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quinta-feira, 27 de março de 2025

O COMBUSTÍVEL QUE QUEIMA O DESTINO

 



Quando minha mãe era ainda uma adolescente, uma Cigana leu o seu destino e vaticinou que ela morreria antes de completar setenta e oito anos de idade. Quando Dona Helga celebrou o septuagésimo oitavo aniversário e a morte não veio, pensou que talvez tivesse se enganado e, invertendo os algarismos, em vez de setenta e oito, a data fatídica seria, então, oitenta e sete. Por mais de setenta anos o fogo desse vaticínio queimou a vida de uma mulher religiosa. Como pode uma superstição ser mais ardente que uma fé em um Deus todo poderoso? Isso eu não sei, o que eu sei é que no dia 18 de novembro de 2021 nós celebramos como bolo e cerveja a vitória da vida sobre a estupidez.

A vida sempre vence, até que a morte lacra o destino final. Até lá, há sempre um fogo queimando o combustível do destino. E não importa por quanto tempo ou quão rápido queima o combustível, importa mesmo é quanto de combustível temos e, principalmente quanto dele vamos queimar até descobrir uma nova fonte de energia que nos mova para uma nova direção. O Sol que nos queima a pele a cada dia está a aproximadamente 150 bilhões de quilômetros de distância, queima tão forte que a luz solar demora menos de dez minutos para percorrer essa distância e iluminar nossos passos em rumo ao destino que nos espera enquanto queimamos uma energia que não sabemos muito bem de onde vem.

Às vezes o combustível é feito de esperança.  Enquanto temos combustível, vemos aquilo que esperamos ou desejamos. Esperança é um combustível poderoso que nos leva a distâncias incríveis, mas às vezes acaba antes de alcançarmos o ponto de chegada e ficamos derrotados pelo meio do caminho estorvando outros que desejam correr a mesma corrida e ora um ora outro se enrosca em nossa desfortuna e desperdiça, por nossa conta, o precioso elemento impulsionador da vida.

 Às vezes é a fé que enche o tanque da alma, delineando caminhos de salvação ou perdição. Movidos pela fé podemos mover montanhas ou alimentar demônios. Pela fé ouvimos a voz do Senhor num cicio do vento ou a do pastor ganancioso em ensurdecedores alto-falantes. Lá nos postos de combustíveis dizemos que o combustível batizado gera lucros para os donos e atemoriza os consumidores, em muitas instituições os fiéis são batizados para gerar lucros pelo terror do inferno, em outras são abastecidos do mais precioso combustível que leva ao Céu.

Que vasta variedade de combustíveis nos abastecem a cada dia! Amor, ódio, poder, ganância, humildade, desejos, paixões, medos, ansiedade, ... . Em 66 anos me abasteci de quase todos esses tipos de substâncias que queimamos para produzir calor emocional, cada um me conduzia para um destino e eu acabei no meio do caminho olhando para os lados na esperança de achar um atalho que possa me levar a um porto seguro. Que tamanha multidão se encontra comigo!

Um minuto-luz é a distância que a luz do Sol percorre em 60 segundos e equivale a aproximadamente 18 milhões de quilômetros. Já não tenho mais muito tempo, mas se eu tiver pelo menos um minuto-luz do combustível da fé verdadeira eu posso chegar ao Céu da minha existência. Quem vem comigo?

quarta-feira, 19 de março de 2025

SEM VONTADE DE ESCREVER

 



Às vezes perco totalmente a vontade de escrever. Para que servem as palavras? Elas são ditas ao vento e colhidas de um modo esdrúxulo, quase incompreensíveis e transformadas em textos supostamente bíblicos nas bocas de um sacerdócio estapafúrdio.

As palavras tinham valor quando eram seletivas e dominadas por intelectuais que se davam ao respeito. Mas, desde os tempos Pré-Socráticos elas se degeneram em falsas composições textuais a serviço de uma galera prostituta em busca de poder, riqueza e reconhecimento. Bastou à Sócrates questionar os Sofistas, os Teólogos e os valores gregos e darem-lhe uma dose mortal de Cicuta. O maior filósofo da história da humanidade não escreveu uma única palavra que fosse editada em um livro, tudo que se tem são as anotações do seu pupilo Platão.

A religiosidade que mata por causa da palavra já existia, como se vê, há cinco séculos antes de outro filósofo ser morto cruelmente pela interpretação distorcida da palavra que deveria salvar. Só o que se tem das suas palavras são referência a alguns rabiscos que fazia na areia da praia quando intercedeu pela vida de uma prostituta que talvez nem soubesse ler e seria apedrejada pelos conhecedores das falsas interpretações do texto bíblico. O filósofo da paz e do amor ao próximo tornou-se presidiário e foi torturado até a morte, morte de cruz, numa condenação pública patrocinada pelos líderes religiosos.

Daqui a pouco vamos celebrar a Páscoa e as ruas estão cheias de líderes religiosos gritando por anistia para um Barrabás tupiniquim. Sim, Barrabás, o original, era um salteador, ladrão e assassino, em seu favor gritaram os religiosos, aqueles que tinham conhecimento da palavra escrita. Há mais de quatrocentos anos antes de Cristo, um jovem ‘corropmpido’ pelas ideias do mestre Sócrates fundou a Academia mais importante de estudos universais, a Academia Platônica, considerada a primeira universidade ocidental. O pensamento mais famoso de Platão refere-se ao Mito da Caverna’, nela, as pessoas acreditavam que a sombra projetada na parede era a realidade da vida delas. Essas mesmas sombras são as Fake News atuais.

Para que servem as palavras? O Trump acabou de apresentar um projeto maravilhoso de construção de um RESORT na orla do mar mediterrâneo, um lugar paradisíaco para os milionários terem laser e luxúria à custa dos miseráveis. E por falar em miseráveis, para viabilizar o projeto é preciso expulsar daquele lugar todo um povo a quem se recusa historicamente o direito a uma pátria. Fundamentado na palavra de que Jerusalém será restaurada sob o domínio de Israel, acredita-se que não há nenhum problema como o genocídio promovido sobre um povo miserável e indefeso. Mas, tem só um problema, a Palavra diz que Jerusalém não será a mesma, a nova Jerusalém, descrita na Palavra, será realmente nova e descerá do Céu. O propósito dessa guerra esdrúxula é destruir o povo palestino e dar lugar à construção de um Resort para milionários e bilionários que nada tem a ver com as profecias bíblicas.

Mas, para que servem essas palavras que escrevo? Nada! São completamente inúteis.

domingo, 12 de janeiro de 2025

ACAMPAMENTO É UMA DOIDEIRA!!!

 


 


A ideia de acampar, por si só já é uma coisa boa, montar a barraca num lugar bonito, entre árvores frondosas, perto de uma grande represa com vista para uma praia tranquila, curtir o pôr do sol e esperar o amanhecer tomando uma cervejinha em boa companhia...



... Um verdadeiro Paraíso! Damos nomes a todos os animais que circulam pelo bosque ou se banhando nas águas mornas do lago de Itaipu. Os animais são domesticados, as aves são cantoras e as árvores fazem a harmonia das músicas toda vez que o vento balança os galhos e derruba as folhas num eterno desfile de papel picado imaginário. De manhã, quando se bota a cara amassada pela porta da barraca os olhos brilham com as mangas que caíram madurinhas durante a madrugada, vêm como vinha o maná dos hebreus, a cada dia, e não adianta guardar para o dia seguinte porque elas caem com data de validade para o mesmo dia, no dia seguinte só servem para atrair as moscas varejeiras. Senão guardar, tudo bem, o maná amanhece em frente da barraca outra vez!



Enquanto o chá espera o desjejum de frutas e cereais, a porta da barraca se abre para o bom dia que vem descabelado e sorrindo. Não tem nenhuma necessidade de pentear os cabelos, é a natureza me devolvendo o que era meu há pouco quando não tínhamos nenhuma necessidade das coisas comerciais, nem mesmo das roupas ou calçados, a natureza nos bastava e, agora que temos necessidade de roupas por causa dos vizinhos de acampamento, nos olhamos agradecidos por mais um dia feito só para nós dois. Ainda que os outros insistam em nos ver, eles não têm a menor importância, convivemos com eles como convivemos pacificamente com os pássaros e os outros animais que usufruem da natureza maravilhosa da Praia de Porto Mendes.



Desejamos estar no Paraíso e ali permanecer para toda a eternidade, mas é só procurar pelas coisas compradas nalgum comércio e que consideramos necessário para o dia que se nos apresenta gratuitamente pela providência divina, que começa o perrengue. Acampamento não é uma casa organizada, por mais que cuidemos para deixar tudo em algum lugar conhecido, ao procura-lo não encontramos nem por nada deste mundo, daí viramos todas as malas e caixas desarrumando ainda mais o que já era, digamos, uma bagunça organizada. No Jardim do Edem não havia nenhuma necessidade de malas e caixas e as coisas nunca estavam desorganizadas, simplesmente porque não havia coisas, só a natureza. Ah, quem dera o Jardim não estivesse fechado e o anjo que guarda a entrada nos permitisse ficar por lá por uma temporada eterna!

Nem só de manga vive o homem, então vamos almoçar num restaurante onde encontramos frutas e verduras produzidas com uma abundância de agrotóxicos, e uma grande variedade de comida gordurosa e frituras em óleo de soja reutilizado. Uma delícia de comida temperada! Faz mal, mas é muito bom!!! De lanche comemos deliciosos pães de queijo feitos sem nenhuma grama de queijo e bebemos cervejas feitas com milho em vez de cevada. Mas não reclamamos, decidimos que, se estamos acampados em meio à natureza, então todos os produtos são naturais, inclusive as verduras e os demais alimentos, tudo absolutamente orgânicos e, se algum mal nos sobrevier, vamos ao médico e ele que lute para nos curar, ele ganha bem para isso.

As águas da praia do lago estão aquecidas pelo sol escaldante do dia e mergulhamos nela como se usássemos óculos de realidade virtual, as nuvens refletidas na água nos fazem flutuar no espaço, nadamos de costas em nuvens de algodão e rodamos nossos corpos num espaço sem gravidade. Quando os pés tocam as pedras no fundo do rio, percebemos o lago e olhamos para o horizonte infinito onde o sol se põe, daí saímos apressados para fazer pose e guardar para posteridade esse sentimento de pertencimento às belezas incomparáveis da natureza. As imagens no celular nos fazem perceber que estamos entre dois mundos, basta uma mordida no fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal e seremos expulsos do paraíso.



Voltamos felizes para nossa barraca e percebemos uns carros estacionando por perto, uma fogueira foi acessa anunciando churrasco e o capô se abriu para a música sertaneja universitária que nada tem de sertaneja e muito menos de universitária, o timbre da voz nunca muda e as notas parecem gotas torturadas saindo do alto falante. Pegamos nossas cervejas geladas, duas cadeiras de praia e fomos apreciar o anoitecer na beira do lago. Duas horas de sofrência e eles se foram satisfeitos de tanta carne e cerveja temperados com a mais triste música do universo! A natureza agradecida nos recebeu de volta para mais uma noite de paz. Quando amanheceu, um maná de mangas amarelas com data de validade de um dia forrava o chão do nosso pátio.

Três dias vivendo as maravilhas do paraíso e já não sabíamos onde encontrar as mais simples coisas sem ter que revirar o acampamento. Foi nesse terceiro dia que descobrimos que o pior ainda estava por ser encontrado no meio dessa bagunça de vida. Tinha algo que nos incomodava e não era o carregador do celular que se escondera embaixo da mala na caçamba da saveiro, também não era a cantoria da galera do churrasco, menos ainda as moscas varejeiras que se deliciavam com os restos das mangas com prazo de validade vencidos. Não era chuva e nem tempestade. Haveria algo pior num acampamento à beira lago de Itaipu?



Pois havia, inacreditavelmente fatídico, o destino nos fez permanecer isolados no paraíso por mais uma semana. Os alimentos cultivados com agrotóxicos e gordurosos que comemos estavam aos nossos olhos e podíamos ter evitado, a triste música sertanoja estava aos nossos ouvidos e podíamos ter evitado, as mangas com data de validade podíamos jogar para longe, mas o que não se vê, não se ouve, não se sente, como evitar? Em algum lugar entre Dourados, Ponta Porã e Porto Mendes fomos contaminados com o vírus da COVID. Pois, no terceiro dia de acampamento sentimos um leve, mas persistente, sintoma de gripe, fizemos os exames e: POSITIVO!

Agora estamos condenados a viver no paraíso por mais uma semana, graças a Deus com sintomas muito suaves o que nos dá condições de fazer aquilo que lá no fundo do coração mais desejávamos: Ter um tempo só para nós!



O COMBUSTÍVEL QUE QUEIMA O DESTINO

  Quando minha mãe era ainda uma adolescente, uma Cigana leu o seu destino e vaticinou que ela morreria antes de completar setenta e oito ...