brilha
A sombra
segue o
caminho
Acordo
a luz
sombra,
desacordo
Um grito
no escuro
A luz
O caminho
sem
fim.
brilha
A sombra
segue o
caminho
Acordo
a luz
sombra,
desacordo
Um grito
no escuro
A luz
O caminho
sem
fim.
Vou começar este texto admitindo que posso estar totalmente equivocado, nem por isso me furto a esse questionamento, quem sabe um acadêmico experiente possa me responder.
Em 1.991 eu não tinha nenhum livro
publicado quando um dos pretensos fundadores me procurou para que eu fosse um
dos membros da virtual academia. Você só precisa publicar um livro,
ele disse, fazendo referência às minhas publicações no jornal e minha
dedicação, ou empolgação, com as letras. Hoje, o saudoso Nicanor Coelho é
homenageado e tem até prédio público com seu nome. Nicanor é, sim, o grande
responsável pela existência da Academia Douradense de Letras. Eu não publiquei
o meu livro naquela época.
Em 1.993 fiz minha primeira
publicação em livros, uma modesta participação de dez páginas de poesia numa
publicação coletiva de novos escritores douradenses e, só em 2.017 lancei para
o público “JOSAFÁ”, um conto urbano de 120 páginas. Nessa época, a ADL já
fizera seu vigésimo sexto aniversário e lá estavam seus imortais em seus fardões
e eu me perguntando: De onde vem mesmo a imortalidade de um acadêmico?
Não gostaria de fazer nenhuma
comparação maliciosa, mas não vejo como abordar o assunto sem tal comparação,
ainda que maliciosa, se me permite a redundância, mas escritores que se candidatam
à imortalidade se parecem um pouco com jornalistas que juram imparcialidade no
trabalho jornalístico. Há jornalista pelos quais eu tenho profundo respeito,
pois não se dobram ao brilho do vil metal corruptível promovendo falsas
verdades ou escondendo as mentiras entre falsos elogios bajuladores. Imortais
não são diferentes. Assim como no jornalismo, na Academia existem valiosos
imortais que militam pela cultura com espírito comunista, se dedicando a que a
cultura esteja disponível ao cidadão comum. Todavia, também como no jornalismo,
há uma leva de seres humanos sensíveis a honrarias, muitos deles se encantam
com o título e dele fazem um belo trampolim para um belo salto ornamental na
piscina das vaidades.
Se a Academia deve ser o lugar onde
se reúnem intelectuais, poderíamos dizer, os melhores entre os escritores, já que
uma das exigências é que tenha pelo menos uma publicação de reconhecido mérito,
por que há tanta vaidade e tão pouca produção cultural, de mérito, entre os
acadêmicos? Me perdoem a falta de sensibilidade, mas, para que serve a Academia
mesmo?
Talvez na segunda-feira
Eu possa estar de volta
Ao lugar do meu destino
Talvez segunda-feira
Eu possa ser feliz.
Talvez segunda-feira
Talvez
segunda-feira.
Se não for segunda-feira,
Então talvez terça.
Assim eu me animo.
Se não for terça-feira,
O que me diz?
Talvez terça-feira.
Talvez
O destino.
Mas, se não for...
Se não
Eu vou.
Eu...
...não.
Sem data marcada,
A qualquer hora
A qualquer momento.
Neste momento!
“DOCE VENTURA”, novo Livro do
escritor Elairton Gehlen
O escritor Elairton Gehlen acaba de
lançar seu novo livro que traz, com bom humor, reflexões sobre o amor,
relacionamento e pitadas de críticas à política em tempos da pandemia do novo
coronavírus.
“Falar sobre amor e relacionamento
num ano como o de dois mil e vinte, quando os eventos sociais estavam
simplesmente proibidos, é um desafio a que me propus”, disse o autor. Boa parte
dos textos dessa coletânea foram publicados no Jornal de Dourados desde junho
do ano passado, mas alguns textos também foram escritos antes da pandemia do
novo coronavírus.
“DOCE VENTURA”, que tem 184 páginas
de Contos, Crônicas e Poesias, é o terceiro livro do escritor e deve ser
comprado pela internet no endereço da editora: https://clubedeautores.com.br/livro/doce-ventura, ao custo de R$ 37,39 a versão
impressa. A versão E-book sai pelo valor de R$ 16,58.
“DOCE VENTURA” não vai ter um evento
de lançamento e também não será vendido em livrarias físicas, quem estiver
interessado em adquirir o livro deve fazê-lo pela internet, diretamente no
endereço da editora. O livro também estará disponível para leitores nos Estados
Unidos e União Europeia pelo sito da Amazon.com. No Brasil, somente pelo Clube
de autores.
Em 2.017 o escritor lançou seu
primeiro livro “JOSAFÁ”, um conto urbano que relata as transformações que
ocorrem na vida dos principais personagens, Josafá, um executivo de um
conglomerado empresarial, e Janaina, uma garota que, após tomar decisões
erradas, se transforma numa pedinte de rua com seus dois filhos pequenos.
Em 2.019 lançou “HISTÓRIAS DE ANA
MARIA E SEU AVÔ”, que relata, em 17 minicontos as férias de Ana Maria, garota
totalmente urbana, no sítio do avô Júlio. Esse livro tem até historinha para
criança dormir e uma bela receita de queijo.
Agora vem “DOCE VENTURA”, para quem
gosta de uma leitura agradável! Se comprar nesta semana da Black Friday o livro
impresso sai por R$ 31,32.
PALAVRA DE CIGANA!
Helga Gehlen
Quem nunca consultou uma cigana para
“ver la suerte?” Elas sempre tomam das mãos, franzem o cenho e,
de alguma maneira que não entendo bem, predizem o futuro em troca de um
dinheirinho qualquer. Às vezes não recebem o dinheiro e às vezes, ainda, não
fazem nenhuma cobrança, é quando acreditam estar mesmo ‘prevendo’ o destino de
alguém. Tamanha é a convicção com que predizem os acontecimentos que não deixam
nenhuma dúvida na mente de quem quer que tenha buscado na vidente um alento ou,
quiçá, uma esperança no meio do desespero ou, ainda, um algo em que se agarrar
para um projeto de vida ou de relacionamento.
Que as palavras têm poder, não há
dúvida. Até crentes amadurecidos na fé acreditaram que Bolsonaro não ia se
aliar ao Centrão! Imagina, então, jovens adolescentes em busca de revelações
sobre o amor e, de gorjeta, a data determinada para a morte, no meio tempo os
filhos, os bens e se o marido (ou a esposa) há de amá-la, ou amá-lo, para o
resto da vida. É esse fervor dos hormônios da juventude o segredo do sucesso dessas
videntes de rua que se autodenominam ‘Ciganas’.
A maioria das vezes o destino se
encarrega rapidamente de desiludir jovens ansiosos e contabilizar o prejuízo
financeiro na conta das bobeiras onde se gasta dinheiro comprando ilusões. Não
só dinheiro, mas o tempo precioso e a energia, tão necessários para a
realização de tarefas mais úteis no desenvolvimento pessoal e profissional.
Crendices como “la suerte”, ferradura, pé de coelho, e tantas outras, são
limitantes e, às vezes matam pessoas inocentes ou tiram-lhes a perspectiva de
vida, ainda que, aos olhos deste mundo, a existência humana, seja como for, é
totalmente absurda.
Há setenta anos uma cigana fez isso
com minha mãe! Pediu para ver “a
suerte”, e viu, isto é, previu que ela teria um casamento com um homem com as
características do meu pai, teria quatro filhos, eu sou o quarto e último,
previu mais algumas coisas que se concretizaram, fazendo minha mãe acreditar
que essa cigana sabia mesmo prever o futuro. Católica de carteirinha, não via
problemas entre a fé e as crendices. Católicos são assim mesmo, não veem
problemas em buscar benzedeiras quando a igreja não é capaz de dar as respostas
e os médicos não encontram a cura ou simplesmente não atendem os mais pobres. Se
os umbandistas podem fazer culto nas igrejas e os humanos santificados podem se
tornar algum deus a quem se presta culto de adoração, por que não uma cigana
poderia ser uma profetisa?
Esta semana minha mãe completou
oitenta e oito anos de idade. Pela profecia da cigana, não chegaria aos setenta
e oito, talvez por um mau entendimento pudesse ser invertido e então, a idade
máxima seria oitenta e sete. Crente de que realmente morreria antes do
aniversário, fazia planos para o velório, encomendando isso e aquilo que
desejava para a cerimônia, pela fé, pedia uma morte sem sofrimento. Mas, com a
aproximação do aniversário, a ansiedade gerou um processo de angústia. Entre a
certeza da profecia e a incerteza da morte que parecia não cumprir a profecia,
uma senhora de oitenta e sete anos quase morreu mesmo, de ansiedade!
Festejamos seu aniversário no último
dia 18. Só o que quero agora, é que ela viva com alegria cada um dos dias que Deus tem para sua vida, e que se
danem as crendices limitantes.
Confesso que esse é um tema bastante
melindroso e escrever sobre ele é quase um desafio. Eu tenho quatro filhos, que
eu saiba, e não há pai ou mãe que não se afeiçoe por um mais que os outros. Nos
tempos bíblicos era quase uma Lei, o primogênito herdava a maior parte dos bens
e se tornava chefe dos demais.
Nessa nossa modernidade liberal, só
alguns recantos mais tradicionais ainda cultivam este entendimento, atribuindo
ao filho mais velho também a responsabilidade pelo cuidado com os pais em sua
velhice. De resto, só a sorte para que pelo menos um dos corações juvenis se
deitem ao lado da sabedoria dos anciãos para escutar-lhes as repetidas
histórias.
Eu ando fazendo as minhas escolhas já
há algum tempo. Minha carteira para estacionamento em vaga preferencial já está
no terceiro aniversário, antes disso já me ocupava com um plano infalível para
os tempos em que as pernas deixarem de se equilibrar em cima do skate e os pés
não tenham mais a comodidade dos pedais da bicicleta. Vai demorar, eu sei, mas
como diz o ditado: é melhor prevenir do que ‘murmurar’!
Meus quatro rebentos andam fazendo
seus planos pessoais, bem pessoais, como deve ser quando avançam pela idade
adulta e vão formando suas próprias famílias. Mesmo amando incondicionalmente
cada um deles e, ainda que cada um deles jure me amar incondicionalmente, sempre
fica um ponto de interrogação no horizonte onde o Sol se põe.
Pelo sim, pelo não, fiz, como já
disse acima, um plano infalível: Adotei filhos! Isso, filhos adotivos
geralmente são mais atenciosos e costumam adotar seus pais quando estes viram
criança. Há mais de trinta anos adotei a Escrita, a primogênita, esta
certamente herdará minha maior riqueza, para ela deixarei todo meu talento; tem
já uns três anos que adotei o Curso de Inglês, este será meu companheiro nas
horas de lazer em frente da televisão assistindo filmes com som original; meu
relacionamento com a Fé tem sido tumultuado, mas eu tenho fé... acredito, que
esta jamais me abandonará, principalmente nos tempos difíceis.
A Escrita já me deu netos que eu
tenho muito orgulho de apresentar: O primeiro, irmão siamês de muitos outros
foi uma participação de dez páginas num livro de poesia, o pai, certamente é o
Carlos Drummond de Andrade, talvez Vinícius de Moraes, sei lá. Depois veio o
livro Josafá, este certamente é filho da Fé, concebido sem pecado original.
Agora vos apresento, com um parágrafo
exclusivamente para ele, o filho mais novo, ainda nascituro, mas já totalmente
formado: DOCE VENTURA! Que me perdoem os outros quatro filhos naturais, mas
este é a cara do Pai. Não preciso educa-lo com o rigor social, pois não o quero
adequado às regras da sociedade; também não espero nenhum retorno afetivo, este
é o filho da liberdade e como tal, talvez seja o mais importante, nele o tempo
deixa de existir para existir o não-tempo! Este é o meu filho amado que, muito
provavelmente, não há de me amar!
Filhos, quando nascem são assim,
sempre são os prediletos. DOCE VENTURA é o meu terceiro livro que estará disponível na
próxima semana!
Eu estava resistindo a escrever sobre a viagem que fiz em outubro, já me bastavam os três ou quatro textos que publiquei antes de voltar, mas, afora a caipininha bebida pela vozinha de oitenta anos no restaurante Caranguejo e as Loucuras do Mercado Imobiliário que busca convencer turistas comuns a fazer investimentos em Resorts que não existem, acho que nenhuma referência a mais eu fiz, então, aqui vão algumas curiosidades que julgo úteis de alguma maneira para a literatura.
Fundada há mais de quatrocentos anos,
é de se esperar que os políticos tenham conhecimento e sabedoria suficientes para
planejar adequadamente os projetos importantes para a cidade. Começando por onde
se chega, o aeroporto, que ficava em Natal, relativamente próximo do centro
urbano, foi substituído, por ocasião dos jogos da Copa do Mundo de Futebol, por
um novinho que fica no município de São Gonçalo do Amarantes, a quarenta
quilômetros de Natal! Excelente localização, para as empresas de turismo que
fazem o transfer dos passageiros e
aproveitam para vender pacotes de passeios.
Embarquei numa dessas Vans e fui
ouvindo as histórias do guia por quase uma hora até chegar no hotel onde
ficaria hospedado por catorze dias. Não demorou e as gracinhas começaram. Guias
parecem ser treinados para fazer graça e animar os turistas, o de plantão, de
nome Tiago, na Van do transfer, não
fugiu à regra. Moreno, cabelos pretos e olhos escuros, dizia ter sido loiro,
branco e olhos verdes antes de ser guia de turismo em Natal. O motivo? O Sol!
Por estar muito próximo da linha do equador, o sol de Natal é mais intenso que
nas demais regiões do Brasil. Taí, para quem ama a negritude, Natal é um bom
lugar para a alemoada descontente!
Talvez eu ainda diga por quê, mas
demorei uns três dias até fazer o primeiro passeio turístico. O porquê não tem
tanta importância, o passeio, talvez. O Rio Potangi, que significa rio de
camarão, é por onde os portugueses adentraram o território brasileiro no século
XV. Os Potyguares, denominação dada aos cidadãos do Rio Grande do Norte, juram
que o descobrimento do Brasil se deu lá, nos arredores de Natal. Esse mesmo
rio, o acesso ao mar e o porto, foram entregues à Marinha dos Estados Unidos
durante a Segunda Guerra Mundial, foi ali que os Norte Americanos instalaram a
primeira base militar na América Latina. Os natalenses tem um certo orgulho
disso, cá entre nós, não consigo entender o orgulho de se ter uma base das
Forças Armadas gringas em nosso país, sei lá!
A praia mais famosa é a Dos Artistas,
imprópria para o banho, muito poluída, quem se hospeda por ali deve procurar
outras praias mais próximas, e têm! Fiquei na praia de Ponta Negra, onde o
principal atrativo é o Morro do Careca, lá não se pode subir, é proibido! Me disseram
que o local mais bonito para se visitar em Natal eram as praias de Pipa, eu
fui. Assim como o aeroporto, Pipa também não fica em Natal, mas em Tibuaçu a
oitenta e cinco quilômetros de distância. Fora esse, acho que o que mais me
chamou a atenção foi São Miguel do Gostoso. Antes de chegar lá fizemos uma
parada charmosa onde a BR 101 inicia, no meio do nada, ali tem um arco em
homenagem a obra, desenhado por ninguém menos que Oscar Niemayer!
Por ter permanecido isolado por muito tempo e
frequentado principalmente por turistas estrangeiros, o comércio de São Miguel
do Gostoso teve grande dificuldade de vender produtos para os turistas por
falta de moeda corrente, daí surgiu a ideia de inventar uma moeda própria para
o comércio local, o “Gostoso”, até hoje aceito no comércio local, apesar de estar
em desuso, não há quem não queira tirar uma foto de uma nota valendo dez
gostosos, quem não quer?
Se este texto serve de alguma maneira
para a literatura, os “três dias” que demorei para fazer o primeiro passeio, e
mais alguns dos catorze da viagem, gastei com três motivos em especial:
Finalizar meu livro de Contos, Crônicas e Poesias que desejo publicar em breve,
vagabundear pelas praias e encontrar um sujeito meio louco chamado Elairton
Gehlen, que se intitula ‘escritor’. Fiz quase tudo!
Hoje é dia de finados. Ontem fui ao cemitério e ele estava lindo! Era dia de Todos os Santos, uma data totalmente fora da razão humana que busca no imaginário um consolo para suas culpas e atribui aos mortos algum poder inexistente na esperança de soluções fáceis para problemas difíceis. Todos os Santos da igreja católica não são nada mais que uma tentativa de racionalizar a fé, ainda que em paradoxo com o texto básico da mesma fé que afirma não haver um sequer que seja justo, portanto Santo.
As flores do cemitério eram belas e
enfeitavam cada túmulo. Eu estava lá, assentei um vaso de flores no túmulo de
meu pai e outros dois para homenagear meus avós. Flores de plástico, as naturais
não duram dentro de vasos e ainda acumulam água onde proliferam mosquitos
transmissores de doenças. Levei minha mãe, ela sentou-se à sombra de árvores
plantadas ao longo do corredor que vai da entrada até o centro, caminho
percorrido por cada féretro antes de ser depositado na cova eterna. O cemitério
é esse lugar, onde os mortos parecem estar eternamente vivos. Há quem tenha
verdadeiro pavor de entrar ali, especialmente se for noite e mais ainda se for
lua cheia!
Nenhum Santo havia ali, nem vivo, nem
morto. Os melhores, claro, já haviam morrido e os piores limpavam os túmulos e
depositavam flores. Ainda que Todos os Santos não sejam capazes de aliviar a
culpa dos vivos, estes voltam aos bandos no dia de finados para rezar pela alma
dos mortos para livra-los das agruras do Purgatório e quiçá enganar o diabo,
roubando-lhe a alma do ente querido. Quem dera os mortos pudessem revirar-se no
caixão e estender o braço para fora da cova com a verdade bíblica de que não
existe purgatório e é totalmente inútil qualquer cerimônia após a data fatídica.
Dona Helga estava lá, aos oitenta e
sete anos de idade sua principal oração é para ter uma boa morte! Não tem medo,
sua fé garante que será salva, e isso parece anular todo o absurdo da existência
humana. Acabei de limpar a lápide onde estão os ossos de meu saudoso pai e ela,
a Dona Helga, minha mãe, me diz pela n-ézima vez que, quando ela morrer eu não
vou precisar me preocupar, ela já providenciou tudo, a vaga no cemitério está
garantida. Dona Helga, e todos que já não tem mais histórias novas para contar
e, por isso repetem inúmeras vezes as mesmas antigas histórias, quando as
contam, além de irritar as pessoas que tem a obrigação de as cuidar, dizem,
mesmo nas repetidas histórias, que já viveram e tinham esperança em cada
projeto de vida, em cada atitude, cada palavra de fé ou consolo, em cada
trabalho voluntário, em cada tarefa comprida, cada filho criado ou produto
posto no mercado, que a vida poderia fazer algum sentido. No fim, parecem ter
orgulho de já ter providenciado seu próprio velório. Olho para minha mãe e me
pergunto: Qual é o sentido desta vida?
Bem no meio do cemitério, a
prefeitura deixou uma grande caçamba para recolher as flores inúteis, quase
todas de plástico, sem vida, artificiais como a vida de quem as leva ao
cemitério.
Está chovendo
Esta chuva há de chegar até aí
Quando chegar
Molha tua mão
Hei de mandar com a chuva um beijo
Toma-o para ti
Põe em teus lábios
E hás de sentir minha presença
Não sei de onde tirei essa ideia de ler Rubem Braga, mas certo é que pedi uns livros na Amazon e tenho gasto um tempo especialmente com suas crônicas. Algumas delas, escritas há setenta anos, parecem ser destinadas ao momento atual da política em Dourados, talvez ao próprio prefeito Alan Guedes. Teria ele, o Braga, uma bola de cristal ou, sendo um imortal da Academia, esteja ainda vivo e em sua imortalidade transite por tempos futuros para escrever no passado coisas do porvir!!! Ando pensando em me candidatar a uma vaga pela imortalidade. Será o presidente da ADL me aceitaria? Assim poderíamos deixar de lado coisas como a Farra da publicidade e focar em crônicas futuristas onde, quiçá, essa dinheirama toda seja destinada aos produtores rurais familiares e o povo tenha alimentos mais saudáveis.
A crônica ‘Bilhete a um Candidato’ parece ter sido escrita pessoalmente para o
Barbosinha, em 1.960!!! Atualíssima! Se o Candidato do DEM tivesse lido,
talvez não perdesse a eleição. Na época da eleição eu era presidente da
Associação dos Produtores Rurais da Agricultura Familiar do Alto Café,
provavelmente a Entidade que mais tenha se dedicado na construção de um projeto
viável para o desenvolvimento da piscicultura neste município. Queríamos
discutir o projeto com o candidato, mas ele lá não foi e seus representantes
diziam que já estava sobrando votos, a eleição estava ganha. Alan Guedes, foi
pessoalmente, acreditando na virada. Virou!
Virou Prefeito e rapidamente levou
para seu gabinete o cara que fazia a farra, da publicidade, quando o agora
alcaide ainda era presidente da Câmara de Vereadores. Talvez o mestre Rubem
Braga, com toda a ironia de que era capaz, dissesse ao Alan Guedes que, não
sendo tão sábio quanto o prefeito, seria incapaz de apontar todas as
maracutaias, mas que elas existem, sim, existem. Eu não sei, mas tem um ditado
que onde tem fumaça tem fogo! O Ministério Público, se mexer nessa fumaceira,
há de encontrar o braseiro ainda em chamas.
Me permita, Rubem Braga, revolver no
teu passado, tão presente, e dele copiar umas ideias críticas. Certamente não
hás de revirar-te no túmulo, afinal és um imortal da Academia e as tuas
críticas aos poderosos permanecem atualíssimas! Como dirias, não sou tão sábio
quanto nosso Excelentíssimo Prefeito, mas em meu humilde entendimento, um
milhão de reais, gastos sem nenhum benefício à sociedade, seriam suficientes
para custear todo o projeto da tão sonhada piscicultura em Dourados, com
produção de, no mínimo, cem toneladas de peixe por ano, processados e embalados
com selo do SIM- Serviço de Inspeção Municipal, para o comércio, gerando
emprego e renda a dezenas de produtores rurais da agricultura familiar, além de
proporcionar a proteína a preços mais acessíveis aos consumidores e ainda girar
o dinheiro dentro do município, desenvolvendo o comércio local.
Pois bem, Rubem Braga, não posso
dizer que a sabedoria das prioridades seja exclusividade ao Alan Guedes. Herdeiro
do Tal, o atual presidente da Câmara de Vereadores, estava animado para
contratar uma empresa para transmitir as sessões do legislativo e outras
notícias em redes sociais que ninguém, ou quase ninguém vê, pela bagatela de
uns oitocentos e cinquenta mil reais por ano, valor suficiente para instalar
pelo menos quatro abatedouros de peixe, o suficiente para atender toda a
demanda dos agricultores familiares do município.
Bem, não estando eu em cargo algum
dessa ou daquela gestão, talvez eu não consiga mesmo entender a importância de
se gastar aí uns dois milhões de reais em publicidade. Se fosse na produção de
peixe, então teríamos uma crise de superprodução, é isso???
Já pensou em comprar um apartamento de trinta metros quadrados, num resort de luxo, por um milhão e quinhentos mil reais? Pois é, tem quem compra, e não são poucos. Esse negócio é gigantesco e já se espalha pelo Brasil à fora com a promessa de um excelente investimento financeiro! Afinal, o que um cronista tem a ver com isso?
Às vezes as crônicas servem para se
fazer uma denúncia grave de um jeito bem-humorado. Rubem Braga era mestre,
escrevia críticas ácidas aos governos em forma de crônica, talvez na próxima eu
faça uma referência a ele. Hoje vou relatar o acontecido comigo, já pela segunda
vez, quando me fizeram essa proposta imperdível de investimento financeiro. Não
que eu tenha um milhão e meio de reais, se tivesse comprava uma fazenda em vez
de um apartamento.
As autoridades não ligam nenhum
pouquinho para esse negócio, afinal, estamos num país capitalista e liberal,
nada mais justo que tirar o dinheiro das pessoas, desavergonhadamente, e
receber medalhas de mérito pelo sucesso alcançado nos negócios! Funciona mais
ou menos assim: As moças bonitas fazem o papel delas, ficam pela orla, atraem
visitantes, oferecem prêmios se algum desavisado concordar em entrar e ver a
proposta. O prêmio é real, que me perdoem os malandros milionários, mas sabendo
que ia mesmo ganhar o brinde, aceitei gastar uma hora de meu tempo inútil e
conhecer o projeto.
Há uns três ou quatro anos atrás
quando estive em Caldas Novas, ganhei um almoço, agora o brinde foi de oitenta
reais para fazer um passeio turístico. Nada mal para quem tem consciência que
não vai mesmo fechar negócio milionário em uma hora de conversa. Por questão
moral, antes de entrar avisei que não faria qualquer negócio, a moça deu um
sorriso amigável e disse que se eu entrasse, além de ganhar o brinde, ainda a
ajudaria a cumprir sua meta, o seu salário depende de quantas pessoas ela é
capaz de enganar, quer dizer, convencer a ser iludido, digo, ouvir o que os
representantes da empresas tem a dizer. O salário deles também depende de
quantos eles conseguem enganar, quis dizer convencer a assinar imediatamente o
contrato de compra e venda de pelo menos uma parte de cinquenta e duas de um
apartamento de trinta metros quadrados.
A proposta não diz que tu estás
comprando um apartamento por um milhão e meio. Também não diz que tu tens que
assinar imediatamente o contrato. Mas, se concordares em assinar imediatamente
irás pagar a bagatela de trinta mil reais, mais alguma coisa, por uma de
cinquenta e duas partes, isso significa que o mesmo apartamento terá cinquenta
e dois donos, cada um podendo utilizá-lo por, no máximo, sete dias por ano!
Não tenho absolutamente nada para fazer nestes dias de Natal, então fico observando gente, isso enche de ideias um escrevinhador que de repente resolve se perder nos cafundós do Nordeste. E gente não falta, nestes tempos de pandemia o avião falava repetidas vezes da necessidade de se manter o afastamento e tudo o mais para evitar a transmissão do vírus, mas os assentos estavam todos ocupados e o distanciamento era de aproximadamente cinco centímetros entre um passageiro e outro, lucrar é preciso! A refeição, ou seja lá como chamam aquilo que se serve nos aviões hoje em dia, não foi servida por motivo de cuidados com a saúde.
E por falar em refeição, ontem fui
almoçar num restaurante chamado Caranguejo, pedi um prato com camarão e fiquei
um longo tempo curtindo música nordestina ao vivo até que o garçom trouxe a
comida. Podia demorar mais, nenhum problema na espera, além da boa música de
forró, na mesa ao lado tinha uma atração mais que especial, daquelas que dá
vontade de ficar ali só observando que não cansa. Também esperando pelo pedido,
um senhor de uns oitenta anos tomava suco de melão enquanto procurava por algo
no celular. Com o celular na mão, sua esposa, talvez com a mesma idade, se
deliciava num copo de caipirinha, bebericava, olhava a telinha, esboçava um
sorriso e voltava para mais um gole. Só por isso já valeu a espera, a música
veio de brinde. Só espero que o Couvert
especial que paguei tenha sido para esses artistas!
Do outro lado da rua um mar de gente
atraídos pelo mar de Ponta Negra, parecia ter esquecido completamente os
perigos da pandemia. Fiz umas contas com minha cabeça de matemático e calculei
que seria impossível servir almoço para toda aquela multidão sem que
acontecesse por ali o milagre da multiplicação dos pães e peixes, talvez camarão
ou quem sabe caranguejos. Observando com cuidado dava para perceber que boa
parte esperava mesmo por um milagre, mas pelo comportamento, acho que o Mestre
teria ido logo cedo para a outra margem do mar do atlântico.
Muito parecidos com templos religiosos,
os restaurantes escalavam seus ministros para receberem os visitantes na porta
convidando-os a entrarem onde eram recebidos com alegria e júbilo, participavam
do ritual dos pedidos, depois de ingerirem muita bebida muitos confessavam
publicamente seus pecados, se fartavam de comida até transbordar e por fim
deixavam na maquininha do cartão as suas ofertas abundantes.
Estávamos sem nenhuma pressa, o casal
de idosos e eu, eles com suas bebidas e o celular, eu com eles. Meu almoço foi
servido, olhei para a mesa ao lado, outro atendente servia uma panela de barro
da qual nossa talentosa personagem tirou um caranguejo e foi destruindo no modo
esquartejador, primeiro com as mãos e depois com um Socador. Finda a
caipirinha, veio a cerveja e eu, que tomava água mineral, fiquei pensando que
aos oitenta vou querer uma caipirinha e caranguejo com cerveja, se o destino me
presentear uma velhinha de companhia. Talvez eu volte para Natal!
Hoje estou em Campo Grande, cidade
Morena! por uma noite, amanhã me vou para o nascimento, não o meu, Natal, no
Rio Grande do Norte, só que para chegar aqui, na Morena, vindo de Dourados,
claro, tinha que ter uma parada na Água Rica. Os douradenses sabem muito bem o
que é esse lugar, ninguém vai à Campo Grande sem parar na Água Rica, lugar meio
mágico, lá tem, com certeza, a melhor Chipa
do mundo! O que é Chipa? Todo Sul Mato-grossense sabe, o resto do mundo acho
que não. Um dia eu estava em Brasília e pedi para a garçonete: dá uma ‘chipa’,
ela disse: O quê?
Quisera eu voltar ao tempo em que
parei pela primeira vez na Água Rica, ah, quem dera! Tinha eu então vinte e
dois anos de idade e me ia num Maverick
lotado de sonhos entre Campo Grande e Iguatemi onde meus pesadelos se
transformariam em literatura pela primeira vez. Aquele lugar no meio do nada
poderia ser só uma lanchonete no meio do caminho, não era, era a Água Rica! Meus sonhos de juventude se
transformaram em escritos no jornal A
Notícia e os cinco livros adquiridos em Iguatemi se multiplicaram na
biblioteca de Amambai onde virei quase literalmente um ‘rato de biblioteca’.
Jorge Amado me levou ao comunismo e este a muitas viagens à Cidade Morena, e
cada viagem a uma parada na Água Rica: duas chipas e um pingado, café com
leite.
Tomei um pingado e perguntei a idade
da Água Rica: 63 anos! Os poetas todos que conheço, todos, comeram chipa lá. Muitos comunistas, durante a
ditadura que tolerava a lanchonete, mas não as ideias; mitos cronistas que
driblavam a censura que parecia nada entender de figuras de linguagem; alguns
filósofos que insistiam em pensar quando isso era definitivamente proibido e
até músicos que teimavam em ver o dia ser novo apesar de você!
Depois do pingado, entrei na Van como
entrara dezenas de vezes na Parati do sindicato dos bancários quando era
diretor da CUT MS. Todas segunda-feira saia atrasado de Dourados para chegar
cedo em Campo Grande. Não tinha essa loucura de trânsito e andar a cento e
setenta por hora era, digamos, natural para um revolucionário que tinha pressa
em fazer a revolução! Uma senhora, talvez idosa, calculei uns sessenta anos de
idade, sentou-se ao meu lado e não parava de passar o dedo indicador pela tela
do celular parecendo adolescente.
- Ooooi, bibibijuju, ela disse para o
celular, onde aparecia uma imagem de criança. Que linda, titia tá com saudades,
ela dizia para o telefone sem se importar comigo no banco ao lado. Não pude
evitar a indelicadeza de olhar para a telinha, Julinana, do outro lado do
telefone, parecida nem se importar com a encenação da tia, enfiou o dedo no
nariz à procura de uma caquinha
qualquer e deixou o dedo lá até que a tia pediu pela n-ézima vez para ela
tirar, não tirou e a tia achou ela a sobrinha mais linda do mundo! Um minuto
depois e eu olhava a paisagem que passava em alta velocidade pela janela da Van
quando pensei estar alguém falando comigo, virei-me imediatamente para dentro e
outra vez olhei quase sem querer para a imagem no smartphone e a minha vizinha de assento falava com a mãe, era um
recado do Pedrinho. Aí lembrei do Pedro Vitor, meu filho, mas não liguei para
ele. Água Rica estava ficando para trás, mas a riqueza da vida fluía em alta
velocidade!
Dia 27 de setembro aconteceu um
debate com as lideranças indígenas e o foco eram os jovens associados da AJI-
Associação dos Jovens Indígenas das Aldeias de Dourados. Esse evento faz parte
da mobilização anual que ocorre sempre em setembro para que se alcancem os
Objetivos do Desenvolvimento Sustentável definidos pela Assembleia Geral das
Nações unidas.
Eu tive a alegria de ser um dos
poucos convidados a assistir calado a cada uma das falas dos representantes dos
povos originais. Fiquei sabendo, por exemplo, que o Brasil é um dos países que
têm o maior número de línguas indígenas do mundo. Conheci a Graciela Guarani
que é, talvez, a mais importante cineasta indígena da atualidade. A Lucimar e a
Tatiane que são assistentes sociais e fazem um belíssimo trabalho nas Aldeias.
A Diana e a Rosilene que são professoras e outros vários participantes, todos
com seu saber e, ficar calado, para mim não foi nenhuma dificuldade, as duas
horas do debate passaram muito rapidamente e só no final, no finalzinho mesmo,
dei um pitaco de opinião.
Os jovens indígenas da AJI, através
das suas lideranças, nos trouxeram para o debate, talvez a sua mais dura
realidade. Herdeiros de povos de vida livre e historicamente preservadores da
natureza, das quais sempre tiraram seu sustento, esses jovens agora são nascidos
em Aldeias devastadas, não há matas, falta o alimento e até a água. O contato
com o “branco” é inevitável. Daí entram para as Aldeias as doenças, as drogas
ilícitas, a exploração da mão-de-obra, o preconceito, a miséria, a
criminalidade, a política partidária, a violência e até o ódio de quem gostaria
de lhes tirar até esta que é a última reserva de terras que lhes abriga o
sonho.
Acrescentei aí acima alguns itens por
minha conta. O debate foi de altíssimo nível e tratou de questões essenciais
aos povos nativos. Dentre os temas apresentados para se visualizar uma
perspectiva à essa juventude, o reflorestamento parece ter alcançado
unanimidade, até porque essa palavra pode ter seu significado ampliado, além do
plantio das árvores para devolver ao ambiente seu estado original de mata,
também se pode pensar em reflorestar as ideias, devolvendo ao povo seu estado
original de preservação da natureza e convivência equilibrada com os demais
habitantes do ambiente, os outros animais, aves, peixes, insetos, enfim tudo
que a natureza produz e com o que vive em harmonia.
Quando me deram a palavra, no último
minuto, o Itacir, um dos coordenadores, me apresentou, dizendo que eu era escritor e poeta. Imediatamente me
apropriei do debate e gastei meu minuto pensando alto e aí acabou o tempo e eu
continuei pensando até de madrugada sobre esse tal reflorestamento. Sim,
haveria de ser um reflorestamento com muitas árvores, frondosas para sombra e
abrigo dos animais e aves; frutíferas para alimento; floridas para embelezar o
ambiente e alimentar o beija-flor e dar sustento às abelhas; arbustos para
proteção do solo e abrigo aos animais rasteiros.
Seria necessário que o
reflorestamento invadisse as pessoas para que estas pudessem reaprender a viver
livres na natureza. Livres de quê?? Da razão, pecado original descrito no livro
de Gêneses quando Eva e Adão comeram do fruto da árvore do conhecimento e foram
expulsos do Jardim. Reflorestar é a possibilidade de voltar ao Jardim. Só os
jovens da AJI podem fazer isso, os “brancos” estão tão contaminados com a
racionalidade que não suportam a ideia de preservação ambiental.
Reflorestar as ideias também é saber
que no entorno estão os inimigos, beligerantes, estúpidos e absurdamente
arrogantes. Sim, os “brancos”. Decididos a eliminar o último bastião de
floresta, não saberão jamais o significado de reflorestamento até que a última
gota d’água seque na última raiz de planta vendida em commodities internacionais. O homem “branco” expulso do Jardim do
Éden, fatalmente sofrerá dos males do Apocalipse.
De repente fiquei me perguntando: Por
que eu estava lá? Talvez como Cazuza, que dizia que a burguesia fede e que ele
também era burguês, mas era poeta; não sei, talvez: Ser poeta, para Cazuza pode ter sido a sua tomada de consciência de
que os seus burgueses já estavam apodrecidos, fedendo. Quem sabe este “branco”
não tenha descoberto a mesma coisa. Pois bem, Cazuza, eu sou branco, mas sou
poeta!
Estou pensando em tirar umas férias e
já comprei as passagens e até fiz a reserva do hotel. Disse isso a um amigo e
ele me perguntou, com uma certa cara de espanto, se eu estava trabalhando,
disse que não, não formalmente, mesmo assim quero tirar férias. Férias de quê?
Perguntou. Ora, férias é exatamente quando não se precisa ter um “que”, “de quê”,
“por quê”, ou seja lá o que for. Em vez de ficar me questionando sobre
trabalho, por que não pergunta por que não vou levar uma mala que caiba pelo
menos o skate?
Da última vez que viajei com meu
filho, fomos para Aracajú, em Sergipe. Lá tem, na orla da praia, um conjunto de
quadras de esporte e uma belíssima pista de skate, tive que comprar um para meu
filho e quando chegamos no aeroporto, para embarcar de volta, ninguém sabia o
que fazer com o brinquedinho, na mala não cabia, estava cheia, na mão não podia
levar, mas como não tinha essa bobagem de limite de dez quilos, o atendente do
guichê achou por bem amarrar o skate sobre a mala com alguns metros de fita
adesiva, ficou uma graça, mas o brinquedo chegou são e salvo.
Quero ir para Natal, no Rio Grande do
Norte, e a operadora do pacote de viagem foi logo avisando que a bagagem tem
regras que devem ser lidas no site da empresa aérea. Fui ver, diz que posso
levar uma mala de mão com não sei quantos centímetros de comprimento, largura e
altura e pesar no máximo dez quilos, com mala e tudo que tiver dentro. O skate
não cabe na tal mala e se coubesse eu ficava sem roupas para usar durante o
passeio. Pensei em pagar para despachar uma mala maior, fui pesquisar e vi que
posso, é só pagar a passagem da mala e tudo bem, só que não tem assento para ela.
Mas daí achei outro problema, o pacote de viagem inclui transfer do aeroporto
até o hotel. Mandaram ler as regras e eu vi que se despachasse a mala, ela não
seria levada do aeroporto para o hotel, nesse trecho, nem pagando passagem para
a mala, eu teria que ir para o hotel com a mala de mão, depois contratar um Uber
para levar a mala, ou deixar ela no aeroporto até a volta.
Não sei que pensamento é esse que vai
sempre dando um jeito de tirar o conforto dos passageiros. Quando comecei a viajar
de avião, e não era nem de férias, era a trabalho, podia despachar malas enormes
sem nenhum incômodo e era até divertido esperar para pega-las no destino. As
refeições eram servidas em bandejas enormes com tigelas de porcelana e talheres
de metal, devo ter algumas comigo que peguei de lembrança. Servia-se bebidas a
vontade, bebidas sim, uísque, cerveja, vinho, refrigerante, etc. e não era
primeira classe que trabalhador não anda nisso. Agora, a moça passa e pergunta
se a gente quer um salgadinho ou uma bolacha.
Não estou trabalhando, mas me dei ao
trabalho de fazer uma pesquisa sobre isso. Queria saber o motivo desse
comportamento nas empresas aéreas. A resposta foi animadora: tirando as
refeições, as bebidas e as malas dos passageiros, as passagens ficariam mais
baratas e o consumidor teria então a vantagem de viajar mais. Fiz os cálculos:
Bebidas e refeição durante uma viagem, uns trinta reais, a passagem da mala, uns
cinquenta reais, o que dá de economia oitenta reais. Uma passagem para o
nordeste custa uns dois mil reais. Então, se eu economizar oitenta reais em
cada viagem, para eu poder viajar “mais”, pelo menos uma vez, eu teria que
primeiro, ter viajado umas vinte e cinco vezes! Sem mala, nem refeição e nem
bebidas.
Sério, eu prefiro as malas!
Eu sou só um escritor. As pessoas me
contam histórias e eu não me importo se elas são inventadas ou verdadeiras
porque quando elas me contam, na cabeça delas as histórias são muito
verdadeiras. Quando são contadas pessoalmente dá para notar na expressão das pessoas
o tanto que aquilo faz sentido quanto o relato acontece. E essa que vou contar
a seguir me foi contada pessoalmente e eu acredito que foi verdadeira porque o
semblante, os gestos, o sorriso e até al lágrimas testificaram a verdade da
história. Mas eu não estou interessado se era verdadeira ou não. O que importa
é a história que eu vou contar.
Meu nome é Quinto, ele disse. Meu pai
queria ter cinco filhos, o primeiro nasceu e foi batizado com o nome de Primo,
depois veio a Marlene, daí os gêmeos Mario e Maria. Eu nasci e meu pai foi ao
cartório para me registrar, o cartorário perguntou pelo nome e ele estava feliz,
disse que ia ter cinco filhos e a meta fora alcançada eu era o “quinto”. O
cartorário não perguntou mais nada.
Na minha infância, continuou, eu
sempre fui muito tímido, na adolescência também, mas isso não interessa. Agora
sou adulto, já tenho emprego e vivo no meu apartamento por minha conta. Tenho
trinta anos e só agora encontrei a garota dos meus sonhos. Ela é linda! Sempre fiquei
sozinho, em casa, ou seja lá onde quer que eu fosse numa festa, sempre estava
só. Logo que chegou, dei-lhe o nome de Shepe que um site da internet, mas agora
eu a chamo de Morta. Não é uma morta
qualquer dessas que se não enterrar logo começa a cheirar mal. Não, a minha Morta
é uma morta que acabou de morrer eternamente.
Depois que comprei a Shepe, duas
colegas do escritório onde trabalho quiseram saber se eu namoro com ela. Sim,
eu disse, comprei ela para dormir comigo, ela é minha namorada! Acho que elas
ficaram com ciúme, mas não tem nenhuma necessidade, eu nunca fui namorado
delas. A Celeste até falou que queria namorar comigo. Não quero, eu disse,
agora tenho a Shepe. A Shepe, ela disse, é morta! Não tem importância, eu
disse, acho que ela sendo morta pode ser até melhor. E, eu gostei de trata-la por
morta. Gostei tanto que daí em diante
passei a chama-la assim.
Quando saio do escritório, tenho
pressa de chegar em casa e saber se minha Morta ainda está lá à minha espera.
De manhã, antes de sair deixo ela confortavelmente sentada sobre umas almofadas
a um canto da cama contra a parede e coloco um livro aberto sobre suas mãos
para que ela não fique entediada pelo dia todo da minha ausência. Chego em casa
ao entardecer, tomo-lhe o livro e vamos juntos tomar um banho na banheira.
Semana passada recebi a visita do
João e a Mara. Eles são casados há uns dez anos e nunca tinham vindo me
visitar. Agora vieram e eu estava jantando com a Morta quando a campainha
tocou. Eles riram de mim e acho que não entenderam porquê eu jantava com a Morta.
Pedi que sentassem e coloquei mais dois pratos e repartimos a comida que era
mesmo suficiente pois eu gosto de fazer comida a mais, daí sobra para o dia
seguinte. Durante o jantar eles queriam falar somente da Morta, tentei mudar de
assunto, mas eles sempre diziam: ‘A tua morta,
ela é boa companhia?’, ou coisas assim. Eu respondia que sim com a maior
naturalidade. Só pararam de falar da minha Morta quando a Mara desconfiou que
seu marido havia mentido para ela sobre qualquer coisa que não entendi. Ela olhou
para ele com aquele olhar que a Morta nunca fez para mim e ficou longo tempo em
silêncio dando empurrõezinhos na cadeira para se afastar dele.
Depois que eles se foram, a Mara saiu
na frente quase sem se despedir enquanto o João tentava disfarçar, eu bati a
porta e liguei o computador numa dessas rádios pela internet que toca música
romântica, estava tocando Lullabay. Convidei
a Morta, daí dançamos e o rádio cantou mais e mais músicas, então levei a minha
Morta para o quarto e fizemos amor. De manhã, quando deixei a Morta sobre as
almofadas com o livro do Camus, fiquei pensando na Mara, será que fizera amor
com o João?
Josenildo é desses sujeitos que se pode chamar de douradense da gema! Seu bisavô fora soldado na Guerra do Paraguai, lutou ao lado de Antônio João na Retirada da Laguna, que ficou conhecido como o Combate da Colônia Militar de Dourados. Foi uma batalha difícil onde apenas quinze valorosos soldados brasileiros enfrentaram três mil e quinhentos paraguaios, morreram todos e os paraguaios ocuparam a colônia militar.
Foi bem aqui, dizia Josenildo ao lado
da estátua do herói da Laguna, foi bem aqui onde está a estátua do Antônio João,
que meu bisavô morreu lutando pelo Brasil. A estátua fica na praça central da
cidade de Dourados a uns 170 quilômetros de onde ocorreu a tal batalha, mas
nada disso importa para o bisneto do herói desta nação. Josenildo quer mesmo é
se casar e o sangue do heroísmo de Laguna que lhe corre pelas veias, pode bem
ajudar, não pode? Melhor casar que viver abrasado!
A viúva do bisavô Juanito teria
chorado a morte do valente marido até o exército brasileiro liberar o pagamento
das pensões às viúvas de militares mortos em combate, ou não. Marli Ojeda,
viúva de Juanito, decidiu nunca mais se casar para não perder o direito, mas teve
outros três maridos informais e do terceiro nasceu José Ojeda, avô de
Josenildo. Depois de ser condecorado por três vezes durante as comemorações do
aniversário da heroica Retirada da Laguna, José casou-se com a paraguaia
Marilisse de Atagua. O Prefeito de Bela Vista propôs à Câmara de Vereadores a
cassação das homenagens. Aprovado por unanimidade, José não compareceu para
devolver os diplomas, fugiu com Marilisse para Ponta Porã onde, dizia, poderia
facilmente atravessar a fronteira e seria herói de um país estrangeiro.
Em Ponta Porã lhe nasceram quatro
filhos: Ramon, Rodrigues, Júlio e Pablo, este muitíssimo aplaudido quando desfilou
vestido de Antônio João pelas avenidas da cidade num 7 de setembro. Era ano
eleitoral e Pablo foi eleito vereador. Em discursos inflamados exaltava o heroísmo
dos bravos soldados liderados por Antônio João. Logo o reconheceram como o
herói da Pátria e elegeu-se facilmente prefeito com o apoio do ainda incipiente
comércio ilegal de produtos contrabandeados do Paraguai para o Brasil.
Não podendo conciliar a legalidade
exigida pelo mandato e as concessões ilegais exigidas pelos traficantes, caiu
em desgraça. Fugiu para o Paraguai levando consigo as menções honrosas concedidas
ao seu Pai José em Bela Vista. Lá lhe nasceu Josenildo à uma pobre paraguaia
pestilenta que lhe servia as refeições e limpava a casa, além de atender-lhe os
desejos sexuais. Pablo morreu miserável deixando a pobre serviçal sem seu
emprego e ainda grávida. Ao lhe nascer o filho, pôs-lhe o nome de Josenildo,
este cresceu com graça e alguma sabedoria, mas era feio tal qual a mãe. Aos
catorzes anos decidiu recuperar a honra da família, juntou os méritos concedidos
ao seu avô José e rumou à Dourados, disposto a se casar e tornar-se político
influente.
Dia após dia punha-se na praça denominada
Antônio João, ao lado da estátua do herói em discursos patrióticos à espera da bem-amada
que lhe seria a esposa até que a morte os separe. Na semana da pátria, enquanto
fanáticos bolsonaristas desfilavam seus carros de luxo, um anjo lhe apareceu ao
lado da estátua. Era o anjo da medida de uns três metros, um pouco maior que a
estátua de Antônio João, por isso Josenildo lhe respeitou quando pôs à frente a
mão direita com o dedo indicador ao rosto do bisneto do heroico soldado e lhe
disse com voz segura:
- Três mentiras hão na tua história;
primeira: Teu bisavô Juanito era paraguaio; Segunda: A Colônia Militar de
Dourados nunca foi em Dourados, mas em Antônio João que fica a 170 quilômetros
de Dourados e, finalmente a terceira: tu és muito feio, como tua mãe, e nunca
te casarás!
Mal o anjo se foi e os olhos de Josenildo
ainda estavam postos nas nuvens quando Milena, uma das mulheres mais lindas da
cidade, bandeira do Brasil aos ombros, tomou sua mão e, olhos molhados, mãos trêmulas,
mal conseguiu gaguejar:
- Você é Josenildo? Bisneto do herói da Pátria? Casa-se comigo?
Desde fevereiro deste ano ando cumprindo missão no Paraná, mas volta e meia, venho para Dourados onde tenho meus filhos e trinta e seis anos de história. Não tenho casa aqui, mesmo tendo duas. Quer dizer, não tenho moradia, já que levei a mudança, dado que a missão deve se prolongar por um tempo ainda não definido, então, quando venho à Dourados, hospedo-me em algum hotel. Da última vez, fiquei no Alphonsus, que agora não mais se chama Alphonsus, mas Bravo City Hotel, uma rede de hotéis que jura vai revitalizar o Alphonsus e, parece, já implementaram algumas melhorias em áreas importantes como a academia e a sauna, além de outras que não me chamam muito a atenção.
Estou fazendo propaganda do Bravo
City? Sim, tanto quanto faço da cerveja bohemia! Não tenho nenhum compromisso
com um e nem com outro, só gosto de gastar um tempo com quem me faz bem. Já
fiquei hospedado no Ellus, no Figueira Palace e estou com vontade de reservar o
Delírio Motéis e Pousada ou quem sabe o Céu do Mato - Eco Hostel para próxima
viagem que já se aproxima, mas tem algo que no Bravo City parece peculiar.
Fiz a reserva pelo Booking.com, e
booking significa exatamente reserva, então, fiz a reserva no reserva.com. Deixemos os estrangeirismos de lado e vamos ao
que interessa: Nem todos os hotéis podem oferecer o mesmo atrativo que o Bravo
City! Além do atendimento que, como em todos os hotéis é cortês, um café da
manhã bom e apartamentos aconchegantes, tem uma piscina com atrativos que só
ali pude constatar. Muitos hotéis em Dourados nem piscina tem e eu acho isso um
diferencial, não porque me deleite em me banhar em águas frias de piscina, mas
porque gosto do ambiente para escrever minhas crônicas que vão diretamente da
piscina para o meu blog e o Jornal Folha de Dourados, onde publico meus
escritos.
O site Booking.com pediu para eu
avaliar o hotel e dar algumas dicas da viagem para divulgação a outras pessoas
que possam eventualmente se interessar por Dourados. Pensei imediatamente em
dizer que Dourados é o lugar onde o tempo pode deixar de existir quando se toma
uma bohemia na beira da piscina em companhia da belíssima Marina, exclusividade
deste lugar. Pensei também em dizer que esta cidade, que se chama Modelo, tem
tudo par ser uma das mais mal administradas que conheço, políticos corruptos e
comerciantes gananciosos, mas seria redundância. Então me lembrei da piscina do
hotel e da Marina, que não está disponível para quem quer que se interesse em
fazer turismo por esta cidade.... Modelo! Ela só não é exclusiva por causa do
Mia Couto, impossível concorrer!
Mesmo não sendo um escritor admirável,
me dispus a escrever na piscina do Alphonsus, ou Bravo City, como quiser. Mal comecei
minhas mal traçadas linhas e um Urubu, isso mesmo, um Urubu, veio voando em
direção à piscina e pousou sobre a viga acima da grade, olhou-me com algum
interesse que não compreendi muito bem, desceu até o piso, andou como se
desfilasse e aproximando da água, bebeu como quis, olhou-me outra vez como a perguntar
qualquer coisa e foi-se embora.
Onde, eu pergunto, um Urubu é atração
turística se não na piscina do Bravo City Hotel?
Hoje, vi na televisão que se deve
economizar energia elétrica porque os preços aumentaram. Quase me incomodei. Deixei
para lá, afinal o sistema político e econômico é liberal e nesse modelo de
governo, cada um ter liberdade de fazer como quiser. O governo diz que a culpa
é de São Pedro que tomou a liberdade de não mandar as chuvas necessárias para
encher os reservatórios, assim, além de economizar luz também se deve
economizar a água. Aí tudo faz sentido, o segredo é não tomar banho!
O que eu não entendi bem foi a atitude
de São Pedro. O Brasil está sob o comando de um governo terrivelmente evangélico,
que se diz fiel seguidor da palavra divina e de todos os seus preceitos. Sendo são
Pedro o chefe da portaria do Céu, certamente conhece muito bem a literatura
celestial e, sendo ele mesmo o comandante das torneiras, deixa nosso país,
terrivelmente evangélico, sem as chuvas temporais e até mesmo a serôdia.
Haveria de São Pedro ter reivindicado cargo no governo e o Centrão recusado?
Mesmo o presidente tendo dado
mostras, em tempos pretéritos, de que seria ele quem manda, agora, na prática
já não manda mais. O presidente, no caso, o da Câmara dos Deputados, o Arthur
Lira é, de fato, o chefe de governo. Nem sei porquê escrevi deputados com letra
maiúscula. Teria ele dado um golpe de estado e deixado uma figura decorativa no
planalto? Bem, pelo menos em termos de nomeações de assessores disso, daquilo e
daquiloutro parece que sim, o Lira indica e o Bolsonaro diz sim, sim e assina a
nomeação com a caneta Bic.
No dia da Independência, os
dependentes agro negociantes vão à Brasília dar seu grito de dependência! Nunca
antes neste país se distribuiu tanto dinheiro a pessoas tão ricas! Não vi os
termos do acordo entre governo e o agronegócio, mas suponho que talvez se
ofereça um carguinho qualquer ao chefe da chuva. Talvez uma filiação ao PP com
promessa de vultosos recursos do fundo eleitoral, sei lá. Se não tiver acordo
desse governo com a equipe de São Pedro, o agronegócio sai do apoio, isto é certo.
Não adianta financiamento barato e preço alto de mercado se não tiver produção!
E a televisão noticiou outra vez que
é necessário economizar energia. Fez até uma reportagem mostrando uma casa de
pessoas bem pobres que só tem duas lâmpadas dentro de casa e, se desligarem
uma, não tomarem banho e nem abrirem a geladeira mais que duas vezes no dia,
então o governo dará um desconto na conta de energia.
As pessoas mais pobres precisam
economizar, disse o repórter, para que não falte para os ricos que precisam
ligar o ar condicionado para ter conforto para sua família, seja de dia ou de
noite. Ah, isso o repórter não disse!
Antes de começar a escrever este conto,
devo dizer que sou Cristão, ainda que eu não siga nenhuma denominação em
especial. Também diria que sou Crente, esse nome que dão para crentes não
católicos romanos, ainda que discorde veementemente de muitas denominações que
se autodenominam evangélicas, mas que mais parecem empresas capitalistas e que
não têm nenhum pudor em adorar a dois deuses ao mesmo tempo, ainda que a bíblia
o proíba. Dito isto, vamos ao texto propriamente.
Eu tenho um amigo que mora num país
Sul Americano e ele diz que por lá as igrejas são muitíssimas ricas. O segredo,
disse, está na liberdade religiosa. Não me espantei, pois aqui no Brasil também
temos liberdade de organização religiosa e igrejas muito ricas, ao que ele
acrescentou o que seria o tal segredo. O segredo, repetiu como se fosse
realmente algo muito secreto, é que lá no meu país, qualquer um pode abrir uma
igreja, fazer-se pastor, cadastrar na Receita Federal e com o CNPJ em mãos
reivindicar até o terreno junto ao poder público sem ter que pagar nada, e daí
vender a promessa do Céu para aqueles que pagam o dízimo e pronto, logo a igreja
se enche de esperançosos miseráveis, assim como enche também a conta bancária
do pastor.
Como falava à sério, cenho franzido e
tudo, pensei tratar-se de um pequeno país administrado como um fazendeiro cuida
de uma fazenda de gado. Sim e não, disse. O presidente administra mesmo como se
fosse uma fazenda de gado, ele berra para um lado, grita para o outro e o gado
o segue fielmente, mal sabe que vai para o matadouro. Mas, não é um pequeno
país, é um dos maiores do continente, prá lá de duzentos milhões de habitantes,
incluído os bovinos que seguem os gritos e os berros!
Perguntei-lhe sobre o governo do país
e sua relação com as igrejas, já que aqui isso parece tão evidente. Respirou
fundo, ergueu as mãos ao ar em pequenos círculos, olhou-me com aquele olhar
intrigado de quem quer, não querendo, responder uma pergunta, fechou a mão
esquerda diante de si e com direita espalmada em direção ao meu peito, afirmou
com segurança e tristeza no olhar que, se não fosse o Superior Tribunal
Federal, o presidente já teria colocado placa de igreja em frente de seu palácio
e se autonomeado pastor titular da igreja com o nome do país. Pelo sim, pelo
não, apresentou uma reforma tributária prometendo instituir o dízimo. Para ser
ministro, disse, não importa a idoneidade, basta ser terrivelmente evangélico!
E o povo, perguntei, está feliz?
Feliz? Sim. Os banqueiros e os latifundiários estão felicíssimos! E o gado
pasta! Pensei ser isso uma metáfora. Não é possível que banqueiros e
latifundiários paguem o dízimo. Não!!! Quase berrou. Banqueiros e
latifundiários não pagam impostos, eles são tidos por deuses, são adorados pelos
do povo. Quando um destes aparece em público, o que é raro, normalmente ficam
reclusos em seus templos, mansões, resorts, casas de praia, fazendas, etc., mas
quando aparecem no meio do povo são reverenciados como a santos da igreja
católica, o povo põe-se de joelhos diante deles.
Então perguntei: E os católicos, por
lá devem ter muitos, eles também adoram deuses relacionados às riquezas? Eu sou
suspeito para dizer, falou abaixando a cabeça. Não me confesso católico, mas,
se Martinho Lutero voltasse, seria imediatamente mandado vivo para a fogueira,
tamanho é o empenho em vender objetos santificados pelas redes de televisão da
igreja.
Dito isso, danou a chorar como
criança. Chorou um vale de lágrimas. Depois de algum tempo em silêncio, tomamos
de um livro de Albert Camus e conversamos por um longo tempo sobre o
absurdismo.
Maria Clara tinha dezoito anos quando se casou. Seus cabelos castanhos, ondulados até o meio das costas, estavam guard...