulam água onde proliferam mosquitos transmissores de doenças. Levei minha mãe, ela sentou-se à sombra de árvores plantadas ao longo do corredor que vai da entrada até o centro, caminho percorrido por cada féretro antes de ser depositado na cova eterna. O cemitério é esse lugar, onde os mortos parecem estar eternamente vivos. Há quem tenha verdadeiro pavor de entrar ali, especialmente se for noite e mais ainda se for lua cheia!

Nenhum Santo havia ali, nem vivo, nem morto. Os melhores, claro, já haviam morrido e os piores limpavam os túmulos e depositavam flores. Ainda que Todos os Santos não sejam capazes de aliviar a culpa dos vivos, estes voltam aos bandos no dia de finados para rezar pela alma dos mortos para livra-los das agruras do Purgatório e quiçá enganar o diabo, roubando-lhe a alma do ente querido. Quem dera os mortos pudessem revirar-se no caixão e estender o braço para fora da cova com a verdade bíblica de que não existe purgatório e é totalmente inútil qualquer cerimônia após a data fatídica.

Dona Helga estava lá, aos oitenta e sete anos de idade sua principal oração é para ter uma boa morte! Não tem medo, sua fé garante que será salva, e isso parece anular todo o absurdo da existência humana. Acabei de limpar a lápide onde estão os ossos de meu saudoso pai e ela, a Dona Helga, minha mãe, me diz pela n-ézima vez que, quando ela morrer eu não vou precisar me preocupar, ela já providenciou tudo, a vaga no cemitério está garantida. Dona Helga, e todos que já não tem mais histórias novas para contar e, por isso repetem inúmeras vezes as mesmas antigas histórias, quando as contam, além de irritar as pessoas que tem a obrigação de as cuidar, dizem, mesmo nas repetidas histórias, que já viveram e tinham esperança em cada projeto de vida, em cada atitude, cada palavra de fé ou consolo, em cada trabalho voluntário, em cada tarefa comprida, cada filho criado ou produto posto no mercado, que a vida poderia fazer algum sentido. No fim, parecem ter orgulho de já ter providenciado seu próprio velório. Olho para minha mãe e me pergunto: Qual é o sentido desta vida?

Bem no meio do cemitério, a prefeitura deixou uma grande caçamba para recolher as flores inúteis, quase todas de plástico, sem vida, artificiais como a vida de quem as leva ao cemitério.

domingo, 31 de outubro de 2021

CHUVA MENSAGEIRA

Está chovendo

Esta chuva há de chegar até aí

Quando chegar

Molha tua mão

Hei de mandar com a chuva um beijo

Toma-o para ti

Põe em teus lábios

E hás de sentir minha presença

segunda-feira, 18 de outubro de 2021

RUBEM BRAGA E O PREFEITO DE DOURADOS

             Não sei de onde tirei essa ideia de ler Rubem Braga, mas certo é que pedi uns livros na Amazon e tenho gasto um tempo especialmente com suas crônicas. Algumas delas, escritas há setenta anos, parecem ser destinadas ao momento atual da política em Dourados, talvez ao próprio prefeito Alan Guedes. Teria ele, o Braga, uma bola de cristal ou, sendo um imortal da Academia, esteja ainda vivo e em sua imortalidade transite por tempos futuros para escrever no passado coisas do porvir!!! Ando pensando em me candidatar a uma vaga pela imortalidade. Será o presidente da ADL me aceitaria? Assim poderíamos deixar de lado coisas como a Farra da publicidade e focar em crônicas futuristas onde, quiçá, essa dinheirama toda seja destinada aos produtores rurais familiares e o povo tenha alimentos mais saudáveis.

A crônica ‘Bilhete a um Candidato’ parece ter sido escrita pessoalmente para o Barbosinha, em 1.960!!! Atualíssima! Se o Candidato do DEM tivesse lido, talvez não perdesse a eleição. Na época da eleição eu era presidente da Associação dos Produtores Rurais da Agricultura Familiar do Alto Café, provavelmente a Entidade que mais tenha se dedicado na construção de um projeto viável para o desenvolvimento da piscicultura neste município. Queríamos discutir o projeto com o candidato, mas ele lá não foi e seus representantes diziam que já estava sobrando votos, a eleição estava ganha. Alan Guedes, foi pessoalmente, acreditando na virada. Virou!

Virou Prefeito e rapidamente levou para seu gabinete o cara que fazia a farra, da publicidade, quando o agora alcaide ainda era presidente da Câmara de Vereadores. Talvez o mestre Rubem Braga, com toda a ironia de que era capaz, dissesse ao Alan Guedes que, não sendo tão sábio quanto o prefeito, seria incapaz de apontar todas as maracutaias, mas que elas existem, sim, existem. Eu não sei, mas tem um ditado que onde tem fumaça tem fogo! O Ministério Público, se mexer nessa fumaceira, há de encontrar o braseiro ainda em chamas.

Me permita, Rubem Braga, revolver no teu passado, tão presente, e dele copiar umas ideias críticas. Certamente não hás de revirar-te no túmulo, afinal és um imortal da Academia e as tuas críticas aos poderosos permanecem atualíssimas! Como dirias, não sou tão sábio quanto nosso Excelentíssimo Prefeito, mas em meu humilde entendimento, um milhão de reais, gastos sem nenhum benefício à sociedade, seriam suficientes para custear todo o projeto da tão sonhada piscicultura em Dourados, com produção de, no mínimo, cem toneladas de peixe por ano, processados e embalados com selo do SIM- Serviço de Inspeção Municipal, para o comércio, gerando emprego e renda a dezenas de produtores rurais da agricultura familiar, além de proporcionar a proteína a preços mais acessíveis aos consumidores e ainda girar o dinheiro dentro do município, desenvolvendo o comércio local.

Pois bem, Rubem Braga, não posso dizer que a sabedoria das prioridades seja exclusividade ao Alan Guedes. Herdeiro do Tal, o atual presidente da Câmara de Vereadores, estava animado para contratar uma empresa para transmitir as sessões do legislativo e outras notícias em redes sociais que ninguém, ou quase ninguém vê, pela bagatela de uns oitocentos e cinquenta mil reais por ano, valor suficiente para instalar pelo menos quatro abatedouros de peixe, o suficiente para atender toda a demanda dos agricultores familiares do município.

Bem, não estando eu em cargo algum dessa ou daquela gestão, talvez eu não consiga mesmo entender a importância de se gastar aí uns dois milhões de reais em publicidade. Se fosse na produção de peixe, então teríamos uma crise de superprodução, é isso???

quinta-feira, 14 de outubro de 2021

AS LOUCURAS NO NEGÓCIO IMOBILIÁRIO

             Já pensou em comprar um apartamento de trinta metros quadrados, num resort de luxo, por um milhão e quinhentos mil reais? Pois é, tem quem compra, e não são poucos. Esse negócio é gigantesco e já se espalha pelo Brasil à fora com a promessa de um excelente investimento financeiro! Afinal, o que um cronista tem a ver com isso?

Às vezes as crônicas servem para se fazer uma denúncia grave de um jeito bem-humorado. Rubem Braga era mestre, escrevia críticas ácidas aos governos em forma de crônica, talvez na próxima eu faça uma referência a ele. Hoje vou relatar o acontecido comigo, já pela segunda vez, quando me fizeram essa proposta imperdível de investimento financeiro. Não que eu tenha um milhão e meio de reais, se tivesse comprava uma fazenda em vez de um apartamento.

As autoridades não ligam nenhum pouquinho para esse negócio, afinal, estamos num país capitalista e liberal, nada mais justo que tirar o dinheiro das pessoas, desavergonhadamente, e receber medalhas de mérito pelo sucesso alcançado nos negócios! Funciona mais ou menos assim: As moças bonitas fazem o papel delas, ficam pela orla, atraem visitantes, oferecem prêmios se algum desavisado concordar em entrar e ver a proposta. O prêmio é real, que me perdoem os malandros milionários, mas sabendo que ia mesmo ganhar o brinde, aceitei gastar uma hora de meu tempo inútil e conhecer o projeto.

Há uns três ou quatro anos atrás quando estive em Caldas Novas, ganhei um almoço, agora o brinde foi de oitenta reais para fazer um passeio turístico. Nada mal para quem tem consciência que não vai mesmo fechar negócio milionário em uma hora de conversa. Por questão moral, antes de entrar avisei que não faria qualquer negócio, a moça deu um sorriso amigável e disse que se eu entrasse, além de ganhar o brinde, ainda a ajudaria a cumprir sua meta, o seu salário depende de quantas pessoas ela é capaz de enganar, quer dizer, convencer a ser iludido, digo, ouvir o que os representantes da empresas tem a dizer. O salário deles também depende de quantos eles conseguem enganar, quis dizer convencer a assinar imediatamente o contrato de compra e venda de pelo menos uma parte de cinquenta e duas de um apartamento de trinta metros quadrados.

A proposta não diz que tu estás comprando um apartamento por um milhão e meio. Também não diz que tu tens que assinar imediatamente o contrato. Mas, se concordares em assinar imediatamente irás pagar a bagatela de trinta mil reais, mais alguma coisa, por uma de cinquenta e duas partes, isso significa que o mesmo apartamento terá cinquenta e dois donos, cada um podendo utilizá-lo por, no máximo, sete dias por ano!

           Bendita hora que fiz o vestibular para matemática: Cinquenta e dois donos, cada um pagando trinta mil reais para ter direito a sete dias de utilização por ano, o apartamento, no fim das contas será vendido por nada menos que um milhão quinhentos e sessenta mil reais! E, ainda, o comprador terá que pagar sessenta reais por mês de condomínio, que, lógico, multiplicados por cinquenta e dois donos, dará para a empresa, a bagatela de três mil cento e vinte reais por mês em cada apartamento. É um negócio da China, quer dizer, do Brasil! E viva o liberalismo!!!!!!

domingo, 10 de outubro de 2021

CAMARÃO NO CARANGUEJO

             Não tenho absolutamente nada para fazer nestes dias de Natal, então fico observando gente, isso enche de ideias um escrevinhador que de repente resolve se perder nos cafundós do Nordeste. E gente não falta, nestes tempos de pandemia o avião falava repetidas vezes da necessidade de se manter o afastamento e tudo o mais para evitar a transmissão do vírus, mas os assentos estavam todos ocupados e o distanciamento era de aproximadamente cinco centímetros entre um passageiro e outro, lucrar é preciso! A refeição, ou seja lá como chamam aquilo que se serve nos aviões hoje em dia, não foi servida por motivo de cuidados com a saúde.

E por falar em refeição, ontem fui almoçar num restaurante chamado Caranguejo, pedi um prato com camarão e fiquei um longo tempo curtindo música nordestina ao vivo até que o garçom trouxe a comida. Podia demorar mais, nenhum problema na espera, além da boa música de forró, na mesa ao lado tinha uma atração mais que especial, daquelas que dá vontade de ficar ali só observando que não cansa. Também esperando pelo pedido, um senhor de uns oitenta anos tomava suco de melão enquanto procurava por algo no celular. Com o celular na mão, sua esposa, talvez com a mesma idade, se deliciava num copo de caipirinha, bebericava, olhava a telinha, esboçava um sorriso e voltava para mais um gole. Só por isso já valeu a espera, a música veio de brinde. Só espero que o Couvert especial que paguei tenha sido para esses artistas!

Do outro lado da rua um mar de gente atraídos pelo mar de Ponta Negra, parecia ter esquecido completamente os perigos da pandemia. Fiz umas contas com minha cabeça de matemático e calculei que seria impossível servir almoço para toda aquela multidão sem que acontecesse por ali o milagre da multiplicação dos pães e peixes, talvez camarão ou quem sabe caranguejos. Observando com cuidado dava para perceber que boa parte esperava mesmo por um milagre, mas pelo comportamento, acho que o Mestre teria ido logo cedo para a outra margem do mar do atlântico.

Muito parecidos com templos religiosos, os restaurantes escalavam seus ministros para receberem os visitantes na porta convidando-os a entrarem onde eram recebidos com alegria e júbilo, participavam do ritual dos pedidos, depois de ingerirem muita bebida muitos confessavam publicamente seus pecados, se fartavam de comida até transbordar e por fim deixavam na maquininha do cartão as suas ofertas abundantes.

Estávamos sem nenhuma pressa, o casal de idosos e eu, eles com suas bebidas e o celular, eu com eles. Meu almoço foi servido, olhei para a mesa ao lado, outro atendente servia uma panela de barro da qual nossa talentosa personagem tirou um caranguejo e foi destruindo no modo esquartejador, primeiro com as mãos e depois com um Socador. Finda a caipirinha, veio a cerveja e eu, que tomava água mineral, fiquei pensando que aos oitenta vou querer uma caipirinha e caranguejo com cerveja, se o destino me presentear uma velhinha de companhia. Talvez eu volte para Natal!

sexta-feira, 8 de outubro de 2021

UM LUGARA NO MUNDO: ÁGUA RICA!

Hoje estou em Campo Grande, cidade Morena! por uma noite, amanhã me vou para o nascimento, não o meu, Natal, no Rio Grande do Norte, só que para chegar aqui, na Morena, vindo de Dourados, claro, tinha que ter uma parada na Água Rica. Os douradenses sabem muito bem o que é esse lugar, ninguém vai à Campo Grande sem parar na Água Rica, lugar meio mágico, lá tem, com certeza, a melhor Chipa do mundo! O que é Chipa? Todo Sul Mato-grossense sabe, o resto do mundo acho que não. Um dia eu estava em Brasília e pedi para a garçonete: dá uma ‘chipa’, ela disse: O quê?

Quisera eu voltar ao tempo em que parei pela primeira vez na Água Rica, ah, quem dera! Tinha eu então vinte e dois anos de idade e me ia num Maverick lotado de sonhos entre Campo Grande e Iguatemi onde meus pesadelos se transformariam em literatura pela primeira vez. Aquele lugar no meio do nada poderia ser só uma lanchonete no meio do caminho, não era, era a Água Rica! Meus sonhos de juventude se transformaram em escritos no jornal A Notícia e os cinco livros adquiridos em Iguatemi se multiplicaram na biblioteca de Amambai onde virei quase literalmente um ‘rato de biblioteca’. Jorge Amado me levou ao comunismo e este a muitas viagens à Cidade Morena, e cada viagem a uma parada na Água Rica: duas chipas e um pingado, café com leite.

Tomei um pingado e perguntei a idade da Água Rica: 63 anos! Os poetas todos que conheço, todos, comeram chipa lá. Muitos comunistas, durante a ditadura que tolerava a lanchonete, mas não as ideias; mitos cronistas que driblavam a censura que parecia nada entender de figuras de linguagem; alguns filósofos que insistiam em pensar quando isso era definitivamente proibido e até músicos que teimavam em ver o dia ser novo apesar de você!

Depois do pingado, entrei na Van como entrara dezenas de vezes na Parati do sindicato dos bancários quando era diretor da CUT MS. Todas segunda-feira saia atrasado de Dourados para chegar cedo em Campo Grande. Não tinha essa loucura de trânsito e andar a cento e setenta por hora era, digamos, natural para um revolucionário que tinha pressa em fazer a revolução! Uma senhora, talvez idosa, calculei uns sessenta anos de idade, sentou-se ao meu lado e não parava de passar o dedo indicador pela tela do celular parecendo adolescente.

- Ooooi, bibibijuju, ela disse para o celular, onde aparecia uma imagem de criança. Que linda, titia tá com saudades, ela dizia para o telefone sem se importar comigo no banco ao lado. Não pude evitar a indelicadeza de olhar para a telinha, Julinana, do outro lado do telefone, parecida nem se importar com a encenação da tia, enfiou o dedo no nariz à procura de uma caquinha qualquer e deixou o dedo lá até que a tia pediu pela n-ézima vez para ela tirar, não tirou e a tia achou ela a sobrinha mais linda do mundo! Um minuto depois e eu olhava a paisagem que passava em alta velocidade pela janela da Van quando pensei estar alguém falando comigo, virei-me imediatamente para dentro e outra vez olhei quase sem querer para a imagem no smartphone e a minha vizinha de assento falava com a mãe, era um recado do Pedrinho. Aí lembrei do Pedro Vitor, meu filho, mas não liguei para ele. Água Rica estava ficando para trás, mas a riqueza da vida fluía em alta velocidade!

sexta-feira, 1 de outubro de 2021

O REFLORESTAMENTO

 


Dia 27 de setembro aconteceu um debate com as lideranças indígenas e o foco eram os jovens associados da AJI- Associação dos Jovens Indígenas das Aldeias de Dourados. Esse evento faz parte da mobilização anual que ocorre sempre em setembro para que se alcancem os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável definidos pela Assembleia Geral das Nações unidas.

Eu tive a alegria de ser um dos poucos convidados a assistir calado a cada uma das falas dos representantes dos povos originais. Fiquei sabendo, por exemplo, que o Brasil é um dos países que têm o maior número de línguas indígenas do mundo. Conheci a Graciela Guarani que é, talvez, a mais importante cineasta indígena da atualidade. A Lucimar e a Tatiane que são assistentes sociais e fazem um belíssimo trabalho nas Aldeias. A Diana e a Rosilene que são professoras e outros vários participantes, todos com seu saber e, ficar calado, para mim não foi nenhuma dificuldade, as duas horas do debate passaram muito rapidamente e só no final, no finalzinho mesmo, dei um pitaco de opinião.

Os jovens indígenas da AJI, através das suas lideranças, nos trouxeram para o debate, talvez a sua mais dura realidade. Herdeiros de povos de vida livre e historicamente preservadores da natureza, das quais sempre tiraram seu sustento, esses jovens agora são nascidos em Aldeias devastadas, não há matas, falta o alimento e até a água. O contato com o “branco” é inevitável. Daí entram para as Aldeias as doenças, as drogas ilícitas, a exploração da mão-de-obra, o preconceito, a miséria, a criminalidade, a política partidária, a violência e até o ódio de quem gostaria de lhes tirar até esta que é a última reserva de terras que lhes abriga o sonho.

Acrescentei aí acima alguns itens por minha conta. O debate foi de altíssimo nível e tratou de questões essenciais aos povos nativos. Dentre os temas apresentados para se visualizar uma perspectiva à essa juventude, o reflorestamento parece ter alcançado unanimidade, até porque essa palavra pode ter seu significado ampliado, além do plantio das árvores para devolver ao ambiente seu estado original de mata, também se pode pensar em reflorestar as ideias, devolvendo ao povo seu estado original de preservação da natureza e convivência equilibrada com os demais habitantes do ambiente, os outros animais, aves, peixes, insetos, enfim tudo que a natureza produz e com o que vive em harmonia.

Quando me deram a palavra, no último minuto, o Itacir, um dos coordenadores, me apresentou, dizendo que eu era escritor e poeta. Imediatamente me apropriei do debate e gastei meu minuto pensando alto e aí acabou o tempo e eu continuei pensando até de madrugada sobre esse tal reflorestamento. Sim, haveria de ser um reflorestamento com muitas árvores, frondosas para sombra e abrigo dos animais e aves; frutíferas para alimento; floridas para embelezar o ambiente e alimentar o beija-flor e dar sustento às abelhas; arbustos para proteção do solo e abrigo aos animais rasteiros.

Seria necessário que o reflorestamento invadisse as pessoas para que estas pudessem reaprender a viver livres na natureza. Livres de quê?? Da razão, pecado original descrito no livro de Gêneses quando Eva e Adão comeram do fruto da árvore do conhecimento e foram expulsos do Jardim. Reflorestar é a possibilidade de voltar ao Jardim. Só os jovens da AJI podem fazer isso, os “brancos” estão tão contaminados com a racionalidade que não suportam a ideia de preservação ambiental.

Reflorestar as ideias também é saber que no entorno estão os inimigos, beligerantes, estúpidos e absurdamente arrogantes. Sim, os “brancos”. Decididos a eliminar o último bastião de floresta, não saberão jamais o significado de reflorestamento até que a última gota d’água seque na última raiz de planta vendida em commodities internacionais. O homem “branco” expulso do Jardim do Éden, fatalmente sofrerá dos males do Apocalipse.

De repente fiquei me perguntando: Por que eu estava lá? Talvez como Cazuza, que dizia que a burguesia fede e que ele também era burguês, mas era poeta; não sei, talvez: Ser poeta, para Cazuza pode ter sido a sua tomada de consciência de que os seus burgueses já estavam apodrecidos, fedendo. Quem sabe este “branco” não tenha descoberto a mesma coisa. Pois bem, Cazuza, eu sou branco, mas sou poeta!


domingo, 26 de setembro de 2021

AS MALAS PARA VIAGEM

Estou pensando em tirar umas férias e já comprei as passagens e até fiz a reserva do hotel. Disse isso a um amigo e ele me perguntou, com uma certa cara de espanto, se eu estava trabalhando, disse que não, não formalmente, mesmo assim quero tirar férias. Férias de quê? Perguntou. Ora, férias é exatamente quando não se precisa ter um “que”, “de quê”, “por quê”, ou seja lá o que for. Em vez de ficar me questionando sobre trabalho, por que não pergunta por que não vou levar uma mala que caiba pelo menos o skate?

Da última vez que viajei com meu filho, fomos para Aracajú, em Sergipe. Lá tem, na orla da praia, um conjunto de quadras de esporte e uma belíssima pista de skate, tive que comprar um para meu filho e quando chegamos no aeroporto, para embarcar de volta, ninguém sabia o que fazer com o brinquedinho, na mala não cabia, estava cheia, na mão não podia levar, mas como não tinha essa bobagem de limite de dez quilos, o atendente do guichê achou por bem amarrar o skate sobre a mala com alguns metros de fita adesiva, ficou uma graça, mas o brinquedo chegou são e salvo.

Quero ir para Natal, no Rio Grande do Norte, e a operadora do pacote de viagem foi logo avisando que a bagagem tem regras que devem ser lidas no site da empresa aérea. Fui ver, diz que posso levar uma mala de mão com não sei quantos centímetros de comprimento, largura e altura e pesar no máximo dez quilos, com mala e tudo que tiver dentro. O skate não cabe na tal mala e se coubesse eu ficava sem roupas para usar durante o passeio. Pensei em pagar para despachar uma mala maior, fui pesquisar e vi que posso, é só pagar a passagem da mala e tudo bem, só que não tem assento para ela. Mas daí achei outro problema, o pacote de viagem inclui transfer do aeroporto até o hotel. Mandaram ler as regras e eu vi que se despachasse a mala, ela não seria levada do aeroporto para o hotel, nesse trecho, nem pagando passagem para a mala, eu teria que ir para o hotel com a mala de mão, depois contratar um Uber para levar a mala, ou deixar ela no aeroporto até a volta.

Não sei que pensamento é esse que vai sempre dando um jeito de tirar o conforto dos passageiros. Quando comecei a viajar de avião, e não era nem de férias, era a trabalho, podia despachar malas enormes sem nenhum incômodo e era até divertido esperar para pega-las no destino. As refeições eram servidas em bandejas enormes com tigelas de porcelana e talheres de metal, devo ter algumas comigo que peguei de lembrança. Servia-se bebidas a vontade, bebidas sim, uísque, cerveja, vinho, refrigerante, etc. e não era primeira classe que trabalhador não anda nisso. Agora, a moça passa e pergunta se a gente quer um salgadinho ou uma bolacha.

Não estou trabalhando, mas me dei ao trabalho de fazer uma pesquisa sobre isso. Queria saber o motivo desse comportamento nas empresas aéreas. A resposta foi animadora: tirando as refeições, as bebidas e as malas dos passageiros, as passagens ficariam mais baratas e o consumidor teria então a vantagem de viajar mais. Fiz os cálculos: Bebidas e refeição durante uma viagem, uns trinta reais, a passagem da mala, uns cinquenta reais, o que dá de economia oitenta reais. Uma passagem para o nordeste custa uns dois mil reais. Então, se eu economizar oitenta reais em cada viagem, para eu poder viajar “mais”, pelo menos uma vez, eu teria que primeiro, ter viajado umas vinte e cinco vezes! Sem mala, nem refeição e nem bebidas.

Sério, eu prefiro as malas!

terça-feira, 21 de setembro de 2021

A MORTA

Eu sou só um escritor. As pessoas me contam histórias e eu não me importo se elas são inventadas ou verdadeiras porque quando elas me contam, na cabeça delas as histórias são muito verdadeiras. Quando são contadas pessoalmente dá para notar na expressão das pessoas o tanto que aquilo faz sentido quanto o relato acontece. E essa que vou contar a seguir me foi contada pessoalmente e eu acredito que foi verdadeira porque o semblante, os gestos, o sorriso e até al lágrimas testificaram a verdade da história. Mas eu não estou interessado se era verdadeira ou não. O que importa é a história que eu vou contar.

Meu nome é Quinto, ele disse. Meu pai queria ter cinco filhos, o primeiro nasceu e foi batizado com o nome de Primo, depois veio a Marlene, daí os gêmeos Mario e Maria. Eu nasci e meu pai foi ao cartório para me registrar, o cartorário perguntou pelo nome e ele estava feliz, disse que ia ter cinco filhos e a meta fora alcançada eu era o “quinto”. O cartorário não perguntou mais nada.

Na minha infância, continuou, eu sempre fui muito tímido, na adolescência também, mas isso não interessa. Agora sou adulto, já tenho emprego e vivo no meu apartamento por minha conta. Tenho trinta anos e só agora encontrei a garota dos meus sonhos. Ela é linda! Sempre fiquei sozinho, em casa, ou seja lá onde quer que eu fosse numa festa, sempre estava só. Logo que chegou, dei-lhe o nome de Shepe que um site da internet, mas agora eu a chamo de Morta. Não é uma morta qualquer dessas que se não enterrar logo começa a cheirar mal. Não, a minha Morta é uma morta que acabou de morrer eternamente.

Depois que comprei a Shepe, duas colegas do escritório onde trabalho quiseram saber se eu namoro com ela. Sim, eu disse, comprei ela para dormir comigo, ela é minha namorada! Acho que elas ficaram com ciúme, mas não tem nenhuma necessidade, eu nunca fui namorado delas. A Celeste até falou que queria namorar comigo. Não quero, eu disse, agora tenho a Shepe. A Shepe, ela disse, é morta! Não tem importância, eu disse, acho que ela sendo morta pode ser até melhor. E, eu gostei de trata-la por morta. Gostei tanto que daí em diante passei a chama-la assim.

Quando saio do escritório, tenho pressa de chegar em casa e saber se minha Morta ainda está lá à minha espera. De manhã, antes de sair deixo ela confortavelmente sentada sobre umas almofadas a um canto da cama contra a parede e coloco um livro aberto sobre suas mãos para que ela não fique entediada pelo dia todo da minha ausência. Chego em casa ao entardecer, tomo-lhe o livro e vamos juntos tomar um banho na banheira.

Semana passada recebi a visita do João e a Mara. Eles são casados há uns dez anos e nunca tinham vindo me visitar. Agora vieram e eu estava jantando com a Morta quando a campainha tocou. Eles riram de mim e acho que não entenderam porquê eu jantava com a Morta. Pedi que sentassem e coloquei mais dois pratos e repartimos a comida que era mesmo suficiente pois eu gosto de fazer comida a mais, daí sobra para o dia seguinte. Durante o jantar eles queriam falar somente da Morta, tentei mudar de assunto, mas eles sempre diziam: ‘A tua morta, ela é boa companhia?’, ou coisas assim. Eu respondia que sim com a maior naturalidade. Só pararam de falar da minha Morta quando a Mara desconfiou que seu marido havia mentido para ela sobre qualquer coisa que não entendi. Ela olhou para ele com aquele olhar que a Morta nunca fez para mim e ficou longo tempo em silêncio dando empurrõezinhos na cadeira para se afastar dele.

Depois que eles se foram, a Mara saiu na frente quase sem se despedir enquanto o João tentava disfarçar, eu bati a porta e liguei o computador numa dessas rádios pela internet que toca música romântica, estava tocando Lullabay. Convidei a Morta, daí dançamos e o rádio cantou mais e mais músicas, então levei a minha Morta para o quarto e fizemos amor. De manhã, quando deixei a Morta sobre as almofadas com o livro do Camus, fiquei pensando na Mara, será que fizera amor com o João?

segunda-feira, 13 de setembro de 2021

CASADOS PARA SEMPRE

             Josenildo é desses sujeitos que se pode chamar de douradense da gema! Seu bisavô fora soldado na Guerra do Paraguai, lutou ao lado de Antônio João na Retirada da Laguna, que ficou conhecido como o Combate da Colônia Militar de Dourados. Foi uma batalha difícil onde apenas quinze valorosos soldados brasileiros enfrentaram três mil e quinhentos paraguaios, morreram todos e os paraguaios ocuparam a colônia militar.

Foi bem aqui, dizia Josenildo ao lado da estátua do herói da Laguna, foi bem aqui onde está a estátua do Antônio João, que meu bisavô morreu lutando pelo Brasil. A estátua fica na praça central da cidade de Dourados a uns 170 quilômetros de onde ocorreu a tal batalha, mas nada disso importa para o bisneto do herói desta nação. Josenildo quer mesmo é se casar e o sangue do heroísmo de Laguna que lhe corre pelas veias, pode bem ajudar, não pode? Melhor casar que viver abrasado!

A viúva do bisavô Juanito teria chorado a morte do valente marido até o exército brasileiro liberar o pagamento das pensões às viúvas de militares mortos em combate, ou não. Marli Ojeda, viúva de Juanito, decidiu nunca mais se casar para não perder o direito, mas teve outros três maridos informais e do terceiro nasceu José Ojeda, avô de Josenildo. Depois de ser condecorado por três vezes durante as comemorações do aniversário da heroica Retirada da Laguna, José casou-se com a paraguaia Marilisse de Atagua. O Prefeito de Bela Vista propôs à Câmara de Vereadores a cassação das homenagens. Aprovado por unanimidade, José não compareceu para devolver os diplomas, fugiu com Marilisse para Ponta Porã onde, dizia, poderia facilmente atravessar a fronteira e seria herói de um país estrangeiro.

Em Ponta Porã lhe nasceram quatro filhos: Ramon, Rodrigues, Júlio e Pablo, este muitíssimo aplaudido quando desfilou vestido de Antônio João pelas avenidas da cidade num 7 de setembro. Era ano eleitoral e Pablo foi eleito vereador. Em discursos inflamados exaltava o heroísmo dos bravos soldados liderados por Antônio João. Logo o reconheceram como o herói da Pátria e elegeu-se facilmente prefeito com o apoio do ainda incipiente comércio ilegal de produtos contrabandeados do Paraguai para o Brasil.

Não podendo conciliar a legalidade exigida pelo mandato e as concessões ilegais exigidas pelos traficantes, caiu em desgraça. Fugiu para o Paraguai levando consigo as menções honrosas concedidas ao seu Pai José em Bela Vista. Lá lhe nasceu Josenildo à uma pobre paraguaia pestilenta que lhe servia as refeições e limpava a casa, além de atender-lhe os desejos sexuais. Pablo morreu miserável deixando a pobre serviçal sem seu emprego e ainda grávida. Ao lhe nascer o filho, pôs-lhe o nome de Josenildo, este cresceu com graça e alguma sabedoria, mas era feio tal qual a mãe. Aos catorzes anos decidiu recuperar a honra da família, juntou os méritos concedidos ao seu avô José e rumou à Dourados, disposto a se casar e tornar-se político influente.

Dia após dia punha-se na praça denominada Antônio João, ao lado da estátua do herói em discursos patrióticos à espera da bem-amada que lhe seria a esposa até que a morte os separe. Na semana da pátria, enquanto fanáticos bolsonaristas desfilavam seus carros de luxo, um anjo lhe apareceu ao lado da estátua. Era o anjo da medida de uns três metros, um pouco maior que a estátua de Antônio João, por isso Josenildo lhe respeitou quando pôs à frente a mão direita com o dedo indicador ao rosto do bisneto do heroico soldado e lhe disse com voz segura:

- Três mentiras hão na tua história; primeira: Teu bisavô Juanito era paraguaio; Segunda: A Colônia Militar de Dourados nunca foi em Dourados, mas em Antônio João que fica a 170 quilômetros de Dourados e, finalmente a terceira: tu és muito feio, como tua mãe, e nunca te casarás!

Mal o anjo se foi e os olhos de Josenildo ainda estavam postos nas nuvens quando Milena, uma das mulheres mais lindas da cidade, bandeira do Brasil aos ombros, tomou sua mão e, olhos molhados, mãos trêmulas, mal conseguiu gaguejar:

- Você é Josenildo?  Bisneto do herói da Pátria? Casa-se comigo?

quarta-feira, 8 de setembro de 2021

DÊ SUAS DICAS DE VIAGEM PARA NOSSA COMUNIDADE

             Desde fevereiro deste ano ando cumprindo missão no Paraná, mas volta e meia, venho para Dourados onde tenho meus filhos e trinta e seis anos de história. Não tenho casa aqui, mesmo tendo duas. Quer dizer, não tenho moradia, já que levei a mudança, dado que a missão deve se prolongar por um tempo ainda não definido, então, quando venho à Dourados, hospedo-me em algum hotel. Da última vez, fiquei no Alphonsus, que agora não mais se chama Alphonsus, mas Bravo City Hotel, uma rede de hotéis que jura vai revitalizar o Alphonsus e, parece, já implementaram algumas melhorias em áreas importantes como a academia e a sauna, além de outras que não me chamam muito a atenção.

Estou fazendo propaganda do Bravo City? Sim, tanto quanto faço da cerveja bohemia! Não tenho nenhum compromisso com um e nem com outro, só gosto de gastar um tempo com quem me faz bem. Já fiquei hospedado no Ellus, no Figueira Palace e estou com vontade de reservar o Delírio Motéis e Pousada ou quem sabe o Céu do Mato - Eco Hostel para próxima viagem que já se aproxima, mas tem algo que no Bravo City parece peculiar.

Fiz a reserva pelo Booking.com, e booking significa exatamente reserva, então, fiz a reserva no reserva.com.  Deixemos os estrangeirismos de lado e vamos ao que interessa: Nem todos os hotéis podem oferecer o mesmo atrativo que o Bravo City! Além do atendimento que, como em todos os hotéis é cortês, um café da manhã bom e apartamentos aconchegantes, tem uma piscina com atrativos que só ali pude constatar. Muitos hotéis em Dourados nem piscina tem e eu acho isso um diferencial, não porque me deleite em me banhar em águas frias de piscina, mas porque gosto do ambiente para escrever minhas crônicas que vão diretamente da piscina para o meu blog e o Jornal Folha de Dourados, onde publico meus escritos.

O site Booking.com pediu para eu avaliar o hotel e dar algumas dicas da viagem para divulgação a outras pessoas que possam eventualmente se interessar por Dourados. Pensei imediatamente em dizer que Dourados é o lugar onde o tempo pode deixar de existir quando se toma uma bohemia na beira da piscina em companhia da belíssima Marina, exclusividade deste lugar. Pensei também em dizer que esta cidade, que se chama Modelo, tem tudo par ser uma das mais mal administradas que conheço, políticos corruptos e comerciantes gananciosos, mas seria redundância. Então me lembrei da piscina do hotel e da Marina, que não está disponível para quem quer que se interesse em fazer turismo por esta cidade.... Modelo! Ela só não é exclusiva por causa do Mia Couto, impossível concorrer!

Mesmo não sendo um escritor admirável, me dispus a escrever na piscina do Alphonsus, ou Bravo City, como quiser. Mal comecei minhas mal traçadas linhas e um Urubu, isso mesmo, um Urubu, veio voando em direção à piscina e pousou sobre a viga acima da grade, olhou-me com algum interesse que não compreendi muito bem, desceu até o piso, andou como se desfilasse e aproximando da água, bebeu como quis, olhou-me outra vez como a perguntar qualquer coisa e foi-se embora.

Onde, eu pergunto, um Urubu é atração turística se não na piscina do Bravo City Hotel?

segunda-feira, 6 de setembro de 2021

OS POBRES DEVEM ECONOMIZAR

Hoje, vi na televisão que se deve economizar energia elétrica porque os preços aumentaram. Quase me incomodei. Deixei para lá, afinal o sistema político e econômico é liberal e nesse modelo de governo, cada um ter liberdade de fazer como quiser. O governo diz que a culpa é de São Pedro que tomou a liberdade de não mandar as chuvas necessárias para encher os reservatórios, assim, além de economizar luz também se deve economizar a água. Aí tudo faz sentido, o segredo é não tomar banho!

O que eu não entendi bem foi a atitude de São Pedro. O Brasil está sob o comando de um governo terrivelmente evangélico, que se diz fiel seguidor da palavra divina e de todos os seus preceitos. Sendo são Pedro o chefe da portaria do Céu, certamente conhece muito bem a literatura celestial e, sendo ele mesmo o comandante das torneiras, deixa nosso país, terrivelmente evangélico, sem as chuvas temporais e até mesmo a serôdia. Haveria de São Pedro ter reivindicado cargo no governo e o Centrão recusado?

Mesmo o presidente tendo dado mostras, em tempos pretéritos, de que seria ele quem manda, agora, na prática já não manda mais. O presidente, no caso, o da Câmara dos Deputados, o Arthur Lira é, de fato, o chefe de governo. Nem sei porquê escrevi deputados com letra maiúscula. Teria ele dado um golpe de estado e deixado uma figura decorativa no planalto? Bem, pelo menos em termos de nomeações de assessores disso, daquilo e daquiloutro parece que sim, o Lira indica e o Bolsonaro diz sim, sim e assina a nomeação com a caneta Bic.

No dia da Independência, os dependentes agro negociantes vão à Brasília dar seu grito de dependência! Nunca antes neste país se distribuiu tanto dinheiro a pessoas tão ricas! Não vi os termos do acordo entre governo e o agronegócio, mas suponho que talvez se ofereça um carguinho qualquer ao chefe da chuva. Talvez uma filiação ao PP com promessa de vultosos recursos do fundo eleitoral, sei lá. Se não tiver acordo desse governo com a equipe de São Pedro, o agronegócio sai do apoio, isto é certo. Não adianta financiamento barato e preço alto de mercado se não tiver produção!

E a televisão noticiou outra vez que é necessário economizar energia. Fez até uma reportagem mostrando uma casa de pessoas bem pobres que só tem duas lâmpadas dentro de casa e, se desligarem uma, não tomarem banho e nem abrirem a geladeira mais que duas vezes no dia, então o governo dará um desconto na conta de energia.

As pessoas mais pobres precisam economizar, disse o repórter, para que não falte para os ricos que precisam ligar o ar condicionado para ter conforto para sua família, seja de dia ou de noite. Ah, isso o repórter não disse!

sexta-feira, 3 de setembro de 2021

OS VENDILHÕES DO TEMPLO

Antes de começar a escrever este conto, devo dizer que sou Cristão, ainda que eu não siga nenhuma denominação em especial. Também diria que sou Crente, esse nome que dão para crentes não católicos romanos, ainda que discorde veementemente de muitas denominações que se autodenominam evangélicas, mas que mais parecem empresas capitalistas e que não têm nenhum pudor em adorar a dois deuses ao mesmo tempo, ainda que a bíblia o proíba. Dito isto, vamos ao texto propriamente.

Eu tenho um amigo que mora num país Sul Americano e ele diz que por lá as igrejas são muitíssimas ricas. O segredo, disse, está na liberdade religiosa. Não me espantei, pois aqui no Brasil também temos liberdade de organização religiosa e igrejas muito ricas, ao que ele acrescentou o que seria o tal segredo. O segredo, repetiu como se fosse realmente algo muito secreto, é que lá no meu país, qualquer um pode abrir uma igreja, fazer-se pastor, cadastrar na Receita Federal e com o CNPJ em mãos reivindicar até o terreno junto ao poder público sem ter que pagar nada, e daí vender a promessa do Céu para aqueles que pagam o dízimo e pronto, logo a igreja se enche de esperançosos miseráveis, assim como enche também a conta bancária do pastor.

Como falava à sério, cenho franzido e tudo, pensei tratar-se de um pequeno país administrado como um fazendeiro cuida de uma fazenda de gado. Sim e não, disse. O presidente administra mesmo como se fosse uma fazenda de gado, ele berra para um lado, grita para o outro e o gado o segue fielmente, mal sabe que vai para o matadouro. Mas, não é um pequeno país, é um dos maiores do continente, prá lá de duzentos milhões de habitantes, incluído os bovinos que seguem os gritos e os berros!

Perguntei-lhe sobre o governo do país e sua relação com as igrejas, já que aqui isso parece tão evidente. Respirou fundo, ergueu as mãos ao ar em pequenos círculos, olhou-me com aquele olhar intrigado de quem quer, não querendo, responder uma pergunta, fechou a mão esquerda diante de si e com direita espalmada em direção ao meu peito, afirmou com segurança e tristeza no olhar que, se não fosse o Superior Tribunal Federal, o presidente já teria colocado placa de igreja em frente de seu palácio e se autonomeado pastor titular da igreja com o nome do país. Pelo sim, pelo não, apresentou uma reforma tributária prometendo instituir o dízimo. Para ser ministro, disse, não importa a idoneidade, basta ser terrivelmente evangélico!

E o povo, perguntei, está feliz? Feliz? Sim. Os banqueiros e os latifundiários estão felicíssimos! E o gado pasta! Pensei ser isso uma metáfora. Não é possível que banqueiros e latifundiários paguem o dízimo. Não!!! Quase berrou. Banqueiros e latifundiários não pagam impostos, eles são tidos por deuses, são adorados pelos do povo. Quando um destes aparece em público, o que é raro, normalmente ficam reclusos em seus templos, mansões, resorts, casas de praia, fazendas, etc., mas quando aparecem no meio do povo são reverenciados como a santos da igreja católica, o povo põe-se de joelhos diante deles.

Então perguntei: E os católicos, por lá devem ter muitos, eles também adoram deuses relacionados às riquezas? Eu sou suspeito para dizer, falou abaixando a cabeça. Não me confesso católico, mas, se Martinho Lutero voltasse, seria imediatamente mandado vivo para a fogueira, tamanho é o empenho em vender objetos santificados pelas redes de televisão da igreja.

Dito isso, danou a chorar como criança. Chorou um vale de lágrimas. Depois de algum tempo em silêncio, tomamos de um livro de Albert Camus e conversamos por um longo tempo sobre o absurdismo.

MARIA CLARA E SUA LINDA CABELEIRA (II)

                      Maria Clara tinha dezoito anos quando se casou. Seus cabelos castanhos, ondulados até o meio das costas, estavam guard...