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segunda-feira, 28 de junho de 2021

O OURO VERDE E AS ESTATÍSTICAS DO GEBORENHAUS

             José Carlos Geborenhaus é um sujeito pacato que vive em uma localidade pequena do Paraná, na fronteira com o Paraguai, onde trabalha como cartorário. Parece que tem uma praga nesta região, ele me disse quando conversávamos na feira livre em Marechal Cândido Rondon, quando lhe entreguei um panfleto do meu Poesia Verde. Os poetas entendem melhor as coisas, disse gesticulando ao ar como a querer pegar algo até então invisível, pelo menos aos meus olhos. Só então deu mesmo atenção ao panfleto: Verde! É isso, tem uma praga e ela é verde, os agricultores chamam de Ouro Verde.

Cartorário de longa data, há pelo menos trinta anos, Geborenhaus é um daqueles sujeitos que busca por respostas o tempo todo. À quais perguntas? Não importa! Seus pensamentos estão buscando informações que ‘talvez possam ser úteis’. Assim, passara a dedicar tempo e esforço em pesquisar nos arquivos cartoriais de sua pequena cidade sobre o porquê de haver cada vez menos registros de nascimentos e casamentos enquanto que o de propriedades aumentava ‘aproximadamente’ na mesma proporção. Mais propriedades para menos proprietários!

Uma conversa dessas pede mais tempo, então saímos do meio daquele tumulto de gente que rodeava as bancas da feira e fomos para o outro lado da rua onde tem um barzinho e ali ficamos vendo o movimento de longe, enquanto comíamos pastel e meu amigo tomava uma cerveja, não me arrisquei, na volta teria que passar pelo posto da polícia federal na rodovia entre Marechal Rondon e Quatro Pontes. Pedi um café com leite que bebi em goles pequenos, estava bem quente, ótimo para uma tarde fria de inverno.

Meu novo amigo mal tocou nos pasteis, bebeu cerveja e falou na mesma empolgação com que trabalhava no cartório buscando informações para suas perguntas. Não citava números específicos, não me interessa quanto, mas por quê! Franziu a testa, olhou para o movimento da feira do outro lado da rua, balançou a cabeça de um lado para o outro informando um ‘não’ dos seus pensamentos, tomou o pastel, do qual comeu a primeira de duas mordidas que daria, tomou mais um bom gole de cerveja, pôs o copo sobre a mesa e, com o dedo indicador diretamente ao meu rosto disse: Esses caras estão virando relíquias! É isso! Esse verde das verduras e legumes não é o ouro! Então calou-se, abaixou a mão que me indicava, mas continuou com o dedo indicando um lugar qualquer no chão, aleatoriamente conforme respirava. Ficou alguns segundos em silêncio olhando para o infinito atrás de mim, encheu o copo de cerveja que tomou de um gole só, encheu outra vez, ergueu o copo em minha direção com movimentos mais expansivos que fizeram a cerveja derramar abundantemente por sobre a mesa, tomou o que restou e pôs o copo outra vez na mesa, sobre a qual apoiou as duas mãos para se erguer. Em pé, olhou em volta e, com os braços abertos finalmente revelou seu surpreendente entendimento acerca dos números cartoriais:

- Commodities, isso, são as commodities!


terça-feira, 22 de junho de 2021

UMA BOHEMIA NO FRIO

- Quanto você ganha para fazer propaganda de cerveja? Foi assim que eu descobri um leitor assíduo das minhas publicações. Até essa pergunta chegar ao meu perfil nas redes sociais nunca tinha ouvido falar desse senhor que, lendo meus textos ficara intrigado sobre a quantidade de vezes, aliás nem tantas! que eu cito essa marca de cerveja. Certo é que não ganho nada, aliás nunca tive qualquer contato com o fabricante da bebida além de remeter, indiretamente, certo valor em lucro toda vez que compro uma lata ou garrafa no supermercado.

Não posso negar que bohemia é uma das cervejas que eu gosto de beber, mas quando me refiro à essa marca nos meus textos isso é uma metáfora para dizer que uma cerveja na beira da piscina com uma companhia agradável é muito melhor do que ficar num escritório sonhando com o aumento de salário. Agora mesmo, exatamente em meu escritório, à uma temperatura de 13º centígrados, me permito uma bohemia e com certeza o significado da palavra que em bom português é quase um delírio num sistema social que discrimina quem busca liberdade, me traz exatamente esse desejo de ‘deixar prá lá’ os conceitos sociais para viver a liberdade que, no fim das contas, é próprio da natureza. Respeitar a natureza é essencialmente desrespeitar as razões do ser humano.

E eu, decididamente não tenho razão. Quando tentei ser racional fiz tantas bobagens que, melhor seria ter bebido uma bohemia e relaxado um pouco e deixado a vida me levar com mais leveza e cordialidade. São as regras! Justamente elas, que tornam a vida muito dura e, ainda que feitas para organizar a sociedade, acabam tirando a essência da vida. Desde a mais tenra idade me debati entre o rigor das regras e o desejo infinito de romper com elas.

Disse lá em cima, que era um senhor que havia me questionado sobre a publicidade da cerveja. Descobri-o depois de uma breve troca de mensagens. Me disse ele que não deveria eu fazer propaganda de bebida alcoólica. E ele está certo, se bem que muitas vezes nos valemos de alguma droga para fugir da realidade em que nos metemos enquanto seres sociais. Eu não tenho costume de beber bebida destilada, também não fumo e nem uso outras drogas viciantes. Um vinho, talvez, sim Seco ou Demi seco. Quase convenci meu leitor a experimentar uma cervejinha, Bohemia, claro, mesmo ele tendo se confessado membro de um dessas denominações assumidamente abstêmica. Que é que eu posso fazer, ele disse, talvez eu deva reler aquela postagem sobre o ‘não tempo’. Lá, continuou, você disse que: “não havendo o tempo, tudo que se faz não tem consequências. Vou consultar e meu pastor, talvez ele concorde, quem sabe até toma uma?

sexta-feira, 18 de junho de 2021

 

A MÚSICA QUE EU MAIS GOSTO

- Vou aumentar o volume, eu disse, esta é uma das músicas que eu mais gosto!

Minha mãe pôs a mão no ouvido, em forma de concha, para ouvir melhor. Aumentei o volume no máximo e a Rádio Ambiente Suprema me proporcionou um dos momentos mais emocionantes da minha vida! Aos poucos, a mão que ainda tem um braço com mobilidade suficiente para alcançar a cabeça com relativa facilidade, foi deixando o ouvido e indo para a mesa onde acompanhava a música com batidas suaves ao ritmo de ‘O Milionário’, os Incríveis. Seus olhos que, há mais de 31.700 dias apreciam este mundo, me olhavam e voltavam para a mesa como a ver a música e me dizer, não sei muito bem o que ela quer dizer, mas sei perfeitamente o que tu queres!

Uma música. Tem uma música que, se ouço, logo me volto para a janela do quarto da casa de meus pais onde na adolescência me debruçava olhando perdidamente as luzes da vila onde talvez estivesse a garota daqueles meus sonhos de juventude. Tem música que me lembra que ainda posso amar como amava quando ia aos bailes e encontrava a bem-amada e dançava com ela a última música só para poder ficar mais um tempo e ir com ela até o carro onde seus pais a esperavam ansiosos e confiantes e desconfiados ao mesmo tempo. Uma música me lembra que posso ter sentimentos, não importa a idade, ainda posso amar mais e até melhor do que na juventude quando a ouvia animado pelos hormônios da testosterona. Uma música hoje me mostrou que posso amar mais do que jamais amei na vida: O milionário, uma mão em forma de concha ao ouvido e depois batendo na mesa e um olhar me dizendo que sabe mais do que aquela música possa expressar.

Quando era adolescente aprendi a tocar Noite feliz no órgão do colégio interno onde estudava. Depois disso não aprendi a tocar mais nada, mas ouvi muitas músicas daquelas que se pode dizer que marcaram minha vida, tanto na juventude quanto na idade adulta quando ouvia Beatles, Pink Floyd, Queen, Credence, Bonnie Tyler, Suzi Quatro, Martinho da Vila, Chico Buarque, tantos outros e, claro Os Incríveis e sua belíssima música O Milionário. Saí da casa de maus pais aos treze anos de idade para nunca mais voltar para morar com eles. Quarenta e nove anos depois descarrego minha mudança na casa da minha mãe para cuida-la. Hoje, quando estávamos à mesa, liguei o rádio Ambiente Suprema, o som do seu melhor ambiente, quando tocou O Milionário, minha mãe foi tão generosa comigo permitindo que eu percebesse o quanto eu a amo.

De certa forma, o Milionário sou eu!


quarta-feira, 16 de junho de 2021

CRÔNICAS NOS TEMPOS DA PANDEMIA

Desculpe aí o trocadilho com o livro do Gabo, Gabriel Garcia Marques, mas crônicas são também um tipo de amor que sofre nestes tempos bicudos onde as pessoas só se encontram às escondidas e, se assim não for, não se veem, pois as máscaras escondem a beleza que sobra no rosto, já que o que se quer ver de verdade só anda livremente nas praias de Santa Helena que, nestes tempos de Covid são um risco maior do que as aventureiras descobertas da nudez, por si só já tão perigosas.

- Você bem que podia escrever uma crônica para mim, disse a garota, uns vinte anos, puxando a máscara para mostrar o belo rosto e deu uma piscada de olho, daquelas que faz qualquer um dar o que tem de melhor por um desejo imaginário que salta do cérebro sem nenhum pudor.

- Uma crônica? Perguntei por perguntar, talvez para ganhar algum tempo, respirar. Eu mal conheço você! Se me deres um bom motivo... Que poderia eu escrever para ti?

- Uma declaração de amor, você sabe como fazer, uma declaração de amor, repetiu. Eu preciso, é muito importante. Você é escritor e...

Uma declaração de amor. A garota quer uma declaração de amor. Um pedido desses deixa qualquer um confuso. Ela quer que eu faça a ela uma declaração de amor, ou ela que apenas ter uma declaração de amor. Anotei seu telefone e prometi que lhe enviaria pelo WhatsApp. À noite, depois de um vinho e um filme romântico da Netflix achei que podia finalmente escrever-lhe um texto que a fizesse se sentir amada, ainda que por uma pura fantasia.

Já não ando escrevendo há algum tempo, então recorri a Vinicius e achei a melhor declaração de amor no Soneto de fidelidade: De tudo ao meu amor serei atento... Não poderia reproduzir um Soneto do Vinicius, isso aliás nem seria uma crônica, mas foi bastante inspirador. Daí escrevi as primeiras linhas. Confesso que me entreguei de tal forma à beleza daquela garota que fiz-lhe minha melhor declaração, exaltando sua formosura tal qual jamais vista nem mesmo nos mais badalados concursos de beleza, a perfeição do rosto, obra perfeita do Criador, os cabelos pretos encobrindo os ombros em ondas tão belas quanto as mais lindas ondas do mar na praia de Copacabana, perdi-me diante dos seus olhos verdes e morri de amor em seus lábios para então aventurar-me em suas curvas suaves até o infinito do prazer...

- Você está louco? Eu só queria fazer uma declaração de amor para meu namorado! Se ele ver isso ele te mata!

sexta-feira, 11 de junho de 2021

PRIMEIRO VOU VER O WHATTSAPP

- A gente podia fazer uma viagem para comemorar o aniversário de casamento, disse a esposa esperançosa por mais umas férias no Nordeste. E o mar de Sergipe não deixa nada a desejar a qualquer praia, menos as da Bahia, de Rio Grande do Norte, Ceará... enfim, que importam os outros lugares quando se escolheu ir para João Pessoa? E lá tem o Mangai! É caro, e daí? o que vale é sentar-se a qualquer hora e fazer a refeição que tiver vontade de fazer. Assim, se pode tomar café reforçado na pousada às nove da manhã e almoçar no Mangai às quatro da tarde gastando o valor do almoço e da janta, mas não precisa jantar já que o almoço foi ‘isso’ da hora da janta, depois um passeio na orla e daí os preparativos para as comemorações do aniversário de casamento, na pousada, claro, com direito a Champagne e guloseimas! Sim. Guloseimas, até as... deixa prá lá...

Os planos da viagem estavam detalhados, e ainda faltavam quase dois meses para o embarque. Tudo acertado, a pousada reservada e as passagens compradas, só faltava cancelar os próximos cinquenta e quatro dias. Não houve outro recurso senão vive-los todos, ainda que essa tarefa, de viver os dias da espera, fosse por deveras árdua e cheia de ansiedade. Quem sabe o que pode acontecer para estragar tudo?

Dia sim, outro também, Jaqueline, a esposa, via e revia cada detalhe da viagem. A localização da pousada, as praias mais próximas, possíveis passeios turísticos, restaurantes: Mangai! Uma amiga tinha passado férias em João Pessoa e recomendara pelo menos uma refeição lá. Uma delícia! Tem tantos pratos que é impossível servir de todos eles numa única refeição! Tem até buchada de bode! Você não pode perder isso!

Aurélio, o marido, estava animado com os planos da esposa e resolvera fazer seus próprios planos. Em segredo pensava e repensava cada detalhe das surpresas que faria para encantar e surpreender Jaqueline. Ela seria tratada como rainha! Encomendaria flores que seriam entregues pela equipe da pousada no primeiro dia após o jantar. No dia seguinte uma garrafa de vinho e alguns quitutes para o acompanhamento. Champanhe, claro para o dia de sábado. Bombons e outras guloseimas sempre presente e carinho, muito carinho, beijos, abraços e, e...

E, o dia chegou. Nem tudo foi perfeito. Uma discussão que poderia ter sido só uma bobagem qualquer se transformara num bate-boca daqueles que dão a certeza absoluta da separação iminente. Não se separa antes de uma viagem para João Pessoa! Nas próximas duas semanas não se falou mais nisso. Embarcaram para a viagem balançando entre a empolgação e os remorsos da fatídica discussão.  Logo que o avião pousou no destino a empolgação parece ter vencido a disputa e os olhos se perdiam para longe do táxi que os levava do aeroporto até a pousada. O mar! Praia! A pousada era lindíssima e o quarto muito limpo e espaçoso, pronto para a reprise da Lua de Mel.

E Lua de Mel tem que ter muito carinho, amor e sexo, lógico! Jaqueline e Aurélio fizeram quase tudo. Quase! Um dia de praia, o passeio vespertino na Orla, umas comprinhas para levar de lembrança, a janta no restaurante e a volta para o quarto da pousada. Nem deu tempo de encomendar as flores, nem fizeram falta tão ocupados estiveram durante o dia e depois do jantar, quando voltaram para o quarto era como se fosse mesmo a primeira noite de amor! Resolveram fazer um joguinho para passar um tempo. Enquanto jogavam iam diminuindo as roupas, o calor era intenso! O jogo acabou com Aurélio em pelo e Jaqueline fazendo cena para se livrar da lingerie que ainda lhe restava. A cama estava bem ali, e é para lá que se foram eufóricos. Quase não daria para continuar o relato, não fosse um pequeno detalhe: O telefone.

- Espera só um pouquinho que eu vou dar uma olhadinha no WhatsApp, pode?

sábado, 15 de maio de 2021

RODA POR AQUI UM CLIPE DA TINA TURNER

 

Acabei de ouvir um clipe da Tina Turner cantando The Best e fiquei com vontade de escrever qualquer coisa que me viesse à mente porque a Tina é um show e se você prestar atenção em como ela canta fica com vontade de fazer algo que seja tão envolvente quanto ela demonstra no palco com aquele vozeirão peculiar dela, sua dança, a cabeleira especialmente preparada para aquela artista e a paixão com que ela canta, encanta e envolve a plateia que sem descontar um sequer, gostaria de ser a Tina. Quem não?

Logo na sequência veio um clipe do Dire Straits, uma gravação de garagem que me pôs bem aqui no meu escritório, onde antigamente era exatamente a garagem do carro do meu pai. Não, o clipe não foi gravado aqui, só que eu pensei que muitos casos de sucesso começam assim, na garagem. Se eu quero ser um caso de sucesso? Claro, minha ‘garagem’, transformada em escritório, tem livros em abundância onde me deleito em leituras do Drummond, Vinicius, Garcia Marques, Lima Barreto, Fernando Sabino, Rubem Braga, Odila Lange, ... Acabei de encomendar dois livros do Ernst Hemingwai, no original em Inglês que é para melhorar meus estudos da língua.

Enquanto escrevo, volta o clipe da Tina Turner, agora em outro palco, espalhando seu vozeirão e esbanjando beleza em seu corpo negro num vestidinho branco, curto. A cantora tem aquela beleza negra que muitas brancas gostariam de ter, mas não conseguem, é própria da negritude. O clipe foi postado no facebook pela minha amiga Marina, negra também, dona dessa beleza incomparável. O treze de maio marca as comemorações relativas ao fim da escravidão no Brasil e eu fico pensando se não eram os ‘brancos’ os escravos dos preconceitos que ainda hoje escravizam mentes desde ingênuos idosos aculturados em tempos idos até brutamontes encastelados no palácio do planalto.

É bem possível que boa parte da nossa juventude não tenha a menor ideia de quem foi Tina Turner ou Dire Straits ou o que significou realmente o treze de maio. Perdidos entre o Sertanejo Universitário, as novelas da televisão, os programas do Faustão e o Big Brother fica difícil encontrar uma saída para o lado de fora da caverna. Volto meus olhos para o livro que me chegou há poucos dias: Contos completos de Lima Barreto. Por uma dessas coincidências da vida, o autor nasceu no dia 13 de maio, exatamente sete anos antes da Princesa Isabel assinar abolição da escravatura neste país. Autor de belíssimos contos e romances, o escritor, negro, só teve reconhecido seu talento muitos anos após a sua morte.

Roda aqui um clipe da Bonnie Tyler, Total Eclipse of the Heart. Hoje é sábado e eu vou tomar uma bohemia.

sexta-feira, 7 de maio de 2021

A RAINHA DA BOA VISTA

 


Acordo de manhã e a primeira coisa que faço é ir até o quarto da minha mãe para saber se ela acordou, se passou bem a noite e se precisa de ajuda para se vestir, daí vou até a cozinha preparar o chimarrão enquanto preparo o café da manhã. Algum tempo depois escuto o barulho da bengala contra o piso, então vou até a mesa e ajeito a cadeira onde minha progenitora senta-se com dificuldade sobre uma almofada, empurro a cadeira para que fique próximo da mesa e então tomamos chimarrão por uns trinta minutos, daí sirvo o café com leite, corto uma fatia de pão e me sento à mesa para o desjejum. Para completar, tiro da ‘saboneteira’ seis comprimidos que serão tomados para que a vida continue. Um para afinar o sangue, outros para hipertensão, pressão alta, asma e mais outro tomado anteriormente para proteger o estômago contra a agressão destes.

Hoje levei a Rainha da Boa Vista de 1.951 para uma consulta com a dermatologista. As notícias que me vieram do diagnóstico das manchas no rosto não foram boas! Escutei em silêncio, não tive coragem de antecipar qualquer preocupação, melhor esperar pelo resultado da biópsia que será feita depois de um tratamento alternativo. A médica disse carinhosamente: “Isso parece um cancerzinho”. Disse ‘cancerzinho’ como se dissesse ‘e´so uma gripezinha’! Minha mãe não ouviu, semana que vem tem agenda com um otorrinolaringologista para ver se melhora a audição usando aparelho nos ouvidos. A doutora estava com um barrigão enorme, logo entrará em licença maternidade, vai ser mãe, talvez daqui a uns sessenta anos será seu filho a leva-la para tratamentos de pele e outras doenças que aos oitenta e poucos anos vão transformando idosos em crianças outra vez.

As histórias se repetem. ‘Acho que já contei para você’, ela diz quando vai contar outra e outra e outra vez a mesma história já contada. E são muitas as histórias. Desde a viagem do Rio Grande do Sul para o Paraná que demorou catorze dias, até o isolamento social por quê está passando, tem uma vida de liderança na comunidade. Mas tem uma que eu não quero repetição. Quando eu nasci, minha mãe quase morreu, teve hemorragia e não tinha um hospital, sequer uma farmácia onde se socorer. O recurso veio de uma parteira que injetou um medicamento sem nenhuma prescrição médica e salvou-nos.

Em 1.951 uma garota de dezoito anos foi eleita a mais bela dentre todas as garotas da cidade da Boa Vista, no Rio Grande do Sul, tornando-se a Rainha da beleza! Hoje, aos 87 anos de idade, a minha Rainha continua bela e é com ela que homenageio as mães no seu dia.

sexta-feira, 30 de abril de 2021

COMO POSSO ME DEFINIR SE NÃO SEI QUEM SOU?


O mês de abril vai terminando e eu também. Um mês é só um mês e uma vida é só uma vida. Um marco temporal. Data marcada para o fim. Estatística: finda o quarto mês do ano; finda mais uma vida. Talvez eu viva além desse mês que matou a quatro centésima milésima vida pela COVID-19, talvez eu seja o próximo número, como posso me definir?

Agora vou tomar um vinho para celebrar que ainda estou vivo e o mês não acabou. O que é um mês em um bilhão de anos e o que sou eu em sete bilhões de pessoas? Para os matemáticos, eu sou matemático, um número que tende a zero. Eu sou exatamente 0,0000000001428571 da população mundial, um número completamente insignificante. Você também!! Se eu morrer, irão acrescentar + 1 na estatística e, pronto. Hoje é o último dia do mês de abril, talvez maio nem venha a existir!

Ando na rua e vejo somente números. Três clientes numa loja que deveria estar fechada para que eles não morram de Covid, cinco na farmácia comprando remédio para prevenir a gripe e dezenas no supermercado fazendo compras para alimentar os que continuam vivos. O comércio garante o cumprimento das normas de higiene e distanciamento e até a limitação do número de clientes, mas os ônibus estão lotados. E daí, são só trabalhadores!

Enquanto escrevo estas linhas, já penso no fim... de semana quando não se deve pensar em nada que não seja o prazer de viver o feriado. Dia do trabalhador. O trabalho dignifica o homem, a mulher, as crianças e produzem riquezas que são apropriadas por pessoas que não trabalham. Ano passado os maiores bancos no Brasil tiveram lucro de mais de R$ 61 bilhões!!!! A lista da FORBES agora tem 66 bilionários brasileiros, todos com patrimônio acima de US$ 1 bilhão. Em um mês morreram mais de 100 mil brasileiros de COVID. E daí? Eu não sou coveiro!

E, já que o dia do trabalhador é no sábado, talvez eu deva tomar mais um vinho. O álcool cria uma ilusão de que a vida pode ser o que pensamos que ela possa ser, menos real que a realidade real e mais ilusória que a ilusão da qual nos iludimos. Depois de meia garrafa penso que liberalismo econômico seja como a mulher ideal: Nunca vou ter, mas lutarei até o fim para que ela seja feliz! Enquanto luto, o tempo passa e eu fico me olhando no espelho, cada vez mais velho, menos atraente, mas a mulher ideal do livre mercado desfila esbanjando bilhões de dólares em festas privadas nas melhores das orgias neoliberais! Quem sou eu?

sexta-feira, 23 de abril de 2021

EU TENHO MEDO DO COMUNISMO!


Logo eu, que sou comunista, ando com medo desse sistema tomar conta do mundo. Pensa bem. Ontem mesmo vi uma postagem sobre as barbáries ocorridas na segunda guerra mundial e um comentário implorava ao Deus ou deus, sei lá, para que nunca mais chegássemos aquela mesma situação de ameaça do comunismo. Corri até a biblioteca e procurei na Larousse Cultural e tava lá: Hitler, o vilão da segunda guerra, combatia justamente os judeus e os comunistas! Em outra postagem, um mapa, também divulgado como verdadeiro informava vários países sul americanos que já estariam sob controle dos vermelhinhos. Tentei entender o mapa. Não consegui. Pesquisei no google e não achei nenhum país deste continente que hasteasse uma bandeira vermelha com a foice e o martelo e uma estrela de cinco pontas em amarelo. Nada! Mas os comunistas devem ser assim mesmo, invisíveis a olho nu.

Outra coisa que me deixa muito assustado com a ameaça comunista é o medo que os latifundiários e os banqueiros têm. Eles são assessorados por profissionais altamente capacitados. Não é possível que suas análises políticas e econômicas estejam erradas. Banqueiros juram que somente a livre iniciativa permite o desenvolvimento das pessoas com oportunidades iguais para todos e meritocracia para selecionar os melhores em cada área. Assim, um pobre pode disputar a mesma vaga que um rico, é só se dedicar e superar o concorrente. Num eventual sistema socialista, as riquezas seriam distribuídas para todos. Um absurdo. Pobres que nunca conseguiram um emprego iriam usufruir da riqueza sem nenhum esforço, do mesmo jeito que o filhinho do rico, que nunca trabalhou, faz.

Não sei muito bem de onde me veio essa ideia de ser comunista. Deve ser algum tipo de lavagem cerebral. Já ouvi isso. Dizem que os comunistas arregimentam jovens com promessas de aventura e poder, depois mandam eles para lugares ermos onde recebem muitos ensinamentos e são doutrinados de tal forma que não conseguem mais aceitar o capitalismo. Eu fui para Cuba, onde fiquei 28 dias estudando na Escola Nacional de Formação de Quadros Sindicais, mas nessa época eu já era comunista. Isso foi em 1997, faz tempo já e eu continuo comunista. Deve ser muito convincente essa doutrina!

Veja o caso do Bolsonaro. Ele combate um comunismo totalmente imaginário. Para os bolsonaristas, políticos como Dória, Witzel e qualquer que se oponha à sua aventura ditatorialesca é vermelho, na certa! Eu tenho que admitir, me tornei comunista lendo Jorge Amado, um dos mais importantes escritores brasileiros, escrevo poesia por que amo ler Neruda, comunista chilelo respeitado no mundo todo e sou apaixonado pelas crônicas do Carlos Drummond de Andrade, outro comunista. O meu caso não tem cura!

segunda-feira, 19 de abril de 2021

O DIA MAIS IMPORTANTE


Tem uns dias que a gente pensa que são mais importantes que os outros, e são justamente aqueles que passam mais de pressa! Tipo assim, um feriado no meio de semana para comemorar Tiradentes! Por sorte esse dia é amanhã e ainda dá tempo de deixar que ele passe lentamente, como a importância que a história vem dando para o fato que inspirou essa data comemorativa. Ontem foi dia do Índio, e daí? Meu tataravô veio da Alemanha para colonizar o Sul do Brasil, junto com muitos outros homens e, não tendo mulheres para todos se casarem, laçou uma índia numa aldeia e a levou para ser sua esposa. Essa história foi romantizada por gerações até que lideranças indígenas escolarizadas puderam explicar o tamanho da violência que isso foi para seu povo.

Um feriado é sempre uma boa desculpa para a gente se alegrar, mas já pensou que tem sempre uma tragédia por trás desse dia? Só neste mês celebramos a morte de Jesus Cristo, pregado numa cruz, e o esquartejamento de Joaquim José da Silva Xavier, sabe quem é? que teve as partes do corpo pendurado em postes no caminho entre Rio de Janeiro e Ouro Preto. Dia do Índio nem feriado é! Não dá para marcar um feriado para um genocídio que continua acontecendo!

Se eu fosse legislador, proporia Lei para ser feriado toda quarta-feira e todo sábado. Domingo deixava como está para podermos descansar! quarta-feira seria dia da acumulação capitalista e sábado para lembrar de todos trabalhadores que morrem na semana devido à exploração do trabalho no processo de produção capitalista.

Mas hoje é terça e, eu não tenho nenhuma ideia para esse dia, a não ser que se canonize mais um santo brasileiro que faça o milagre de curar a ganância dos políticos e dos banqueiros. Eu sei, isso é querer demais. Não há santo que de conta de milagre tão grande! Pelo sim, pelo não, continuemos rezando e orando em missas e cultos virtuais, quem sabe Edir Macedo ou Valdomiro Santiago ou o Papa nos ensine o caminho da riqueza! Ou da humildade.

Por ora, melhor agir com cautela, pois 20 de abril é o dia do Diplomata. E, nesses tempos bicudos onde facções políticas se agridem pelas redes sociais, quem sabe não devêssemos eleger a diplomacia como a atividade mais importante! Lembra daquele primeiro ministro que mandou o presidente da Venezuela se calar? E a diplomacia do Ernesto Araujo? Pensando melhor... voltemos nossas atenções ao Tiradentes e suas inconfidências!

quinta-feira, 15 de abril de 2021

CADA UM TEM O SEU SEGREDO

Me sento à mesa deste computador para escrever e não entendo como as palavras, tão disponíveis em outros tempos, de repente se escondem como se tivessem medo de uma contaminação qualquer desse vírus que anda fazendo as pessoas se trancarem em casa, para não serem visitadas mesmo depois da segunda dose da vacina. Dei de procurar na literatura para ver se encontrava caso parecido, se não, talvez tenha chegado o fim das minhas escritas! Não demorou e encontrei um Vinicius, penoso numa crônica de desabafo com a dificuldade da escrita, eventualmente presente na hora de mandar o texto para o jornal, isso lá pela década de 1960!

É certo que meu álibi vem das ruas. Além dos supermercados que se enchem nos sábados à tarde e as lojas que se esvaziam de segunda a sexta, só as igrejas, que agora são virtuais, têm público cativo, sem contar o Bolsonaro que, por mais que faça loucuras, tem um bando de seguidores insanos e fidelíssimos, para a vida ou para a morte! As ruas estão cheias de robôs programados para continuar produzindo e quando se transformam em pessoas ficam em isolamento dentro de suas casas, quando morrem adquire-se outro na linha de montagem.

Às vezes falta matéria-prima. Isso não depende da pandemia, a não ser que o industrial seja escritor e os textos precisem de relacionamentos. Aí só tem um jeito: seguir o exemplo das igrejas, fazer cultos, quer dizer, relacionamentos virtuais! Quem nunca teve um? Essa seara, ao contrário do texto bíblico, tem muitos operários. Ali se cultivam todos os tipos de loucuras. Andei experimentando, afinal, de onde vem uma boa história?

Histórias, em tempos de pandemia, preferencialmente via internet, que só tem vírus eletrônicos, desses que destroem o Hard Disk, mais conhecido como HD, podem eventualmente infectar relacionamentos tidos por absolutamente fieis. Uns chamam a isso de loucuras de amor, outros uma aventura sem maiores consequências, os padres e os pastores juram que isso é pecado, mas os poetas, contemplando o infinito criado por Deus, sabem por sabedoria do sentimento, que o amor, ah, o amor! pode ter lá as suas licenças e permissões, inda que se tenha que morrer de amor!

 Se déssemos atenção à República, de Platão, não teríamos necessidade de guardar segredos. Para o filósofo, tudo deveria ser comum, inclusive os homens, as mulheres e os filhos. Nada de propriedade particular! Pronto. Um grave problema moral estaria resolvido. Mas, não! Enquanto o moralismo sustenta a ganância de uma sociedade hipócrita, os segredos pululam pelas redes sociais. Quem ainda não tem um segredo, que atire a primeira pedra!

quinta-feira, 8 de abril de 2021

O DATENA VEIO PARA MATAR ROUBAR E DESTRUIR

 

- A Joana enlouqueceu!

Precisava de uma resposta mais esclarecedora? Precisava, talvez uma menos enlouquecida! Joana não podia estar assim, fora das suas faculdades mentais. Sempre fora tão disponível na comunidade. Não tinha um pobre que batesse à sua porta e de lá não saísse sem uma ajuda. Agora estava assim: Enlouquecida?

Estava. Estava que estava! O marido teve que mudar de casa. De um mês para cá Joana deu de imaginar que ele ia matá-la de noite. Reuniu os filhos para falar-lhes dos planos do pai deles para a sua morte, seria cruel, ela sabia, cuidara de observar seu comportamento suspeito. Não podia mais dormir, a qualquer hora ele daria a ordem e os capangas viriam para matá-la, morte cruel, mal pegava no sono e vinha o pesadelo. Uma noite, quando o marido a abraçou, querendo um querer de intimidade e ela estava quase dormindo, que já não dormia desde muitos dias, sentiu  o braço do marido no pescoço e, de um pulo empurrou o marido com tanta força que ele caiu fora da cama e quebrou o braço que ficou preso em baixo do corpo e teve que ser levado ao hospital de onde voltou engessado.

- Bem feito! Quem mandou tentar me estrangular?

- Ninguém enlouquece assim, do nada!

O Padre andava de um lado para o outro dentro da Sacristia. Beata Severina andava atrás, de mãos juntas jurando que sim, Joana estava louca! Padre Amâncio, queira chamar José, o marido, para uma confissão que pudesse esclarecer tudo. Não adianta padre, confissão é para Deus, padre não pode fazer juízo de valor e nem julgamento! Então deixa, melhor nem confessar... E os vizinhos o que dizem? Não dizem..., dizem..., quer dizer, dizem, mas dizem que não disseram, porque ela anda de um jeito que não dá para saber se não vai quebrar o braço de outro alguém, então é melhor não dizer, ou pelo menos dizer que não disse, caso tenha já dito alguma coisa.

- E o delegado?

Não pode fazer nada, ainda ninguém denunciou. Que mal ela fez? Quebrou o braço do José! Quem disse que ele não merecia? Homem é tudo igual! Dona Jaqueline sempre se colocava ao lado dos acusados achando neles alguma inocência que fosse. E Joana? Coitada, não seria difícil arregimentar um exército de pobres que formariam fileiras em sua defesa!

Enquanto a igreja se ocupava de racionalizar o sobrenatural, na Vila, a casa da Joana virou atração turística. Da janela ela alertava para o perigo que eram os padrastos e as madrastas. Não deixem seus filhos em casa, ela gritava a pleno pulmões. Parte do público ria das peripécias, parte se indignava, especialmente quando Joana aparecia seminua invocando Afrodite, a deusa do amor! “Mais, mais...” gritava uma galera que há uma semana programara o hapy hour para a esquina próxima da casa.

- Mas, o que afinal pode ter afetado a mente da Joana?

- Não sei, Padre, disse a beata Severina, só sei que pelas informações dos vizinhos, a Joana assistia sempre o Datena! E com o volume cada vez mais alto!

segunda-feira, 5 de abril de 2021

OS EXCLUÍDOS HERDARÃO A TERRA

 

JUVITA BALLARINI

Já passei um pouco daquela idade em que a gente corre atrás dos neologismos, especialmente esses do internetês que deixam a gente meio sem saber o que se quis dizer. Esse novo jeito de falar que os jovens inventam a cada dia para se comunicar pelas redes sociais parece um pouco com taquigrafia, aquela forma de escrever que os jornalistas tinham para escrever rápido, usando sinais que simbolizavam quase que somente os sons das consoantes. Estudei taquigrafia quando tinha vinte e poucos anos e copiava as matérias das aulas no caderno com esse monte de rabiscos depois traduzia para a língua formal e assim eu fazia duas coisas: Era admirado por conseguir escrever e depois traduzir e, fazendo isso, estudava duas vezes, daí minhas notas eram sempre boas! Eu queria ser jornalista...

O máximo que consegui como jornalista foram dois dias de redação no Jornal O Panfleto. Fui sumariamente demitido. Daí a Caixa me chamou e eu virei bancário e continuei minha carreira de professor por mais alguns anos. Mas nunca parei de escrever, agora me vem essa dificuldade de comunicação pela internet. Fds pode significar muitas coisas, inclusive ‘fim de semana’, pqp não precisa tradução e todxs é um novo jeito de falar assexuadamente. Fico no meu deboismo com certos exageros.

Meu espírito jornalista encontrou hoje o foco das atenções: Dona Juvita! Eu me chamo Juvita, ela disse, sou a irmã da Lorita. Disse ‘irmã da Lorita’ como se essa informação fosse muito importante. Dona Juvita veio visitar minha mãe. Sentou-se na cadeira de fios que lhe ofereci, pôs o saco que carregava, ao lado da cadeira e disse que queria saber como estava a vozinha. Aproveitei para saber um pouco mais dessa figura folclórica desse lugarejo onde moro agora.

Juvita, a irmã da Lorita, não sabe quantos anos tem. Precisa ver no registro. Ela diz ‘ver no registro’ com a maior naturalidade do mundo! Não sabe ler nem escrever e isso parece não ser importante para essa mulher que passou a vida alheia ao sistema que organiza as pessoas num modelo de produção de bens de capital. Nenhuma importância ela dá a quem se proponha a incorpora-la a uma lógica social racional.

 Católica, parece ser uma das poucas fieis a compreender o cristianismo. “Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus”. É quase incompreensível a simplicidade com que vive e se relaciona com as pessoas. O Sermão da Montanha é uma dura advertência aos ‘cidadãos de bem’. “Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra”. Pessoas como Juvita, a irmã da Lorita, herdará a o Céu e a Terra!!!!

quinta-feira, 1 de abril de 2021

ERA 31 DE MARÇO OU 1º DE ABRIL?

             Aproveito as duas datas para publicar esta crônica, já que a escrevo no último dia de março e será publicada no primeiro de abril, ambas datas com celebrações e troças. Sei que meus textos não agradam a todos que os leem, assim como a ditadura imposta às vésperas do dia da mentira, em 1964, não agrada aos que defendiam e ainda defendem a democracia, então aproveito que ainda temos democracia para celebrar as lutas sociais que advieram em oposição à fatídica madrugada daquele dia da mentira, primeiro de abril de 64.

Para ser sincero, prefiro mil vezes as loucuras de amor em tempos de paz! Fui jovem na década de setenta e oitenta quando o Brasil era governado pelo séquito de militares que prometiam um novo país ordeiro e seguro. Os bailes de salão embalados pela banda Os Wikins de Marechal Cândido Rondon faziam rodopiar os sonhos mais lindos e as garotas mais encantadoras, até que, em algum momento, para desespero da juventude, cantavam: Ai, ai, ai, está chegando a hora...

O líder da banda, o cantor Walter Basso, ainda faz sucesso com suas músicas e até hoje apesenta programa de rádio. O Brasil dos militares também fez sucesso. Obras como a transamazônica, a ponte Rio-Niterói e usina de Itaipu são obras de vulto. A Petrobrás se tornou a mais importante petrolífera do mundo e todo setor estratégico como riquezas minerais, telecomunicações, energia e navegação de cabotagem eram estatais e a indústria produzia seus próprios bens de capital! Tudo alimentado por captação de divisas externas abundantes, enquanto o povo encantava as praias do Brasil ensolaradas e cantava eu te amo meu Brasil! Mas, ai,ai,ai...

Quando voltei do Colégio Agrícola, em 1977, encontrei o grande amor da minha vida! Uma garota maravilhosa de quem tenho saudades até hoje. Me apaixonei pelos livros e fiz descobertas incríveis: Eles não usam black-tie, Cabra marcado para morrer, O que é isso, companheiro?, Zuzu Angel, Batismo de Sangue, Lamarca, Chuva sobre Santiago, Tortura nunca mais e outras obras que iluminavam a sangueira das Veias Abertas da América Latina.

Sinto saudades da minha garota como muita gente sene saudades da ditadura militar, uma ilusão sobre algo que não conhecemos bem. Conheci outras garotas e tive outros amores, a literatura engajada de Jorge Amado e o romantismo compromissado do Neruda me levaram ao altar da justiça social onde firmei compromisso eterno com a democracia e a igualdade de oportunidades, Leonardo Boff me levou direto à opção preferencial pelos pobres e Frei Beto ao socialismo cristão.

Afinal, foi 31 de março ou 1º de abril? Era tudo mentira?

domingo, 28 de março de 2021

SEMANA SANTA NUM MUNDO INSANO

             O mundo cristão comemora esta semana o evento mais importante do mundo religioso. Tem gente que ama peixe e não vê a hora do jejum da sexta-feira santa para cometer o pecado da gula, depois é só esperar a quarta-feira de cinzas e confessar, o padre manda rezar três ave-marias e, pronto: tá perdoado!

Este ano o caso está bem complicado. A maioria dos prefeitos e governadores resolveu fechar o comércio e as igrejas, justamente nesta época em que há um forte apelo em ambos os setores. O comércio sempre conta com datas especiais como essa para faturar alto e não são poucos os que protestam contra as medidas de prevenção contra COVID-19. Já as igrejas, com raras exceções, estão de boa com a prevenção. Nem é muito difícil de entender, comerciantes entendem que o Capital é mais importante que a vida e o lucro vêm do fortalecimento do capitalismo. Já as igrejas aumentam suas receitas se os fiéis continuarem vivos.

Não sou comerciante, então está até um pouco mais fácil fazer a crítica. Mas, Páscoa, que no original hebraico é pesach, e significa passagem parece uma boa metáfora para os dias atuais. A praga, que hoje chamamos de Corona Virus e vai ceifando vidas por todos os cantos, os Hebreus conheceram com outro nome, chamavam de morte mesmo. Enquanto os Egípcios protestavam contra a prevenção e viram seus primogênitos morrerem pela praga, os Hebreus vacinaram suas casas com o sangue do cordeiro.

Também não quero fazer nenhuma comparação maldosa, mas o Faraó também não aceitava nem um tipo de prevenção contra as pragas até que a morte ceifou pelo menos um dos filhos de cada família egípcia para só então tomar uma atitude mais prática e libertar o povo Hebreu da escravidão. Por esses dias em que no Brasil se chegou a mais de três mil mortes num único dia, parece que o Faraó vai libertar o povo comprando vacinas.

Esta semana levei minha mãe para tomar a segunda dose da Corovac, a vacina comunista que o Bolsonaro disse que jamais compraria. Comprou. É meio como que passar o sangue do cordeiro no umbral da porta. Este ano vamos comemorar a Páscoa! Entre o lucro que alimenta o capitalismo e o fiel que permanece vivo, fico com o último. Minha mãe foi Ministra da igreja por décadas. Jesus Cristo, uns diazinhos antes de celebrar a Páscoa passou pelo templo e expulsou os comerciantes e banqueiros gananciosos!

NÃO TEM A FOTOGRAFIA

 

Por que só posso imaginar

E não ver a fotografia

Das tuas pernas roliças

De que tanto te elogias?

 

Já te pedi e não queres me dar

A imagem que tanto quero ver

Do teu corpo lindo

Prenhe de prazer

 

Onde teus olhos negros?

Onde teus cabelos loiros?

A malícia do sorriso?

E a boca de batom?

 

Onde?

Se me negas o essencial

Da imagem do teu ser

Não posso te amar

Nem no dia do teu querer!

 

Ainda que me queiras

Ainda que eu te queira

Como podemos ter o amor

É imoral? É pudor?

 

Vivemos da fantasia

Do que não é permitido

Daquilo que o mestre Raul dizia

Ser a maçã, proibida!

 

Quem proíbe a maçã de se comida?

É o pudor, ou é a crença religiosa?

O senso moral. Que moral?

Qual é mesmo o mal?

 

O compromisso do dia da escolha

Tinha escolha? Racionalismo!

Eu me comprometo a ser fiel...

Não era a natureza. Era a razão!

 

Que razão tem a razão?

Onde está o amor?

Não quero mais o compromisso

Tenho razões para não querer

 

Já me basta a idolatria dos santos

Já me bastam os dogmas de Roma

Sou livre para viver.

Amanhã há de ser um novo dia.

Vou te amar até o amanhecer!

MARIA CLARA E SUA LINDA CABELEIRA (II)

                      Maria Clara tinha dezoito anos quando se casou. Seus cabelos castanhos, ondulados até o meio das costas, estavam guard...