A ideia de acampar, por si só já é
uma coisa boa, montar a barraca num lugar bonito, entre árvores frondosas,
perto de uma grande represa com vista para uma praia tranquila, curtir o pôr do
sol e esperar o amanhecer tomando uma cervejinha em boa companhia...
... Um verdadeiro Paraíso! Damos
nomes a todos os animais que circulam pelo bosque ou se banhando nas águas
mornas do lago de Itaipu. Os animais são domesticados, as aves são cantoras e
as árvores fazem a harmonia das músicas toda vez que o vento balança os galhos
e derruba as folhas num eterno desfile de papel picado imaginário. De manhã,
quando se bota a cara amassada pela porta da barraca os olhos brilham com as
mangas que caíram madurinhas durante a madrugada, vêm como vinha o maná dos
hebreus, a cada dia, e não adianta guardar para o dia seguinte porque elas caem
com data de validade para o mesmo dia, no dia seguinte só servem para atrair as
moscas varejeiras. Senão guardar, tudo bem, o maná amanhece em frente da
barraca outra vez!
Enquanto o chá espera o desjejum de
frutas e cereais, a porta da barraca se abre para o bom dia que vem descabelado
e sorrindo. Não tem nenhuma necessidade de pentear os cabelos, é a natureza me
devolvendo o que era meu há pouco quando não tínhamos nenhuma necessidade das
coisas comerciais, nem mesmo das roupas ou calçados, a natureza nos bastava e,
agora que temos necessidade de roupas por causa dos vizinhos de acampamento,
nos olhamos agradecidos por mais um dia feito só para nós dois. Ainda que os
outros insistam em nos ver, eles não têm a menor importância, convivemos com
eles como convivemos pacificamente com os pássaros e os outros animais que
usufruem da natureza maravilhosa da Praia de Porto Mendes.
Desejamos estar no Paraíso e ali
permanecer para toda a eternidade, mas é só procurar pelas coisas compradas
nalgum comércio e que consideramos necessário para o dia que se nos apresenta
gratuitamente pela providência divina, que começa o perrengue. Acampamento não
é uma casa organizada, por mais que cuidemos para deixar tudo em algum lugar
conhecido, ao procura-lo não encontramos nem por nada deste mundo, daí viramos
todas as malas e caixas desarrumando ainda mais o que já era, digamos, uma
bagunça organizada. No Jardim do Edem não havia nenhuma necessidade de malas e
caixas e as coisas nunca estavam desorganizadas, simplesmente porque não havia
coisas, só a natureza. Ah, quem dera o Jardim não estivesse fechado e o anjo
que guarda a entrada nos permitisse ficar por lá por uma temporada eterna!
Nem só de manga vive o homem, então
vamos almoçar num restaurante onde encontramos frutas e verduras produzidas com
uma abundância de agrotóxicos, e uma grande variedade de comida gordurosa e
frituras em óleo de soja reutilizado. Uma delícia de comida temperada! Faz mal,
mas é muito bom!!! De lanche comemos deliciosos pães de queijo feitos sem
nenhuma grama de queijo e bebemos cervejas feitas com milho em vez de cevada.
Mas não reclamamos, decidimos que, se estamos acampados em meio à natureza,
então todos os produtos são naturais, inclusive as verduras e os demais
alimentos, tudo absolutamente orgânicos e, se algum mal nos sobrevier, vamos ao
médico e ele que lute para nos curar, ele ganha bem para isso.
As águas da praia do lago estão
aquecidas pelo sol escaldante do dia e mergulhamos nela como se usássemos
óculos de realidade virtual, as nuvens refletidas na água nos fazem flutuar no
espaço, nadamos de costas em nuvens de algodão e rodamos nossos corpos num
espaço sem gravidade. Quando os pés tocam as pedras no fundo do rio, percebemos
o lago e olhamos para o horizonte infinito onde o sol se põe, daí saímos
apressados para fazer pose e guardar para posteridade esse sentimento de
pertencimento às belezas incomparáveis da natureza. As imagens no celular nos
fazem perceber que estamos entre dois mundos, basta uma mordida no fruto da
árvore do conhecimento do bem e do mal e seremos expulsos do paraíso.
Voltamos felizes para nossa barraca e
percebemos uns carros estacionando por perto, uma fogueira foi acessa
anunciando churrasco e o capô se abriu para a música sertaneja universitária
que nada tem de sertaneja e muito menos de universitária, o timbre da voz nunca
muda e as notas parecem gotas torturadas saindo do alto falante. Pegamos nossas
cervejas geladas, duas cadeiras de praia e fomos apreciar o anoitecer na beira
do lago. Duas horas de sofrência e eles se foram satisfeitos de tanta carne e
cerveja temperados com a mais triste música do universo! A natureza agradecida
nos recebeu de volta para mais uma noite de paz. Quando amanheceu, um maná de
mangas amarelas com data de validade de um dia forrava o chão do nosso pátio.
Três dias vivendo as maravilhas do
paraíso e já não sabíamos onde encontrar as mais simples coisas sem ter que
revirar o acampamento. Foi nesse terceiro dia que descobrimos que o pior ainda
estava por ser encontrado no meio dessa bagunça de vida. Tinha algo que nos
incomodava e não era o carregador do celular que se escondera embaixo da mala
na caçamba da saveiro, também não era a cantoria da galera do churrasco, menos
ainda as moscas varejeiras que se deliciavam com os restos das mangas com prazo
de validade vencidos. Não era chuva e nem tempestade. Haveria algo pior num acampamento
à beira lago de Itaipu?
Pois havia, inacreditavelmente
fatídico, o destino nos fez permanecer isolados no paraíso por mais uma semana.
Os alimentos cultivados com agrotóxicos e gordurosos que comemos estavam aos
nossos olhos e podíamos ter evitado, a triste música sertanoja estava aos
nossos ouvidos e podíamos ter evitado, as mangas com data de validade podíamos
jogar para longe, mas o que não se vê, não se ouve, não se sente, como evitar?
Em algum lugar entre Dourados, Ponta Porã e Porto Mendes fomos contaminados com
o vírus da COVID. Pois, no terceiro dia de acampamento sentimos um leve, mas
persistente, sintoma de gripe, fizemos os exames e: POSITIVO!
Agora estamos condenados a viver no
paraíso por mais uma semana, graças a Deus com sintomas muito suaves o que nos
dá condições de fazer aquilo que lá no fundo do coração mais desejávamos: Ter
um tempo só para nós!